elianecolchete
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{ como o espaço de um novo blog me foi negado a menos que escolhesse uma nova conta, que porém creio que poderia interferir com minha decisão de concentrar as publicações na internet num único lugar para assim cortar as possibilidades de mais sabotagens ainda - negado pois, quem sabe ou saberá por qual agência? - alegando-se por uma tabuleta que já tenho "muitos" blogs, na verdade cem, estou aproveitando o espaço deste, antes destinado à poesia. Estou transcrevendo e complementando o texto que elaborei em manuscrito neste ínterim - desde a criminosa intervenção direta na minha conta e word do meu computador, intervenção por parte de desconhecidos que alterou conteúdos de texto, e que reportei detalhadamente ocorrendo entre 27/09 e 03/10 deste ano; o relato está em blogs intitulados "lista de blogs", e "denúncia na rede"; intervenção porém esperável devido aos abusos flagrantes que tenho há anos relatado na Internet.
Como fazer parar o criminoso atuando intervenção clandestina sem identificação ou qualquer permissão legal, nos computadores pessoais, e atuando com finalidade óbvia de reduzir a pessoa à obediência a ordens sem qualquer fundamento de legitimidade, é uma questão de Estado como da sobrevivência da legalidade. É sempre essencial sublinhar que a privacidade é o fundamento da racionalidade legal. Os computadores pessoais que monopolizam a escrita privada e os documentos públicos devido a política do governo, não tem qualquer garantia de conservação dos conteúdos registrados, pois são intrusáveis por desconhecidos.
Repito aqui o que tenho registrado em todos os blogs com relação ao meu caso particularmente: toda intervenção por parte dos bandidos desconhecidos é inteiramente contrária aos meus interesses, revela intuito de dominação odiosa e coação da minha pessoa além de apropriação ilegal de minhas obras, e de "falsidade ideológica" por manipulação desautorizada dos conteúdos; nenhuma licença me foi pedida ou por mim concedida a qualquer indivíduo para consecução de tais atos ou para qualquer intervenção em minha conta e meu computador.
A cyber delegacia não registra queixa.
Podemos pois considerar que estamos pela "globalização" como imposição de "multinacionais", na decorrência de total desgoverno.}
Teoria da Potência : Uma ambiguidade histórica
I = =
O útil está na vida, mas no pensamento está a liberdade. A diferença está do lado desta última, o que instaura a oposição. Seja a retomada daquele ponto da controvérsia entre Schelling e Hegel, a propósito do equipossível e do ser. Schelling contrapôs-se à lógica de Hegel, porque esta, começando com o ser, parecia introduzir algo de incondicionado, mas na verdade tratando-se já do número, um primeiro, logo algo oposto quantitativamente, e assim também em oposição ao não ser. O equipossível, ao invés, instala o pensamento anteriormente a qualquer oposição e assim ele se autocompreende como o desejamos, a fonte existencial como do sentido.
Se pressentíssemos algo de questionável na partição da diferença de um lado, com o útil vital oposto, o sentido os reuniria e a vitória retornaria ao pensamento com lucro ao útil e à vida. Mas é certo que o equipossível está acima da identidade? E não é a identidade um par de opostos relativamente à diferença? Agora lidamos com a diferença em geral. Se antes estabelecemos uma em particular, procedemos de um modo notável, pois entre a vida e o pensamento referenciamos realidades totalizantes do real em si, e todas as filosofias até hoje tomam posição na totalidade, como a princípio entre matéria e espírito.
Propomos que Hegel possa agora retomar a palavra e responder à objeção explícita de Schelling.
Se visássemos a dialética como ideologia, não o pensamento como ele é refletido criticamente, mas como ele é em si ainda que já como tal um "para si", a questão importante não seria quanto ao objeto, o eu é em si, nem o fenômeno na sua constituição de si. Ambos são ainda contrapostos como em todas as filosofias, matéria e espírito. na ideologia estamos aquém ou além da especulação, o espelho da mente não deforma a realidade que reflete mas não serve a si mesmo apenas, e sim ao desejo subjetivo.
Se a reflexão é um ou outro daquele par de opostos filosófico por excelência, como o eu é refletido, na ideologia já houve a transferência da preponderância na oposição, que passou à polaridade de identidade e diferença como o que está em questão em se tratando do desejo subjetivo. E se é duvidoso que o equipossível não seja identidade hipostasiada ao absoluto, na ideologia com que o mundo refletido/especulativo ou conceitual se desenvolve pode ser que não se comece jamais assim, mas precisamente pela diferença, aquilo que se dá como falta, de todo ausente, o desejado que não sabemos a princípio se o é por si ou pelo contrário de si como supressão de algo justaposto, sobreposto, intrusado.
Até aqui poderia parecer que tenhamos estabelecido os pródomos do que se designa bem uma filosofia da identidade. Para Schelling, o início equipossível como instauração do pensamento em si mesmo desdobra um mundo de oposições como de diferenças a se suprimir na resolução do mundo como pensamento, e, assim, no pensamento estaria a chave em devir de cada oposição em seu ser, a ideia que reúne o múltiplo sendo impulso à perfeição ideal. Como entre a elipse e o círculo, na exemplificação de Schellling, a antítese é conservada na ideia da perfeição que rejeita a primeira como conveniente aos céus, mesmo que elíptico eles sejam quanto à trajetória material dos planetas.
Para Hegel, entretanto, o pensamento é o movimento impulsionado pela diferença que deve porém do mesmo modo ser suprassumida ao reencontrarmos o elo do pensar em sua trajetória ideal-objetiva. O desejo subjetivo acontece como o acometimento da falta na diferença, algo que rompe a perfeita simetria do isso que sempre muda mas permanece o siso mesmo que mudou, por introduzir a necessidade. E com ela o vir a ser concatenado da resolução suprassumidora das diferenças.
Sendo filosofia da identidade, todo romanticismo ante-positivista colocaria uma questão à história. Nietzche poderia ser por mais de um motivo interpretado como o novo momento schellingniano após o êxito histórico de Hegel. O equipossível é evidentemente potência, contra a motivação em jogo na tese do desejo como falta. Há contudo a divergência nietzschiana a todo idêntico, na descoberta da pluraridade ou o que poderia melhor ser considerado o aprofundamento da descoberta do Inconsciente como da pluralidade que se desenvolveu como romanticismo. A modernidade aqui se interrogou geopoliticamente. Enquanto o enunciado pioneiro do Real plural da cultura histórica e evolutiva, a modernidade é europeia. E assim é enquanto a efetividade do mundo pós-colonial em que o futuro se inscreveu porém com a letra do liberalismo de Estado, nacional/constitucional. A pluralidade cultural, o contexto da descoberta e que inviabiliza todo classicismo, foi então reposicionada em função da problemática do enunciado - o dessa mesma descoberta - transcrito como superioridade da ciência. Trunfo europeu, mas lugar e sentido de um sujeito (= qualquer) da história como trajeto da consciência à autoconcepção na linguagem. Nova filosofia. Ao invés da Identidade, deveríamos atribuir como a do Sujeito.
Em Nietzsche a pluralidade não se funde na captação enunciativa do Saber. A modernidade se restringe ao jogo da potência, ela mesma quer o múltiplo e o desigual. O desejo é a plenitude das figuras do acaso e da sorte que prospera na efetividade da matéria. A retomada do romantismo schellingniano em Nietzsche revela-se mais como aparência. Existe, mas há o que se mostra ulterior.
O equipossível em Nietzsche se qualifica, multimorfiza, nunca foi o idêntico sem diferença, mas o jogo das forças ultradeterminadas sem dialética, pura ideologia furtada a todo criticismo possível, que se afrontam em eterno caos. Este que como tal, contudo, também não poderia ser a identidade do que se furta a toda ordem, mas inversamente engendra as figuras do acaso em qualquer apreensão configurável das forças, intensidades qualitativa e quantitativamente determinadas do desejo. Contudo esta é já uma leitura, uma interpretação. A ambiguidade do texto nietzschiano é notável quanto a todas estas instâncias que autorizariam a atribuição positiva de uma teoria conceituável, a determinação, a quantidade, a configuração, sobretudo a potência que a tudo reúne, e vamos examiná-la à frente.
II = =
Conforme aos interesses da atribuição positiva de uma teoria nietzschiana, teríamos a identidade de cada configuração hierárquica das forças em um campo que as apreendeu, um possível conjugável a específicos devires, quiçá inantecipáveis.
Porém a ideia que está por trás de tudo isso, sendo a potência, não temos aqui como para Hegel, o retorno do desejo como traço resolutivo da relação entre plenitude e necessidade, vazio e saciação? O destino do conceito de potencia tornou-se agora crucial filosoficamente interpretar.
A energia potencial aristotélica, onde por primeiro a "potência" se tornou conceituável em filosofia, estava do lado da matéria, domada, feita inteiramente subserviente ao espírito como ato ideal.
Em Nietzsche, na retomada do termo "potência", a matéria é tudo, forças por configurarem campo, e, assim, transmutarem-se em ordem iterável. Uma reordenação ulterior às polaridades matéria/espírito, e diferença/identidade, surge pois na instância da "transmutação" das forças que vai ser superenfatizada na noção freudiana de "sublimação" dos instintos, da qual resulta a inteligência. Mas nessa ênfase o que retorna é espírito puro. Liberdade do pensamento que não se deixa determinar pelo útil mas se concatena por sua lógica simbólica/significante inteiramente autônoma, dobrando toda utilidade ao seu percurso - não o contrário. O que impulsiona a emergência da oposição pós-positivista de instinto e inteligência, é então algo que não se deixaria apreender na nomeação dos pares espírito/matéria ou mesmo identidade/diferença, a saber, a qualificação das forças como matéria apenas do desejo.
Contudo, se assim o rastro pressuponível aristotélico da potência/desejo-como-falta na filosofia de Hegel se elide, na verdade não há aí tanta simplicidade como sugere a diferenciação histórica de antigos e modernos, ou de Nietzsche e Hegel enquanto pertencentes à influência de pares de opostos diversos. Freud é mais hegeliano que nietzschiano, e demonstra-o a história da psicanálise onde as sedições internas desde Oto Rank se utilizam de Nietzsche.
Em Freud, o desejo só se encaminha à sublimação como ao seu destino ideal porque inicialmente dispõe-se a falta, conforme ainda a um correlato paradoxal que é o rodeio intersubjetivo da plenitude, os objetos parentais da libido como mediação de toda satisfação possível, e os demais destinos instintivos dessa situação resultantes, podendo ser aí associados a mecanismos de defesa de um "eu" assim posicionado.
Com efeito, podemos questionar o significado da expressão nietzschiana "vontade de potência". Ao que sugere o significado linguístico, o que deseja a vontade, como seu complemento é a potência. Com boa intenção poderíamos interpretar a esta como o mais querer ou o mais-de-gozar lacaniano. Mas também o que o desejo quer, podemos conjecturar, é já o desejo como força ou potência exercendo-se sem diferença ao ato em que se efetua de qualquer modo, como falta ou plenitude, essa oposição por esse ângulo já não seria tão importante a não ser para efeitos de história efetiva. Em todo caso, como fata ou plenitude, é a mesma força que se realiza em meu ato de apetição ou repleção.
Se o que o desejo quer é a força mesmo se exercendo, e temos aí apenas tautologia, não se trata do gozo conceituado por Lacan, independente da aparência. A força é presença inteiramente qualificada, este ou aquele desejo como esta ou aquela impulsão. Mas porque assim teríamos a concepção de "potência"? Seria a palavra correlato da ereção masculina, desejo metonímico da sexualidade? É interessante que de uma mulher se possa dizer frígida, porém não "impotente". Mesmo que fosse assim, contudo, a "potência" conserva a característica da necessidade. Ela é possibilidade, porém ainda privação até que sobrevenha o ato. Mais do que qualquer referencial, o da sexualidade se constitui nocionalmente na oposição aristotélica.
Em Hegel, inversamente, independente do que pressupõe o "Dicionário de Filosofia" de Abbagnano quanto ao "devir", é questionável a correlação do desejo à potência aristotélica. Também Deleuze erra nisso consideravelmente, julgando Rimbaud redutível à Aristóteles, inversamente a Kant.
Ora, a refutação é simples. A oposição é clássica de ponta a ponta enquanto ante-evolutiva e ante-histórica. De Aristóteles a Kant, passando por Descartes, a dualidade de espírito e matéria é tão radicalmente opositiva que o gênero storia desde Homero conhecida, se proscreve à mera crônica de literária proveniência acerca do que é fortuito e inessencial. O remédio antigo a esse mal da carência de conceito na storia foi a "erudição" que da coleção textualizada de fatos desdobrava o exemplo de alguma já existente moral universal, como o trajeto da queda à redenção ou, nas proximidades do Iluminismo, os ricorsi viquianos, inspirados possivelmente pelo estado selvático do aborígine americano.
Na transformação da storia em História ou ciência social, temos o inteiro romanticismo, e é por isso que apesar do embate estético, podemos trata-lo como um paradigma metateórico bem delimitável e situar nele a Hegel.
O decisivo na criação da História como ciência - ou "modernidade' mas naquilo que a pós-"modernidade' não ultrapassou - é justamente o que impossibilita o dualismo. A interpenetração de espírito e matéria é a inteligibilidade do evolucionismo e a filosofia do sujeito é uma filosofia do devir que deve contudo, agora, explicar-se em termos de ciência, pois o devir foi feito correlato da realidade, e, como aquilo em que se reflete, está cientificamente informado.
A oposição antiga vemos impossibilitada ao pensamento o mais claramente nisso pelo que a anteposição à metafísica já não poderia ser feita como enunciado da inviabilidade do conhecimento.
Seria certamente apenas ignorância muito praticada resumir assim a sofística e o ceticismo, ao invés de, ao contrário, um primeiro delineamento da ciência experimental empírica e contra o racionalismo inatista ou apriorístico. Porém o sentido do empirismo antigo não é o mesmo que o moderno, pois quanto a este de nenhum modo se incompatibiliza com o postulado de leis fenomênicas e espirituais, intelectivas. Ainda assim o classicismo não foi ultrapassado, mas só pela posterioridade ao a priori kantiano, restrito ao objeto. A emergência do sujeito pensável é o correlato da reconfiguração do objeto em devir, na transformação social e epistêmica correlata à autonomia das ciências experimentais e humanas.
Certamente há algo que relembra o limite sofístico e cético do conhecer ao homem, porém justamente isso não era propriamente "conhecimento" na acepção de episteme, como agora é. Mas quando se trata do pensamento como do sujeito desejante em devir na cultura histórica, isso também já não implica a impossibilidade da ciência além da prática mutável. A modernidade é a ciência evolutiva e a historicização das "humanidades", mas como história das oposições que conceituamos, resta ainda muito a questionar.
É então que a oposição de ato e potência, assim como a antiga ideologia do sexo, se deixa ultrapassar pela "lógica" ou simbólica da transmutação/sublimação, entre Nietzsche e Freud. O trajeto da modernidade se depara em nossa época, porém, com o que nos faz retornar ao romantismo e a Hegel, visar como necessário desfazer os anacronismos que de Nietzche a Freud tem prejudicado a compreensão do que impulsionou a emergência do sujeito pensável.
Na simbólica da transmutação/sublimação, vemos que reside como alicerce a intersubjetividade ou cultura em termos hegelianos. Em plena filosofia do sujeito, assistimos ao vir a ser da ciência do Inconsciente, cuja instauração definitiva como psicanálise é capítulo mais canônico da história da psicologia "médica" do que propriamente da filosofia. Na segunda metade do século XX, o pós-estruturalismo operou o retrocesso na teoria do Inconsciente, da ciência à filosofia, deslocando nominalmente o referencial de Freud pelo de Nietzsche. Porém de fato tratou-se de um Nietzsche lido à luz do inconsciente psicanalítico, por sua vez interpretado como numa conjunção possível à temática do Dasein heideggeriano; ou se o anti-heideggerianismo de Deleuze pareceria assim exceção, em todo caso, conforme à inteligibilidade da "memória virtual".
Aqui o desejo retornou ao fenomenismo transcendental kantiano, porém como de fato não foi nunca "desejo" o que esteve aí, o amálgama filosófico pós-estrutural produziu algo deveras inaudito, cuja expressão complicada encontrou afinal formulação mais explícita em Derrida como intérprete de Freud em "A escritura e a diferença'.
Como Derrida expressa e é bastante conhecido, Freud cercou por várias tentativas teóricas o objetivo de justificar a sublimação em termos do destino manifesto do desejo instintual. como tal, "desejo" não significa necessariamente o correlato ordinário de qualquer finalidade representável, mas apenas impulsos inconscientes que devem ser objetos de operações psicossistemáticas que os tornem tradutíveis à consciência como correlatos inteligíveis.
Os impulsos inconsciente não são pois as funções comuns reconhecíveis na cultura - se são relacionáveis a elas enquanto universalizáveis conforme a "escola inglesa" ou não, conforme Lacan, não importa para o caso. A sublimação os destinou como funções, mas em si são algo tão irredutível quanto o sujeito e a sociedade em termos do modo de ocorrência das ações possíveis.
O Inconsciente puramente subjetivo não está limitado em seus atos pulsionais pela consciência da independência existencial dos objetos e/ou pessoas que o povoam como correlatos de emoções profundas. Porém desde o estruturalismo de Lacan, o conceito freudiano de pulsão instintual (trieb) encontrava-se transformado num correlato socializado. O conteúdo instintivo devia sempre já estar problematizado pela pressão intersubjetiva familiar educativa, efetuando-se desde a inserção primordial da criança na família, e assim todos os seus atos e necessidades primitivas. Como em Freud, a cultura variável encarna as posições e perversões possíveis da trajetória edipiana.
O pós-estruturalismo aproveita de Lacan a socialização problematizante das pulsões, porém descarta a universalidade do Édipo. Isso implica a mudança na ênfase dentre as várias teorias enunciadas por Freud como hipóteses formativas do inconsciente, da trajetória edipiana à concepção de traços mnésicos - traduzido em francês não por "traits", mas sim por "traces".
Estes seriam marcas impressas no inconsciente, como correlatos das primeiras sensações e interações do organismo com o meio. As marcas seriam respostas à pressão do desconhecido perceptível sobre o psiquismo, e se organizariam numa espécie de sistema ou gramática interna, que passaria a reger a entrada das percepções posteriores. Tanto a seleção das efetivamente recebidas quanto a sua qualidade, com descarte das percepções não assim pré-ordenáveis.
Derrida apresentou as várias formulações que Freud fez dessa concepção, destacando a sua metáfora da gramática interna como uma escritura psíquica, em termos do "definiendum" da teoria propriamente derridiana da Escritura como teoria geral da linguagem como ordem do "significante". Desconta contudo a reserva de Freud quanto à redução do psíquico, as pulsões e sua organização, ao sistemático ou inscrição semiótica. Reduz Derrida pois, o primeiro ao segundo que assim se libertaria da pecha de um mero expediente. Mas deste modo teríamos, na tradução pós-estrutural, a gênese do a priori fenomenista, Kant explicado por assim expressar - Lyotard o enfatizou o mais possível, mas também Deleuze insistiu nesse aspecto. Por outro lado, o a priori não seria universal, mas sim cultural e/ou subjetivamente variável. E estando liberto da implicação edipiana, também ocorre ser de certo modo dessexualizado, pela onisexualização da energia inconsciente.
A oposição instinto/inteligência se relativiza pela reformulação da energia em termos de sistema de marcas que se podem conceber como vir a ser do signo. A proveniência da presença (Dasein) heideggeriano, que desloca a imediatez pela pertença a um passado puro como o sentido já-aí da cultura que precede as atribuições aprendidas/criativas possíveis, encontra-se referenciada em Derrida e Lyotard, tangencialmente em Foucault, como analogon do sistema semiótico mnésico-freudiano. Nessa conjunção, aspectos indesejáveis de ambas as partes, Heidegger e Freud, estariam purgadas.
Restaria a preminência transcendental do signo. Este já não seria dualmente considerado conforme a oposição de significante e significado; mas como inscrição ou marca em circuitos conformes a uma ordem de leitura, forma princípios operatórios construtores do efeito textualizado da linguagem. Em Derrida, a marca é o significante puro, como também para Lacan. Mas não assim em Deleuze e Guattari, que pensam o significante como já um sistema determinado, entre outros possíveis, e aquele propenso à paranoia metafísica do objeto universa, portanto nem mesmo o mais adequado à ciência.
A inspiração em Nietzche é contraditoriamente afirmada, em outros textos dos mesmos pós-estruturalistas, quando se trata da depuração dos aspectos a eles indesejáveis da teoria freudiana, como a universalidade do Édipo e a sexualidade pré-genital da libido originária. Essa contradição não é resolvida pela simples partição do que se rejeita ou preserva. A peça espetacular do pós-estruturalismo foi montada como propaganda de Nietzsche contra Freud, num contexto em que isso significava chamar a atenção sobre si como teórico original, independente da genialidade onipresente de Lacan, e tão historicamente importante quanto ele. Sem porém bandear-se explicitamente para o lado oposto à teoria estrutural, a hermenêutica anticientífica do existencialismo, entre Sartre e Heidegger.
É certo que Foucault iniciou-se como psicólogo interessado nas formulações de Binswanger, enquanto Derrida escrevia sobre Husserl. Porém eles se tornaram conhecidos como integrantes da onda semioticista que com Julia Kristeva entre outros ampliava consideravelmente a revolução que Lacan já fizera pela inserção da linguística na teoria do Inconsciente. Nessa operação, Lacan havia convertido seu familiarismo durkheiminisano inicial ao estruturalismo de Lévi-Strauss.
Assim, como inovadores dentro da concepção centrada no signo, os pós-estruturalistas foram tão polêmicos anti-freudianos, como o Anti-Édipo de Guattari e Deleuze o demonstra, quanto críticos do significado hermenêutico, tendo se tornado célebres nessa rotulação, e só estudos mais atentos revelam o seu verdadeiro aporte como produtores do amálgama Freud-Nietzsche-Heidegger.; Este que resultou na filosofia da "memória virtual", com variadas soluções ao problema comum da gênese do a priori na formação do passado puro, como acontecimento do sublime kantiano aplicado ao que ocorre na gênese das marcas - a propósito, ver também de Lyotard, "Heidegger e os judeus".
A teoria da percepção em que Freud calcava-se para propor a solução dos traços mnésicos está hoje superada, ainda que tampouco o pós-estruturalismo o registre. A qualidade e espácio-temporalização da percepção pode explicar-se pelo aparelho perceptivo, ao contrário do que se acreditava na época de Freud.
Porém a teoria da personalidade ainda deve muito à psicanálise, como variantes, e subsiste a prova da interveniência de variantes da personalidade subjetiva no resultado perceptivo. E aqui meu interesse não é de incursionar pela história da psicologia quanto à evolução dessa problemática - ou quanto às lacunas que subsistem na decalagem entre o que já estava conceitualmente investido e as descobertas posteriores. Certamente uma das principais questões políticas da nossa época é a irredutibilidade da linguagem subjetiva e sua liberdade, contra a analogia computacional e a apropriação dos espaços de escrita pelas multinacionais da dominação info-midiática.
III = =
A oposição inicial de utilidade e liberdade, em nossa exposição, colocava-se como endereçamento da problemática romanticista de identidade e diferença como interioriozação que solvia a dualidade de matéria e espírito na filosofia do devir histórico e evolutivo. Enquanto realidade subjetivada, a polaridade entre identidade e diferença enunciava o paradoxo do desejo como reposição do pensamento entre o self e o outro objetivado. Vimos que a sublimação sobrevém como reposição da aporia do mesmo, entre o instinto e a inteligência. O pós-estrururalismo foi nietzschiano ao menos nisso pelo que interpretou a sublimação apenas como transmutação semiótica dos devires/forças impulsionais em ato. Não há um processo subjetivante a partir da falta, mas um aparato maquínico em que o desejo se redobra em signo, como na expressão de Nietzsche, as forças pesadas em leves, dançarinas.
Aqui efetivamente a teoria freudiana dos traços mnésicos invocada é ambígua; em Freud mesmo que se acuse a influência do kantismo, o traço forma-se não obviamente por inspiração conceitual do sublime kantiano - o que os pós-estruturalistas definiram em ermos de nachstraglichkeit, o termo freudiano para o conteúdo inconsciente (recalcado). Mas sim pelo que eles não mencionam, a ciência da percepção da época, que preconizava a necessidade do aparelho perceptivo se neutralizar totalmente entre duas percepções seguidas, assim tornando-se necessária uma explicação ulterior para a qualidade do percebido e espácio-temporalização, o que está refutado na ciência atual - confrontar a propósito, as "considerações teóricas" de Breuer, inserido na coleção "Freud" da Companhia das Letras (volume 2, "estudos sobre a histeria') e os "Elementos de psicologia" de Kretch e Cruthfield (V. 1).
O aspecto propriamente metapsicológico (psicanalítico) motivando a teoria, parecendo ter sido a recodificação da falta/desejo mais como correlato de outro signo que figura a evitação dela, em prol de circuitos que integram como em sequências previsíveis, ainda que puramente imaginárias, os assim produzidos elementos pulsionais e/ou perceptível-sensíveis afinal objetivados/objetiváveis. O pós-estruturalismo lida apenas com atos na base do que é re/transcrito em signo, conforme a ecnomia ou sistema produzido.
Mas desse modo vemos que as oposições conduzem-se, ao longo da modernidade, no rumo do pensamento comprometido com a materialidade em devir explicitamente, porém de fato motivado pela evitação da aporia assim colocada a uma tradição racionalista e metafísica do pensamento. Consequentemente motivada pelo desejo do retorno do pensamento puro como do espiritualismo metafísico e epistemológico. O pós-estruturalismo satisfaz plenamente esse desejo por mais que tenha sido exímio na crítica explícita a ele, colmo se pôde demonstrar ao elidir a significação do processo funcional do Édipo assim como toda questão do superego, pela concepção "maquínica" ou "programática" puramente significante, isto é, simbólico-sistemática (ideal).
Mas também é em Lacan, na centralidade do significante como identidade pura do signo, constitutiva a seu ver do Inconsciente, que se encontra a possibilidade desse desenvolvimento. O signo, em termos de Inconsciente, está fora de toda relação. É nesse ponto que a convergência pós-estrutural com Kant parece justificada. Neste, contudo, o importante é a doutrina das categorias, e podemos a meu ver recuperar o propósito da substância metafísica aristotélica como princípio identitário que permeou contraditoriamente o trajeto da modernidade, na medida em que as mudanças que Kant introduziu relativamente a Aristóteles não deslocam o princípio essencialmente. Esse é inclusive o problema do kantismo na era quântica - ver a propósito, "a parte e o todo" de Heisemberg, mas também a História da Filosofia de Bréhier a propósito da decalagem ciência/lógica identitária, a partir da segunda metade do século XIX, que acarretou sistemas contra a objetividade identitária do kantismo, como em Cournot, Nietzshe e Vaihinger.
A defesa de J. Hessem ("Teoria do conhecimento") da categorias de causalidade na base da pura necessidade científica - e na decorrência de sua indemonstrabilidade já evidenciada - depara-se com esse obstáculo de uma ciência ela mesma já conformada ao cálculo das probabilidades.
Tangenciamos pois, o cerne de nossa exposição, a ambiguidade que cerca a modernidade enquanto um contexto probabilístico e evolutivo que se instaura irredutivelmente a qualquer cenário anterior do pensamento, pela emergência do sujeito pensável na decorrência da ação inteligível constatável no seio da matéria. Por outro lado, contexto que revela apenas a impossibilidade desse pensamento conceituado, e que regressa assim a uma série de tentativas que se revelam ambiguamente rupturas explícitas mas conservações implícitas da anterioridade terminológica e conceitual.
A partir daqui, visamos essa questão mais detidamente quanto à questão da potência em Nietzsche, que como assinalamos, foi o divisor de águas em que se lançou a ambiência da oposição conjugada de instintos e inteligência em termos da teoria ou ao menos da questão - do desenvolvimento.
IV = =
A pesquisa da palavra "potência" em seu uso na filosofia, revela que de fato o termo usado por Nietzsche não corresponde ao correlato alemão da dynamis aristotélica. Nem por isso o problema da correlação ou real ruptura de Nietzsche e Aristóteles se deixa simplificar.
Nietzsche utiliza "Macht" e Abbagnano emprega "Vermögen" para traduzir dynamis. Contduo, o léxico "langescheidts" do alemão acusa sinomínia em pelo menos um sentido da palavra. A preponderância da língua é porém de "Vermögen" na acepção do que se possui como bens, a fortuna, os haveres, logo, na transposição conceitual, "potência" mais ligada ao existir da matéria necessária à transformação produtora de algo especificamente definido. "Macht" é mais segundo o costume, associado a poder na acepção e autoridade, como o poder de governar, ou força exercendo-se sobre algo que se submete ou se deixa dominar. Ao que parece, potência nesse segundo sentido, o termo nietzschiano, seria o "ato" aristotélico, em grego a "energia" como contrário do que é apenas "dynamis".
Parece, na perspectiva filosófica, a tradução da expressão de Nietzsche, "Wille zur Macht" ("vontade de potência") algo duvidoso, pela ressonância ao par de opostos aristotélico. É importante observar por exemplo que Macht é o poder exercendo-se como poder do homem, não necessariamente da natureza como o contexto aristotélico da problemática do atual e potencial. Abbagnano especifica o uso nietzchiano - distinto do que atribui ao aristotélico - nessa acepção precisamente de "domínio" ou "predomínio". Porém nisso sendo inexato pois todos os três usos filosóficos do termo "potência" que arrola, estão cobertos pelo mesma correlação linguística dymanis/vermögen.
O uso que não é nietzschiano nem aristotélico, em Abbagnano, mostra-se contudo o mais adequado ao nosso presente questionamento. Tratando-se da Vermögen como "faculdades" da alma" . O verbete "potência", nessa acepção, remete então a mais um, específico dessa questão na filosofia. Vemos desde já que essa acepção, como "poderes da alma" parece mais associada á interpretação atual de Macht em Nietzsche, isto é, como um conceito filosófico ao invés de apenas termo linguístico. Com efeito, tem sido criticado o uso do termo "vontade de domínio" como correlato de vontade de potência, e mesmo podemos observar que "autoridade" que se possui é algo irredutível à "dominação" que se faz ilegitimamente sobre outrem.
Em todo caso, em Abbagnano este outro verbete ("faculdade") mostra justamente a interligação da história da filosofia com a psicologia, porém curiosamente carece do referencial psicanalítico. Assim aporta a erro de julgamento histórico, considerando que como o behaviorismo e o gestaltismo resolvem o objeto da psicologia na unidade fundamental do comportamento, a doutrina das "faculdades", "poderes" ou "partes" da alma já não tem interesse na atualidade. Bem inversamente, a meu ver é o elo entre a psicanálise como metapsicologia e a filosofia, o que permite entender a história das ideias do século XX até agora.
A origem da doutrina das faculdades, segundo Abbagnano, é platônica, porém é a forma alternativa que lhe concede Aristóteles que mais influência exerceu. Nela há uma cisão entre o que podemos designar faculdades biológicas e intelectivas, estas segundas apenas humanas.
Aquelas primeiras são as faculdades "vegetativas", como de nutrição e reprodução; e as "sensitivas", de sentir e locomover-se, em que o animal faz sua entrada na classificação dos gêneros. Nestas segundas, designadas "intelectivas", em que o referencial é o homem, há uma cisão entre vontade e intelecto, como respectivamente partes apetitiva ou prática e intelectiva ou contemplativa.
A cisão da parte intelectiva preservou-se como único referencial na doutrina das faculdades em Descartes, porém profundamente adaptada ao contexto pós-medieval. A vontade e o intelecto se conceituam em Descartes como faculdades respectivamente ativa e passiva. A vontade pode errar quanto ao objeto, por isso que é mais ampla do que o objeto, mas o intelecto não erra, é puramente percepção passiva, não obstante, de que Abbagnano prescinde fazer notar, o intelecto ser a parte realmente retora, com ideias inatas que tornam a percepção o transporte do conteúdo das ideias. São ações da alma em todo caso, os desejos, e estes incluem a vontade. São paixões nessa acepção de algo passivo, as percepções ou formas de conhecimento. A oposição em latim ratio-passio, muito usada pelos filósofos do século XVII assim como em Spinoza, não tem tradução corrente em português.
Apetição e conhecimento permanecem conceitos fundamentais na doutrina das faculdades, desde Descartes até Kant, passando por Spinoza, Locke, Leibniz e Wolff. Kant introduz a faculdade de sentir, além de conhecer e desejar. A partir daí, intelecto, sentimento e vontade se tornaram básicos, na apreciação de Abbagnano, ao longo do século XIX e princípios do século XX, como para Herbarg, o associacionismo psicológico de Bain e a Escola de Marburgo.
É significativo que, conduzindo ao juízo inexato que referenciamos, Abbagnano tenha abstraído o papel do pós-kantismo romanticista, que teria ressoado com a intuição da importância posterior da psicanálise quanto a essa questão. Ao invés, apenas enfatiza que a unidade profunda da alma nunca foi negada na doutrina das faculdades, mas apenas, como disse Herbart, a doutrina servia como "conceitos de classe" por meio dos quais se ordenavam os fenômenos psíquicos.
O pós-kantismo operou, como enfatizamos, a interligação constitutiva das faculdades da alma, de modo que a sua especificação já não se limita a classe extrínseca ao fenômeno. Na psicanálise a cisão entre a libido instintual (Id) e o Ego é verdadeiramente radical. Porém se a libido permanece nocionalmente idêntica ao Inconsciente (Ics), os poderes intelectivos que habitualmente na modernidade associamos à Consciência (Cs) como a um polo oposto, e por esse viés, ao "ego", são decompostos como que espectralmente numa gama que recobre desde a superfície consciente até as profundezas do inconsciente. Não são simplesmente divididos como todos pertencentes, cada um, seja ao Ics ou à Cs.
Há pois um ego primitivo, porém inconsciente, relacionado simplesmente à motilidade do corpo físico e à percepção atual, um "id" sempre inconsciente mesmo que possa irromper como manifestações esporádicas no continuum do comportamento comum irredutível a sonhos ou sintomas neuróticos, e um "ego" desenvolvido como autoconsciência ao longo do trajeto formativo da infância, cuja emergência é paralela à do "superego" como um ideal regulador do dever-se subjetivo, porém do mesmo modo que o "ego", corresponde a um substrato primitivo. Mais ou menos como em embriologia desde o mais simples estágio do "ovo" há lugares (folhetos embrionários) já extratificados, como origem de tecidos, em futuros sistemas definidos.
Além disso, a partição de cada uma das instâncias e seus pesos na formação psíquica varia conforme os principais autores da história da clínica psicanalítica, tendo se destacado inicialmente como variante conspícua a vertente de Melanie Klein.
O próprio Freud mudou, na década de vinte, a nomenclatura das forças primordiais, atribuindo-as ao invés do conflito censório do "ego" com a "libido", como conflito da autoconservação com o amor pelo outro, o de dois instintos contrários como de morte (Thanatos) ou destrutivos, e de vida ou criativos, este designado Eros. O impulso destrutivo seria uma tendência quase-biológica na época suposta como tendência a repetição de estados anteriores, que conforme Freud remontaria ao primeiro como estado ante-vital. Em geral repetições são formas de se elaborar conteúdos ingratos à conscientização, tornando-os de algum modo relacionáveis pelo "eu", porém na gradação da Cs ao Ics, também elas chegam ao profundo instintivo, decompondo-se no primitivo instinto de total inércia ante-vital. Contrário à qual o impulso erótico deseja a criação e o progresso.
A noção do Eu (autoconsciente) desenvolvido, formado em geral por volta dos três anos de idade, é geral na psicologia do século XX, cujas escolas se especificam conforme a interpretação de cada uma acerca da trajetória formativa, e a psicanálise com sua teoria da "libido" ou energia psíquica sexualizada é apenas uma dentre as interpretações correntes.
A formação do Eu autoconsciente, aquele que compreende em nível consciente sua irredutibilidade aos demais seres e objetos, é requisito das demais capacidades psíquicas normais, como desempenho da inteligência científica. Na categoria pré-ego-lógica, estão não só as crianças mas também os loucos e os povos subdesenvolvidos (primitivos). Em todas as correntes da psicologia desde o século XX, doença mental não existe como uma totalidade oposta à razão, mas sim como uma pluralidade de estados definíveis por sintomas específicos, que correspondem cada um a fixação numa fase do percurso formativo infantil.
Tipicamente os sintomas pré-ego-lógicos do comportamento infantil são demonstrações de sua total identificação com os demais (por exemplo: bater no coleguinha mas acusa-lo de ter batido na própria criança; retardo nas respostas que requerem decisões próprias; confusão de nomes e pessoas, palavras e coisas; confusão do comportamento independente dos seres com a fisiologia ou a ordem imaginárias da criança; concepção de lei como ordem despótica; incapacidade do raciocínio formal e da concepção de legalidade liberal/constitucional, isto é, em função exclusivamente dos legisladores).
Quanto ao percurso formativo infantil, Lacan reduziu a noção de processo à de alternância de posições do signo - a determinação variável da linguagem - definidas em função do papel que em cada uma das posições antes designadas "fases", resulta a instância do superego ou dever-ser. A variação das posições instrui as possibilidades da autoconsciência do sujeito relativamente ao objeto do seu desejo-signo, mas este está associado ao dever-ser. Assim quanto mais primitiva é a posição, menos o sujeito se distingue do dever-ser, menos pode julgar a legitimidade da lei. A partir dessa mudança o freudomarxismo tornou-se possível na forma que teve e vem tendo retumbante êxito político desde a segunda metade do século XX.
Por um lado, pensou-se ter alcançado a fórmula geral da ilegitimidade do dever-ser na primitiva assimetria do gênero sexual, pela identificação primordial da libido com a masculinidade ou força ativa. Todas as formas de dever-ser despótico são assimetrias efetivas numa sociedade, que dividem cada uma dois polos como do dominado e do dominante, a partir do despotismo primordial androcêntrico suposto comprovado nas relações primitivas do parentesco (Levi-Strauss) Por outro lado, pensou-se ter alcançado a fórmula ideal do desenvolvimento histórico-social, podendo-se explicar em que consiste aquilo que se deve superar a partir do próprio desejo.
Porém essa forma política torna-se criticável como etnocentrismo ocidentalista. Ela teve boa oportunidade no cenário do pós-guerras, de novo otimismo ocidental, porém já na década de setenta estavam por demais conspícuas as ações nefastas do imperialismo, e o pós-estruturalismo foi uma reação a esta consequência do campo estrutural ortodoxo. Um novo primitivismo, como um retorno da vanguarda de princípios de século, tornou-se então bastante expandido. Não obstante, já nos anos oitenta estava nítida o retorno pós-estrutural ao etnocentrismo ocidentalista - sobre isso, cotejar os deleuzianos "A lógica do sentido" e "O que é a filofia?", ou o estudo sobre Kafka com o "Cinema 2". As críticas de Fredrick Jameson ao "pós-modernismo" como àquele retorno, foram ultraconservadoras em termos de etnocentrismo "desenvolvimentista".
Hoje compreendemos o desenvolvimento de um modo irredutível a este, ou seja, não como acúmulo de tecnologia industrial oriunda da ciência, mas como boa performance de "idh", os índices da qualidade de vida homogeneizados numa população, eliminando-se a desigualdade.
A mudança verdadeiramente pós-moderna, compreende alterações na antropologia que comprometem a generalização straussiana. Mudanças na teoria da industrialização, que comprometem a identificação dela com progresso político liberal, dado o imperialismo ter-se demonstrado ditatorial, e assim mudança na concepção do próprio capitalismo como imperialismo, que já não significa simples apropriação de economias "primitivas" para efeitos de industrialização local. Mas pelo contrário, guerra das multinacionais dos países desenvolvidos à indústria incipiente local, impedindo seu desenvolvimento ajustado aos interesses da população local, assim como o seu desenvolvimento político-cultural – a reserva do mercado local à multinacional implica alijamento da população do processo produtivo, pela cooptação de uma pequena e corrupta casta dirigente, disposta pela força e/ou suborno, como testa-de-ferro do imperialismo expropriador dos lucros. E à consciência do limite ecológico ao industrialismo planetarizado.
Essas mudanças do plano teórico vem sendo contrastadas porém pelo total oposto verificado como "globalização" (domínio de empresas multinacionais) e "neoliberalismo econômico", a exacerbação do imperialismo no plano histórico-efetivo. Radicalização da desigualdade transformada numa dominação ideológica "info-midiática", inteiramente avessa à legalidade constituída.
Temos assim, conforme o que vimos até agora, como algo assinalável em termos de doutrina das faculdades no contraste entre antigos e modernos, uma ambiguidade notável naquele ponto de mutação em que podemos situar a filosofia de Nietzsche. A ambiguidade recobre a tradução ordinária de "potência" como noção vertida na mentalidade moderna da construção evolutiva da inteligência a partir da base material instintiva. Uma segunda ambiguidade se mostra por isso que o fundamento construtivo implica ao contrário da unidade pressuposta pelos antigos, não obstante ela ser suscetível de classificação de partes, a oposição radical de Inconsciente e consciência.
Em Descartes a vontade é consciência, atos inteiramente coerentes de um Eu que delibera. Assim a conservação do termo "vontade" na acepção contemporânea do desejo instintual inconsciente, como parece já ser o caso em Nietzsche como muitos tem considerado, assinala a ambiguidade que designamos. Esta subentende não apenas a originalidade dos modernos como ciência da evolução material - e dos instintos à inteligência, não há só o desenvolvimento subjetivo, mas também o histórico, isto é, dos povos entre os designados primitivos e a civilização científica (modernidade). Mas o nexo que a modernidade conservou com a tradição, de modo que ao defrontar-se com a prova da ação na natureza, que deixa assim de ser passividade pura ou automatismo mecanicista, não pode reformular o correlato, além da unidade metafísica da ideia.
Podemos tratar a ambiguidade já entre os dois correlatos da "potência" na filosofia de Aristóteles, conforme se deixa flagrar pelo tratamento de Abbagnano. Arrolado na terminologia da dynamis, o significado de "faculdade" ou poderes da alma não é entretanto aí desenvolvido, como já notamos remete o Dicionário a verbete exclusivo. Este porém, como faculdades, não ostenta a terminologia da dynamis/vermögen, ao contrário da proveniência assinalada. Agora o correlato grego é tríplice. Há dois termos, "Psiqués eidós", como species ou poderes da alma, conforme a expressão platônica, além de Mórion, ou "partes", conforme o uso aristotélico. Vermögen se conserva, contudo, para o alemão. A Faculty inglesa e a Faculté francesa não coincidem por sua vez, com o correlato da "potência", respectivamente "power" e "puissance". Quanto ao latim, Potentia, neste caso, e Facultas para aquele.
O próprio Abbagnano considera haver um fator de ambiguidade atribuindo-o à doutrina original aristotélica.
A dynamis pode significar o possível, o que pode ocorrer ou não; ou o pré-formado, o que ocorrerá necessariamente mesmo que ainda não tenha ocorrido.
Abbagnano parece sugerir que na verdade o que Aristóteles e os que, como Bérgson, utilizam o conceito de "potência" explicitam em seus comentários, é a acepção de pré-formado, ao invés de possível. Podem utilizar este segundo termo, mas conotando sempre aquele significado. É uma coincidência feliz ao presente estudo a tangência de Bérgson nessa alusão à ambiguidade da concepção de potência, mesmo que sem correlação ao que estamos desenvolvendo aqui em termos da contradição da modernidade como ao mesmo tempo cisão radical e continuidade da tradição. Pois Bérgson ilustra bem essa ambiguidade que estamos conceituando, já que nele o evolucionismo que é propriamente ciência da matéria biológica, algo especificamente moderno, se converte em ação puramente espiritual, radicalizando-se o antigo antagonismo dualista matéria/espírito.
Na verdade Bérgson apenas ilustra uma das variantes da espiritualização do evolucionismo que foi um movimento geral em princípios do século XX, importante especialmente na América do Norte, impulsionando a renovação dos seminários protestantes designados "modernistas" e assim contribuindo com o que nessa época iniciava-se, com o pragmatismo, em termos de filosofia americana - que à época dos novos realismos de Whitehead e Santyana já estará mais madura. Abbagnano não se detém nessa questão que considero importante registrar.
Abbagnano trata precisamente o verbete "evolucionismo" como conceito apenas filosófico, irredutível ao verbete "evolução" que trata apenas como correlato da matéria biológica, havendo porém obvia precedência deste relativamente à possibilidade histórica daquele.
O "evolucionismo" é o mesmo que progresso em sentido adjetivo, algo que já não poderia ser dito da "evolução". Além disso, "evolucionismo" é uma metafísica, conceito que abrange toda a realidade a partir de um princípio explicativo do seu conjunto, neste caso o "progresso". Na variação das propostas conhecidas resolve-se em materialismo ou espiritualismo, conforme Abbagnano. Assim Haekel é evolucionismo materialista, e desde Wundt se desenvolveu o espiritualista tendo em Bérgson seu ponto alto na exposição do "Dicionário".
Interessante é a distinção entre o positivismo de Spencer, que propriamente inicia esse ramo da metafísica com sua concepção de ordem universal do homogêneo ao heterogêneo, e Ardigó. Este transpõe o modelo evolutivo do biológico ao psíquico. O elemento da consciência envolvendo a liberdade e a novidade (criação) é o traço característico das doutrinas evolucionistas espiritualistas em que Abbagnano arrola A. Fouillé, Lloyd Morgan, Alexander e Whitehead, este que evidencia o parentesco dessa filosofia com o vir a ser hegeliano. Santayana seria exemplo, ao invés, do evolucionismo naturalista.
Ora, quando se trata da "evolução", Abbgnano torna a incluir Bérgson e a problemática filosófica do progresso, não obstante a reserva que fizera de início. Ele o introduz no ponto em que a polêmica dos neolamarckistas e neodarwinistas, como entre evolução por adaptação ou por seleção natural, tangencia a questão do vitalismo. Se quanto a este é doutrina que considera a vida irredutível à causalidade físico-química, representa alternativa ao dilema, pela concepção teleológica exclusiva do princípio vital independente. A evolução se faz como o objetivo desse princípio. Mas assim, como Abbagnano faz notar, reintroduz-se a metafísica substancial aristotélica, que era o derivado filosófico, inversamente, do fixismo.
A reintrodução se faz pelo aspecto teleológico da physis aristotélica, toda ela ordenada como pensamento realizando-se essencialmente, descartando-se o acaso como circunstância de um mundo material o mais afastado de Deus na planificação universal das esferas concêntricas segundo a concepção do geocentrismo. Deus sendo o motor imóvel que move as esferas por aspirarem amorosamente a ele, é o âmbito que circunda a todas. A terra, sendo o centro do universo, é pelo contrário, a esfera mais interna do sistema, logo mais afastada do motor. Conforme a concepção grega, Deus não cria o universo por um ato de vontade, mas em Aristóteles este é o correlato do seu pensamento que é ato puro, enquanto na religião homérica os deuses são as forças naturais imanentes elas mesmas. A decisão sobre se Aristóteles pensa um deus transcendente ou imanente, devido ao sistema físico de sua teologia, divide os intérpretes até hoje - a propósito ver "O problema do Ser em Aristóteles" de Pierre Aubenque.
A conjunção nocional aristotélica acaso/matéria ou potência é assim duplamente não-universal. Tanto por ser apenas deste mundo "sublunar", a lua sendo a esfera superior contígua, relativamente a nós, como por ser o fortuito contrário do "ato" universal, isto é, essencial, e teleológico, visando a uma finalidade determinada concatenada ao plano geral da "physis", natureza na acepção não de efetividade, mas de pensamento de Deus, coerência universal dos gêneros biológicos imutáveis. Em Aristóteles, o ato é "energeia" mas por vezes "enteléquia".
Na modernidade evolucionista, Driesch utiliza-se do termo aristotélico "enteléquia", conforme Abbagnano, considerando-o a "função ordenadora na construção do organismo". Aqui define-se com clareza a ambiguidade que estamos conceituando, entre o dualismo antigo e que podemos designar o construtivismo moderno. Na exposição de Abbagnano, ainda que um crítico do vitalismo como da falácia que apenas substituiu um termo por outro à guisa de explicação, Bérgson exemplifica justamente a reiontrodução da teoleologia aristotélica na teoria da evolução. Seria a consciência que dominando a matéria, guia a evolução em sentidos precisos, que progride finalmente nas duas direções principais de instinto (artrópodes) e inteligência (humanidade).
Mas Abbagnano mesmo é um tanto ambíguo. Por um lado considera que a descoberta da evolução por saltos, com De Vries, foi obstáculo à concepção puramente científica da evolução biológica apenas como transformação arbitrária. Por outro lado, inclui em seu rol de aspectos ligados à teoria científica: a irredutibilidade à noção de progresso; a exigência da explicação do papel do acaso, que tornaria insuficientes uma causa única como a seleção natural e consequentemente o finalismo; e a introdução da hipótese do possível, com a evolução sendo o correlato da tendência da vida a explorar todas as possibilidades existentes.
Aqui retorna a motivação do vitalismo, pois a exploração do possível é uma tendência exclusivamente vital, teleológica. Abbagnano torna a referenciar objeções à tese, aparentemente concordando com elas. Nem sempre verifica-se a exploração de possibilidades entretanto disponíveis. Mas também o vitalismo implicaria limitações metódicas aos estudos biológicos que se baseiam em instrumentos objetivos de investigação, já que a vida seria irredutível a eles. Nesse momento mesmo, contudo, Abbagnano emenda que, assim, a ciência biológica se reduz a um "materialismo" metódico que não tem a ver com o "materialismo doutrinal do séc. XIX", e que julga "explicado" só o que pode ser alcançado com a ajuda de tais instrumentos.
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Aos propósitos deste estudo, torna-se importante o cotejo mais minucioso da antiga filosofia da "potência" aristotélica, com o que poderemos em seguida haurir como formulação contemporânea de Nietzsche acerca da "vontade de potência".
Vimos a importância do par ato/potência naquilo que poderíamos designar o espiritualismo teleológico aristotélico. Porém examinando com mais atenção, o "ato" é compreensível no todo do sistema na medida em que é simplesmente a essência em sentido aristotélico. Ou seja, explicitamente não socrático-platônica, não separada do mundo concreto, seja "sub" ou "supra" lunar.
O mais lógico seria que o próprio devir fosse assim, por Aristóteles, definido como o termo em lugar de "potência" - explicado pela condição de localização física do sistema. Esta solução teria até sido proveitosa na polêmica anti-platônica do aristotelismo, lançando em cheio a valorização filosófica do que para Platão era o contrário do pensável, a saber, o devir. Por que Aristóteles teria necessitado de um segundo conceito, e de modo que seu uso devia efetivamente suplantar o do "devir" na economia do texto e na exposição canônica do sistema, como de fato ocorreu historicamente? O desenvolvimento desta questão poderia também auxiliar o propósito de esclarecer a ambiguidade apontada por Abbagnano, a propósito do uso de "potência", entre o possível e o pré-formado.
O tratado aristotélico sobre o par dynamis/energeia (Metafísica, livro IX), lança luz sobre a ambiguidade do sofrer e do agir, ínsita ao termo potência em sua correlação ao ato ( parágrafo 1047 a). Porém restringe as suas duas acepções contrárias, de potência e ato, polemizando contra os megáricos.
Estes formavam uma escola pós-socrática parcamente conhecida na história da filosofia, ulteriormente ao fato de que negava a atribuição de um predicado diverso do sujeito, como demonstrável logicamente. Não se pode demonstrar legitimidade formal alguma na atribuição "o homem é bom", mas apenas em "o homem é homem", e "o bom é bom".
Quanto ao que interessa à questão, Aristóteles informa que os megáricos pretenderam, ainda, atribuir o correlato da ação somente a quem está agindo no momento da atribuição, ao invés de também àquele que deteria simplesmente o atributo de poder vir a praticar a mesma ação. Alguém só é designável médico ou arquiteto no momento em que está atendendo ao paciente ou construindo a casa. Não se pode atribuir legitimamente o termo a quem neste momento da atribuição está ocupado em quaisquer outros afazeres ou simplesmente nada fazendo. Quem está sentado não se levanta, quem está em pé não se senta. Por outro lado, Aristóteles registra o sofisma que afirmava que alguém que não tem a ciência a pratica - porque alguém que a está aprendendo ainda não a tem, porém a pratica instruindo-se.
Aristóteles cria a noção de "potência" explicitamente para resolver essa questão, desfazendo a aporia que à sua consciência lógica representa os argumentos citados. Mas especialmente seu problema são os megáricos, pois, com efeito, ele arrola o sofisma apenas como um caso possível se admitíssemos a união megárica do atributo e da ação.
Como vimos, não obstante essa solução revelou-se de importância bem maior na filosofia aristotélica, do que apenas expediente dialético na refutação de uma tese adversária. Por conseguinte a "metafísica" do Estagirista mostra-se bem mais "construída" do que pareceria a um espírito de sistema como Pierre Aubenque ou Vitor Goldsmidt, defensores do tempo lógico contra o tempo efetivo, em história da filosofia. Tanto um como outro haurindo suas razões das próprias fontes que assim quiseram fazer crer - respectivamente Aristóteles e Platão.
Em todo caso, nessa explicação da Metafísica acerca de porque pode haver atribuição mesmo que não coincidente com a ação atual, inversamente ao que parece predicar Abbagnano, Aristóteles pensa a potência como possível, de que pode realizar-se o ato ou não, mas também podendo haver ato sem a potência, enquanto o pensável em si e do que se deduz ser o caso quando algo já está realizado.
O exemplo a propósito é algo sintomático: "acontece que um ser que tem o poder de andar não ande, e que ande o que tem o poder de não andar" (met. IX, 1047 a, 20/25). Segue-se porém comentários do trânsito da potência ao ato referente ao que tem o poder, demonstrando assim o trânsito não relacionável a qualquer impossibilidade - um ser é capaz de sentar-se
e tem o poder de fazê-lo. Aqui entendemos o trecho sem necessidade de hipóteses ulteriores se mantivermos na lembrança o caráter erístico (polêmico) do argumento. Ele é o contrário da impossibilidade megárica do trânsito de um estado ao outro - o ser sentado levantar-se, o ser em pé sentar-se. Mas se realizar mentalmente o correlato do exemplo aristotélico - um poder puramente negativo, como "poder de não andar" - introduz o sentido da dynamis ou potência como meramente o predicado conveniente a algum ser, o que torna a distinção ao ato mais uma vez complicada, justamente por esse meio o compreendemos facilmente. O que Aristóteles isola como ato é o que a escola megárica havia associado o cumprimento atual da atribuição válida. O golpe de gênio aristotélico consiste em ter isolado duas coisas, como ato e potência, naquilo que foi originalmente pensado ou apresentado como apenas tautologia.
Porém nossa explicação induziria à indagação inversa da que fizemos inicialmente sobre por que a "potência" ao invés de simplesmente o "devir" - definido teleologicamente, portanto como o contrário do vir a ser indefinível que até aí havia sido o denominador comum do conceito em todo o plano de fundo histórico da filosofia. Agora deveríamos indagar: por que Aristóteles utilizou o conceito de potência ao invés de "atributo" conforme à sua ontologia ou doutrina do ser - contrariamente à do devir como limite do pensar? Se houve antes um outro golpe de força, uma revolução aristotélica da filosofia como a introdução da teleologia no devir, não há de fato uma filosofia do devir mas sim uma ontologia do Ser.
A questão torna-se solúvel, aparentemente, pela introdução deste conceito de teleologia que, ele sim, deveria ser considerado como uma "mutação" do pensamento antigo. Heidegger, como sabemos, introduziu o conceito de mutação para caracterizar a superveniência do socratismo platônico como da metafísica, fundo que se tornou o de todo pensamento "ocidental" e ocidentalizante - planetário, na modernidade. Vício de uma racionalidade a-crítica, pseudo-racional portanto, porém virtude da veleidade que prenuncia o ultrapassamento de si pela ligação ao que precede a onipotência assim enunciada - que obriga pois ao questionamento das origens. Em que reencontraríamos, conforme o esquema regressivo do heideggerianismo, a hermenêutica inaugural dos pré-socráticos.
Porém, como estamos constatando, Platão não rompeu a oposição mais radical de Ser e Devir, motor da evolução da dialética entre os pré-socráticos, resultando da necessidade de aperfeiçoar-se como instrumento a servir cada um dos lados da polêmica grosso modo personificada entre Parmênides e Heráclito.
Nesse plano de fundo, a oposição enuncia nada menos do que a possibilidade ou não do conhecimento - visto que do devir considera-se em todo caso, sendo ou não o limite existencial, que não é objeto de saber possível. A filosofia começou portanto como crítica do conhecimento e antilogiké erística, se Heráclito é mais velho do que Parmênides, não como evolução do saber separado do ethos na história da humanidade - inversamente ao que Heidegger parece induzir a crer na "Introdução à metafísica".
Nesse encaminhamento heideggeriano, o acontecimento posterior à essa revolução da história do homem é a mutação metafísica que começa com o socratismo platônico e só se modula de Aristóteles em diante. Sem, pois, que a introdução da aitia (causa) como dos conceitos dos pensadores subsequentes pudessem inovar substancialmente quanto ao esquema da "idea" fundadora da metafísica substitutivamente à aletheia pré-socrática como à noção de verdade que conserva em si a suspeita do seu oposto, o possível outro-saber. Essa necessidade da interpretação como o mito de Midas e similares poderiam exemplificar - o que se pede ao Deus é em nós um desejo mas necessariamente um enunciado, e assim não podemos saber de antemão como ele o entende. O que torna a humanidade temível, porque sumamente estranha a todo natural que não tem espessura relativamente a si, como expressa o Coro de Antígona na versão histórica de Heidegger.
Inversamente, constatamos aqui que Aristóteles não continua o esquema platônico como epítome da cisão ser/devir. A sua justificação do saber já não é negação do devir, mas transformação teórica do conceito.
Vemos que Heidegger mesmo transcende em outros momentos a modéstia do lugar aristotélico na sua posição histórica. Se esse fator tem hoje grande peso na teoria, porque envolve a interpretação pendente do heideggerianismo entre vários comentadores, é porém porque a variação aí tem lugar pela via da filosofia prática aristotélica e não da filosofia teórica. O que se compreende, se trata-se nesses questionamentos atuais, da questão de como entender Heidegger como pensador social e político.
Mesmo assim, poder-se-ia argumentar que o devir teleológico em Aristóteles é afirmado apenas em função da ontologia do ser teórico. A potência decerto se justifica como conceito necessário a essa posição teleológica do ser ou ato, porém não há de fato "devir" como variação quanto ao possível. Tanto que, de direito, o trânsito da potência ao ato contraria frontalmente a noção comum de vir a ser. Primeiro não é a potência, o bronze de que se fará a estátua, mas o ato, a estátua que resultará do bronze.
Como Abagnano colocou pitorescamente, primeiro é a galinha do que o ovo, ou conforme o exemplo de Aristóteles, o homem do que o menino ou o sêmem. Só de fato, na ordem da duração, Aristóteles conserva o sentido da observação empírica e coloca primeiro o germem como a potência.
Mas as coisas se complicam nesse rumo da argumentação. Poderíamos considerar que se é assim, o conceito de teleologia é realmente uma noção nova, não apenas um outro meio de garantir o esquema metafísico originariamente socrático-platônico. Com Pierre Aubenque isso se torna claro na medida que a tese apresentada sobre Aristóteles, similarmente à de Goldsmidt sobre Platão, é que houve fracasso do projeto ontológico.
Como introdutores do ponto de vista do sistema, Platão e Aristóteles não teriam podido porém sustentar a sua pretensão teórica de fundamentação do saber, porque não podiam integrar o trabalho do negativo, a via antitética dos erros com que aprendemos, ou mais simplesmente a História, como se faz a partir da modernidade e especialmente Hegel. Assim o resíduo do devir - o impensável - nunca pôde ser totalmente eliminado na ordem da evidência empírica. Neste mundo, o saber real, a ontologia, é de fato impossível. Resultado pífio para um edifício conceitual tão bem arquitetado como são as obras dos dois pensadores, que primam pela jactância da nobreza d'alma contra a sofística.
Quanto a Aritóteles, Aubenque é explícito. A cisão da essência neste mundo sublunar, relativamente à existência, isto que precisamente constitui a necessidade da oposição do potencial e do atual, constitui a impossibilidade insanável da ontologia ser provada. Restaria uma antropologia aristotélica - o sempre renovado esforço de recolar o conceito em sua palavra denotativa como em si mesmo, as coisas naquilo que elas são. Mas a prova da essência não temos além do homem e sua pretensão de saber.
Contudo, se cotejarmos esse resultado em "O problema do ser em Aristóteles" - o qual é ambíguo quanto à nossa própria consideração da originalidade aristotélica se bem que otimista quanto ao curso do mundo porque, em todo caso, a jactância preservou a veleidade através dos séculos e o ponto de vista do sistema triunfa hoje em dia mesmo que com a História por integrar - com "A prudência em Aristóteles", vemos que ele é um tanto relativizado. Aqui a "cisão da essência" não é nada um fato negativo ou a prova de um fracasso. Pelo contrário, em se tratando da filosofia prática, é o condão da grande originalidade aristotélica - relativamente em princípio a todo necessitarismo antigo, como o megárico e o estoico.
Se quanto à filosofia teórica, a oposição de potência e ato pode sempre ser questionada como apenas um outro meio de se definir o princípio de identidade, e quanto a este não se trataria de uma mutação mas sim de melhoria do esquema metafísico já obtido desde Sócrates, agora se trata justamente da exceção nomeada ao princípio de contradição. Na filosofia prática, Aristóteles não teria tanto tratado das virtudes éticas, mas desta disposição mais geral designada "prudência" (phrônesis), a qual só vem a ter sentido num meio de ações puramente humanas, que não estão definidas quanto ao resultado por qualquer preconcepção do possível.
A deliberação, em que a prudência pode ter lugar e que institui por um outro ângulo as relações de ato e potência, destitui de sentido a noção de natureza toda pré-determinada pela razão, como a dos estoicos, e institui assim uma ética que não é conformidade do homem à natureza ou à finalidade, como da parte ao todo. Não há aqui um todo pré-existente. A exceção ao princípio de contradição aristotélico é então enunciada pelo próprio Aristóteles como necessária frente ao problema lógico posto pelos megáricos quanto à contingência dos futuros.
Aristóteles não se dispõe a negar a formalidade do "argumento dominador", como se designa a proposição megárica. Se dois enunciados contrários competem pela veracidade quanto a um fato futuro, e se sempre de dois contrários um é verdadeiro e outro falso se não houver contradição, então os fatos futuros não podem ser contingentes porque enunciados a propósito deles são afirmáveis prévia e necessariamente dada a negação do seu contrário. Porém como mostra Aubenque, a negação disso tudo é considerado maximamente importante por Aristóteles, a partir somente da prova empírica quando se trata das ações dos homens, uma vez que seguir-se-iam inúmeros absurdos se fosse assim.
Ora, por outro lado, o que Aubenque não considera especialmente, a afirmação da contingência prática em Aristóteles é na verdade também uma ruptura importante na história das ideias ético-políticas. Até aqui a oposição estava entre haver uma ontologia do Ser como ciência em geral que coordenava em si o bom e o mal éticos e políticos, ou não haver, e assim não podendo-se pretender um regime legitimável que fosse além do acordo contingente das partes - cujo limite "potencial" seria a retórica como instrumento da boa elocução das opiniões em confronto. Aristóteles introduz um ponto de vista que hoje consideraríamos funcional, conceituando os papeis sociais como os elementos da questão, e assim reinserindo a teleologia, já que os papeis sociais são organicamente predispostos a partir do que seria a coisa mesma. A sociedade como lugar da produção e da reprodução, os papeis aí são predefinidos como do homem, da mulher, do escravo e dos filhos.
A partir dessa transformação importante do pensamento político antigo, ocorrendo num momento de ruptura como transição da democracia ao império, é que deveríamos considerar a modulação da potência na filosofia prática aristotélica. O que se tornou explicitamente uma temática da filosofia contemporânea de Heidegger até agora, podendo então a reconstituição do tema ser o que precisamos para a compreensão das relações Nietzsche-Aristóteles como o que reposicionou o conceito de potência na modernidade.
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A tarefa de reconstituir a influência da filosofia aristotélica da potência na modernidade e especialmente tematizando-se a centralidade do conceito em Nietzsche, mostra-se bastante facilitada pelo próprio Aubenque. O trecho sobre "o homem da prudência", em seu estudo sobre a phrônesis, exibe a epígrafe de Nietzsche: "O impulso do saber sem freios, é em si mesmo, em todos os tempos, tão bárbaro quanto o ódio ao saber, tanto que os gregos, por consideração à vida... refrearam seu impulso de saber, em si insaciável porque aquilo que eles aprendiam queriam logo viver".
Os gregos não foram insaciáveis conhecedores, colecionadores de fatos que prenunciariam aquilo que Nietzsche considerava a barbárie atual, o jornalismo que reduz o que são apenas elementos da sistematicidade de um estilo a coisas que valem por si só, descosidas do seu contexto e só assim elevadas a um universal repugnante. Pois nem mesmo universal da evidência, apenas do que supostamente interessaria a "todo mundo" forjando-se assim a concepção hipócrita de uma igualdade da mediocridade.
Assim Nietzsche fundou a oposição de "decadência" e "modernidade". Naquela se encontra a mera atualidade, tudo o que é extremamente criticável nela como a reunião, pelas capacidades novas do tempo, de tudo o que foi ruim no passado, acumulando-se na escuma da técnica a que se reduziu a recém-conquistada ciência da História. Nessa categoria Nietzsche integrou o romantismo, de um modo algo duvidoso entre o movimento real, de que muitos consideram ser ele mesmo devedor, e o que àquela altura servia ao Biedermeier, (continua)
atenção: não estamos interessados na intervenção de gangs de bandidos não autorizados em nosso computador; começando a atrapalhar a elaboração do texto de hoje, 16 de novembro; estamos novamente solicitando que saiam, sejam quem forem, dos nossos computadores; que parem de nos atrapalhar; estamos avisando que não temos interesse nas vossas pessoas, que nada temos a ver com vossas identidades, nem vamos colaborar ou favorecer qualquer exigência de vocês; pelo contrário, estamos solicitando socorro para que os prendam como bandidos; toda a vossa atitude apenas testemunham que vocês são escroques, maus caráteres, bandidos que devem na verdade, não apenas serem presos mas guilhotinados devido a magnitude da sua prepotência, de sua jactância ao cometer nada além de abuso de pessoas idôneas; vocês não existem como pessoas; são nada além de bestas a que se reduziram sem qualquer necessidade, por exclusiva opção própria;
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(continuação), ou seja, o estereótipo forjado pelo Reich alemão, do que havia sido o autêntico movimento da cultura nacionalista. Porém é verdade que Nietzsche não é continuador do pós-kantismo, a não ser na qualidade inaugurada pelos "jovens hegelianos" inclusive Marx - o de reversor corretivo de Hegel. Mas tão radicalizado que já não aceitando sequer este modo de dizer. Na esteira do positivismo, Nietzsche não recuperou absolutamente nada da religião indexada à cultura histórica.
Que Nietzsche fazia oposição entre universais, não de todo o eliminador do conceito de universalidade, e que ao modo de Nietzsche a hermenêutica posterior deveria ser considerada, comprova-se pela aparente contradição da verdade em seus textos. Contra a concepção intelectualista de verdade independente da interpretação, o trecho de "Verdade e mentira no sentido extra-moral" é por demais conhecido e citado. Menos citado é Vontade de Potência, na parte final, onde se lê: "O vício intelectual, o ódio à verdade, porque não oferece 'belos sentimentos', ódio à veracidade", arrolado entre demais características do tipo decadente, ou seja, o cristão da modernidade, assim como a "mulher".
Interpretar, portanto, a filosofia da potência em Nietzsche como misoginia, não seria tão adequado como a uma redução tipológica dos agentes históricos, conforme à ótica culturalista que a hermenêutica cultivou. Assim também já não seria o caso de um positivismo tout court.
O tipo do decadente definido por Nietzsche é composto pelas notas da feminilidade e do cristianismo, reunindo a fé na virtude como algo inato aos seres humanos. Essa fé é decadente ora porque, como não "científica" a partir da descoberta dos instintos como verdadeiro inatismo, é o sintoma de instintos degenerados; ora porque como qualquer valor em trânsito na cultura, mesmo os nobres e não decadentes, é apenas a transformutação dos instintos em discurso, ao contrário do que diz de si como essência humana.
Aparentemente Nietzsche não tem, inversamente a Freud, uma concepção teleológica como a do processo, da sublimação, que expressa um juízo menos infeliz da virtude. Porém é justamente o que não se justifica deduzir, a partir da temática da modernidade, o oposto da dacadência.
Aqui encontramos a significação do título nietzschiano: "Crepúsculo dos ídolos; ou Como Filosofar com o Martelo". A pesquisa da significação deste título revela muito mais do que apenas metáfora. E justifica-se por isso mesmo que não se compreende, refletindo, sobre metáfora de que. O que pude apurar a propósito é que o martelo é o ritmo conceitual em que a filosofia da potência pretende-se como expressão de nada menos do que a Evolução, e este é o sentido da modernidade em Nietzsche, assim como o sobre-humano na acepção, creio, em que se grafa sobre-natureza (metafísica).
Nietzsche nega a teleologia apenas por um viés, aquele em que ela expressaria a interpretação darwinista-naturalista do evolucionismo. Nessa via apenas natural-inumana, o que predomina é o fraco que se une para formar rebanho, e eis a decadência, a plenitude dos meios de punição das exceções felizes, dos fortes, dos belos, dos gênios. A natureza porém não se basta a si mesma, e ali onde ela é algo mais, tornando-se pensável entre os homens, revela seu segredo, a irregularidade dos acasos felizes, que o rebanho e a ciência do rebanho pretendem que não subsista. Mas esse segredo é o "eterno retorno" - a "ciência feliz" de que se o tempo é infinito, ele é composto de tempos, como da vigência de estilos e culturas, modos de viver, que entrando na infinidade não podem não se repetir. Até que aquilo que se repetirá não será nenhum dos tempos dos medíocres, do rebanho; mas o tempo da consciência do eterno retorno, e da plenitude da potência como a única evolução que justificaria a si mesma.
O
martelo expressa assim o poder desse tempo da consciência da
felicidade possível, como nas antigas sociedades guerreiras, senhoriais, que, ao se repetir pela
lei do eterno retorno justificada pela evidência de que sendo
infinito o tempo, nele tudo que acontece retorna,
está agora munido da filosofia que lhe é adequada. Essa
é a filosofia justificada ela mesma pelo conhecimento da Evolução,
em que o retorno do mesmo, a espécie, é seletivo, a
nova espécie.
Aqui
vemos que o novo em Nietzche não é senão o antigo transmutado na
temporalidade do infinito.
Assim, com o novo aparelho, o martelo da filosofia evolutiva, o
eterno retorno executa a seleção pela qual a espécie humana se
transformará numa espécie irredutível, o “superhomem”.
Considero
clara a impossibilidade desse conceito nietzschiano, por isso que o
superhomem é aquele que a nada mais além dele mesmo, o seu querer,
atribui o que se efetua relativamente a si. O aparelho conceitual da
filosofia evolutiva, o martelo, é então a redução de toda atribuição de valores à vontade de potência, a fonte do querer que
no ser humano foi estragada um dia pelo advento da fantasia
metafísico-sacerdotal de uma causa transcendente do fato da injustiça, a
dominação,
com a fantasia correlata de um agente transcendente que fará a
justiça. Mas para Nietzsche não há injustiça na dominação,
somente a vontade de potência, que quando é livre, domina. Ora, se
toda a espécie é livre, isto
é dominante,
quando se trata do superhomem, a quem a vontade dominará? Não
haverá nenhum “fraco” para dominar.
Nietzsche e seus seguidores, especialmente os pós-estruturalistas
mas já vindo como crítica a Hegel desde Lacan, por onde o
inconsciente deixa de ser o percurso da emancipação do escravo para
ser a
imagem do senhor conforme a lógica da
libido,
restrita ao imperativo, nunca
refletem sobre essa aporia. Aparentemente
Nietzsche, assim
fundando o que desde o século XX vem sendo um pensamento coeso em
torno do desejo, e que paradoxalmente dele espera tirar uma conclusão
libertária – até condizente com Marx, como no Anti-Édipo de
Deleuze e Guattari -
pensa que a
filosofia da potência como instrumento do eterno retorno que
despreza o humano e dele só espera que se restrinja a ser "a ponte
para o superhomem",
poderá instaurar uma legislação coerente com o sentido da
evolução que a modernidade tornou pensável a partir da natureza
mas sobrepondo-se a ela como ação ética. Nessa sobreposição Nietzsche é schopenhaueriano, porém invertendo a máxima
altruista da negação da vontade individual, para pensar a liberdade apenas da afirmação da vontade.
Mas também o martelo expressa uma concepção exclusiva da filosofia, sua responsabilidade legisladora como avaliação do tipo de vontade conforme à atribuição interpretável de valores, a genealogia que se opõe ao propriamente especulativo, assim como a avaliação da qualidade da força ou vontade e do tipo psicossocial correspondente se opõe à análise puramente intelectiva.
Para toda uma geração de pensadores, ou mais de uma, entre estruturalistas e pós-estruturalistas, independente dessa significação suposta altamente meritória da filosofia, nisso atingiu-se apenas a total oposição das éticas nietzschiana e aristotélica, já que quanto a esta última, ela seria o elogio intelectual da virtude, o enunciado de tudo aquilo que Nietzsche tratou como idealista e inútil ao ponto de vista evolutivo dos instintos. Porém se assim é, não se coaduna com esse enunciado altissonante contra a metafísica o que resulta de um cotejo dos conteúdos.
Assim como Nietzsche, Aristóteles cerca a ética de um a priori de exclusão de certo tipo. Aquele que porta os mesmos atributos que Nietzsche considera que os humanitários decadentes valorizam, confundindo assim numa só rejeição da "decadência", tanto os aspectos alienantes da massificação imperialista quanto o que só podemos considerar como veículos dos preconceitos oligárquicos e da exploração de classe.
Em ambos, Aristóteles e Nietzche portanto, se trata expressamente de uma ética de classe, visando-se como o contraponto radical de toda legislação verdadeiramente democrática alicerçada na tese da igualdade existencial. Está evidente que a falácia aqui consiste na distorção do significado político de "igualdade". O contexto da defesa da democracia está alicerçado nesse significado que visa apenas o status da cidadania, o acesso às instituições e o que está coberto pelas garantias civis do Estado. Assim ele não é incompatível com a concepção de heterogeneidade entre pessoas e entre costumes.
Aristóteles e Nietzsche começam por reduzir todo o significado possível de igualdade ao que se opõe a esta concepção da heterogeneidade do privado. Porém o percurso do argumento falacioso é ainda contraditório, porque a defesa da heterogeneidade vai aportar no contrário de si. Bem inversamente à heterogeneidade democrática, é a aristocracia ou oligarquia que considera a homogeneidade de classe subsumindo todo sentido de identidade pessoal, como o que oferece matéria de consideração política. Ao invés do meramente heterogêneo, a consideração constrói a diferença dual, hierárquica, do nível privado, sobre que se espelha a dominação de classe em nível público, pseudo-justificada pela inferioridade dos tipos dominados.
Aubenque pratica a mesma redução tipológica como procedimento ético em Nietzsche, atribuindo-a já a Aristóteles. Trata-se pois do "prudente" como um tipo, não personalidade psicológica. Porém Aubenque não referencia o principal na construção do tipo. O que é coerente com sua intenção de situar o aristotelismo num caráter "moderno" (a prudência em Aristóteles, São Paulo, discurso editorial, Paulus, 2008, p. 278). Isto é, tanto por não pretender dominar o acaso pelos meios da mentalidade religiosa, como, principalmente, pela tese da contingência radical dos futuros, de modo que "o inacabamento do mundo é o nascimento do homem", a eficácia possível da ética (p. 173).
Ocorre que de fato, a teleologia é restaurada nesse nível prático, porque a ética está reduzida à ação, por um lado; e por outro lado a ação é ela mesma, como antes o ato na natureza, finalidade pura. Por outro lado, a finalidade transcende o objetivo do ato em si mesmo. Agimos de variados modos virtuosos porque almejamos uma só finalidade, o ser feliz. Ora, a felicidade não é uma condição de todos nós. A restrição da atribuição da felicidade a alguns torna coincidente o tipo nobre como o leitor ideal da ética aristotélica assim como da filosofia nietzschiana. Ele não pode ser feio, ter filhos indignos ou nascimento vil (Ética a nicômaco, 1099b1) - sobre a rejeição do feio como signo do fraco em Nietzsche, ver a "Vontade de Potência". Assim também vários trechos sobre a riqueza e a aristocracia.
Aquilo que seria verdadeira irredutibilidade entre Nietzshe e Aristóteles, é a reintrodução da potência, pelo primeiro, ali onde o segundo reduz tudo somente ao ato. Pois para Aristóteles, não desenvolvemos as virtudes - ou seja, as ações virtuosas que praticamos - a partir de termos "faculdades" como capacidades. Vemos e somos videntes porque temos a faculdade da vista. Mas se agimos virtuosamente é apenas em que somos virtuosos. Praticando a virtude, podemos ser atribuídos como tendo a disposição virtuosa, não o contrário, e a ética como filosofia se reduz à exortação ao treino, enquanto a ética como regulação da conduta é o que decorre dele sendo-lhe coextensivo como ato em praticando-se.
Podemos observar que se Nietzsche reintroduz a potência na moral, que Aristóteles havia reduzido ao ato, é porque a descoberta dos instintos na via da evolução na modernidade implica de certo modo a renaturalização do domínio prático, ainda que não apenas do modo como os positivistas o fizeram, elidindo de todo a cultura como "ideologia" descartável da compreensão do homem.
Assim podemos por um lado, considerar que Nietzsche conservou a oposição aristotélica do ato e da potência assim como dos seus domínios, prático e teórico, de modo que se algo da natureza como do teórico tivesse que se reintroduzir, então também assim a potência. Mas por esse viés penetrar algo mais na significação da expressão "vontade de potência", como se a potência fossem os elementos instintivos-naturais moldados pela vontade como o que é próprio do homem, o sobrenatural que concede sentido ao objeto.
Ora, se Aubenque elide a consideração do finalismo eudemonístico - em grego, o que visa à felicidade - e por aí político-oligárquico, na ética da prudência aristotélica, a interpretação nietzschiana que alicerça sua leitura de Aristóteles parece bem demonstrável. Trata-se de colocar todo peso da construção ética, não tanto naquilo que seria a "prudência" - que conforme Cícero é a tradução da phrônesis grega a partir da contração do termo "providência". Mas sim na oposição, que seria bem grega, de gnose e gnome, como do saber científico-factual e de um tipo de sabedoria do mundo operante na cultura (...) / continua ///
(...) blog em elaboração
=====
ATENÇÃO: Neste blog estou utilizando o Abbagnano original, não a versão dita revista ampliada que está circulando nas livrarias. Este blog protesta contra essa versão, pois de fato ela não é apenas acrescida de verbetes
assinados como contribuição de autores recentes, mas sim muda arbitrariamente o texto de alguns verbetes de modo que resulta falsidade ideológica a atribuição à autoria de Abbagnano.
Especialmente quanto ao que utilizei aqui, o verbete "potência", está alterado nessa nova versão, que não registra o sentido atribuído a Nietzsche, tendo sido esse verbete do original que me inspirou a escrita deste blog que está em elaboração - como as postagens foram sustadas pelo provedor, continua em Filosofia da potência II, III, respectivamente os endereços:
Em ambos, Aristóteles e Nietzche portanto, se trata expressamente de uma ética de classe, visando-se como o contraponto radical de toda legislação verdadeiramente democrática alicerçada na tese da igualdade existencial. Está evidente que a falácia aqui consiste na distorção do significado político de "igualdade". O contexto da defesa da democracia está alicerçado nesse significado que visa apenas o status da cidadania, o acesso às instituições e o que está coberto pelas garantias civis do Estado. Assim ele não é incompatível com a concepção de heterogeneidade entre pessoas e entre costumes.
Aristóteles e Nietzsche começam por reduzir todo o significado possível de igualdade ao que se opõe a esta concepção da heterogeneidade do privado. Porém o percurso do argumento falacioso é ainda contraditório, porque a defesa da heterogeneidade vai aportar no contrário de si. Bem inversamente à heterogeneidade democrática, é a aristocracia ou oligarquia que considera a homogeneidade de classe subsumindo todo sentido de identidade pessoal, como o que oferece matéria de consideração política. Ao invés do meramente heterogêneo, a consideração constrói a diferença dual, hierárquica, do nível privado, sobre que se espelha a dominação de classe em nível público, pseudo-justificada pela inferioridade dos tipos dominados.
Aubenque pratica a mesma redução tipológica como procedimento ético em Nietzsche, atribuindo-a já a Aristóteles. Trata-se pois do "prudente" como um tipo, não personalidade psicológica. Porém Aubenque não referencia o principal na construção do tipo. O que é coerente com sua intenção de situar o aristotelismo num caráter "moderno" (a prudência em Aristóteles, São Paulo, discurso editorial, Paulus, 2008, p. 278). Isto é, tanto por não pretender dominar o acaso pelos meios da mentalidade religiosa, como, principalmente, pela tese da contingência radical dos futuros, de modo que "o inacabamento do mundo é o nascimento do homem", a eficácia possível da ética (p. 173).
Ocorre que de fato, a teleologia é restaurada nesse nível prático, porque a ética está reduzida à ação, por um lado; e por outro lado a ação é ela mesma, como antes o ato na natureza, finalidade pura. Por outro lado, a finalidade transcende o objetivo do ato em si mesmo. Agimos de variados modos virtuosos porque almejamos uma só finalidade, o ser feliz. Ora, a felicidade não é uma condição de todos nós. A restrição da atribuição da felicidade a alguns torna coincidente o tipo nobre como o leitor ideal da ética aristotélica assim como da filosofia nietzschiana. Ele não pode ser feio, ter filhos indignos ou nascimento vil (Ética a nicômaco, 1099b1) - sobre a rejeição do feio como signo do fraco em Nietzsche, ver a "Vontade de Potência". Assim também vários trechos sobre a riqueza e a aristocracia.
Aquilo que seria verdadeira irredutibilidade entre Nietzshe e Aristóteles, é a reintrodução da potência, pelo primeiro, ali onde o segundo reduz tudo somente ao ato. Pois para Aristóteles, não desenvolvemos as virtudes - ou seja, as ações virtuosas que praticamos - a partir de termos "faculdades" como capacidades. Vemos e somos videntes porque temos a faculdade da vista. Mas se agimos virtuosamente é apenas em que somos virtuosos. Praticando a virtude, podemos ser atribuídos como tendo a disposição virtuosa, não o contrário, e a ética como filosofia se reduz à exortação ao treino, enquanto a ética como regulação da conduta é o que decorre dele sendo-lhe coextensivo como ato em praticando-se.
Podemos observar que se Nietzsche reintroduz a potência na moral, que Aristóteles havia reduzido ao ato, é porque a descoberta dos instintos na via da evolução na modernidade implica de certo modo a renaturalização do domínio prático, ainda que não apenas do modo como os positivistas o fizeram, elidindo de todo a cultura como "ideologia" descartável da compreensão do homem.
Assim podemos por um lado, considerar que Nietzsche conservou a oposição aristotélica do ato e da potência assim como dos seus domínios, prático e teórico, de modo que se algo da natureza como do teórico tivesse que se reintroduzir, então também assim a potência. Mas por esse viés penetrar algo mais na significação da expressão "vontade de potência", como se a potência fossem os elementos instintivos-naturais moldados pela vontade como o que é próprio do homem, o sobrenatural que concede sentido ao objeto.
Ora, se Aubenque elide a consideração do finalismo eudemonístico - em grego, o que visa à felicidade - e por aí político-oligárquico, na ética da prudência aristotélica, a interpretação nietzschiana que alicerça sua leitura de Aristóteles parece bem demonstrável. Trata-se de colocar todo peso da construção ética, não tanto naquilo que seria a "prudência" - que conforme Cícero é a tradução da phrônesis grega a partir da contração do termo "providência". Mas sim na oposição, que seria bem grega, de gnose e gnome, como do saber científico-factual e de um tipo de sabedoria do mundo operante na cultura (...) / continua ///
O viés nietzschiano na
leitura de Aubenque sobre a ética aristotélica pode ser enunciado
como segue, conforme um certo número de teses. Os gregos realizaram
um percurso histórico, de modo que para apreender o aporte de um
pensador, devemos apreender o nexo dele com a vigência do período
em que produz.
Nesse percurso,
houve uma ruptura para com a mentalidade religiosa dos primórdios.
Esta era ao mesmo tempo o protótipo habitual do obscurantismo, como
da superstição do Poder de todo pano de fundo não esclarecido. E
algo particularmente grego enquanto uma religião singular, uma
propedêutica humanística com que a filosofia, como o esclarecimento
nascente, sempre pôde manter diálogo, fator de sua fecundação.
A ruptura por
excelência é a própria filosofia. Porém a mudança histórica
entre os períodos já classificados como o arcaico (séc. IX e VIII
ac.) e o clássico (VI a IV ac.), é tratada em função da
transformação política que derrubou o poder aristocrático dos
genos como hierarquia por pertença da linhagem, e instituiu a
Polis democrática como igualdade de status da cidadania. Em
Nietzsche e Aubenque, trata-se ao invés apenas de uma história
cultural, que não procura relacionar seus motivos com a história
política.
O percurso cultural
instituiu-se como tema privilegiado, devemos lembrar, desde Nietzsche
em diante, tendo em Heidegger um segundo ponto alto. Aubenque
recolhe certamente a contribuição desse duplo salto na mentalidade
ocidental que consolidou a modernidade.
Na nossa própria
época clássica, entre os séculos XVII e XVIII, o papel formativo
da Grécia no Ocidente é tão importante quanto agora. Porém
tratava-se de uma Grécia vista com insuficiente capacidade
heurística, confundida com Roma. O classicismo greco-romano deixa de
ter realidade na atual forma de pesquisar.
Nesse ínterim,
entre a ruptura romanticista e Nietzsche, de fato a Grécia recobrou
importância graças a essa transformação. Os românticos já
zombavam dos gêneros estéticos “clássicos” greco-romanos de
Goethe, por a-históricos. Isto é, por um lado, antigos e
desconhecedores da ciência histórica que se descobria agora,
gêneros forjados numa intenção ante-cristã, sem aceno à
subjetividade. Por outro lado, gêneros reconstituídos numa
atualidade indiferente à essa ciência, pela presunção de um
acesso direto, não mediado pela historicidade da própria heurística
reconstitutiva.
Porém os
românticos estavam por demais ocupados com tudo que em estética
podia espelhar a subjetividade e seu correlato cultural, a
nacionalidade, assim como com a grande história desta em que muito
mais importante se revelava o cristianismo na Europa dos bárbaros,
para virem a ser grandes helenistas. E se iniciaram a mudança de
concepção quanto à Grécia emancipada de Roma, não chegaram a
essa maturidade que vemos desde Nietzsche em diante, pela qual a
Grécia assoma como um povo encarnado, palpitante de história como
de descobertas e rupturas.
Mais uma vez
contudo, a generalidade se inflete para fazer lugar à
singularidade, e se os gregos são agora tão humanos quanto os
cristãos de Chateaubriand, eles produziram a universalidade que
estes desconheciam. A oposição simples, grego e não-grego, cristão
ou judeu, permanece sem nuances. Vimos que ela surgiu com o
Romantismo.
Sobretudo há nesse
momento inaugurado por Nietzsche uma política cultural manifesta,
uma oposição à nacionalidade romanticista como produto da
assimilação do cristianismo, por uma importância desconhecida pelo
Romantismo à caracterização do Ocidente como fenômeno unívoco. A
Grécia se torna o referencial originário dessa unidade que quer
expressar nada menos que o rumo de todos os futuros como via da
planetarização da cultura europeia, a modernidade
científico-industrial.
Compreendemos pois
que tenha sido como tarefa de se desencavar nada menos que uma
História puramente cultural dos gregos, que estes voltaram à cena
na época de Nietzsche, após o desprezo romanticista a tudo que era
clássico em estética. Como desprezo a tudo que não estava mesclado
de algum modo à descoberta do Homem ensejada por um historicismo que
se auto-interpretava como o produto do diálogo de séculos entre a
consciência e o cristianismo que não fala ao intelecto universal,
mas sim ao íntimo de cada vontade particular.
Ora, desde
Nietzsche, e como vemos em Aubenque, o percurso da ruptura
pós-arcaica na Grécia foi reconstituído muito em função de se
entender a dramaturgia pós-homérica, paralelamente à revisão da
filosofia nascente. Aí, nessa novidade disruptiva do mito transposto
em teatro, Nietzsche instalou o que uma vulgata poderia recolher do
seu próprio pensamento.
A antiga
hierarquia olímpica como soberania garantida por Zeus da forma
apolínia se deslocava pela horizontalidade do devir em que ela
aparece apenas como a ilusão desde o desrecalcamento das forças do
fundo, instintivas, dionisíacas. A ilusão é necessária, porém,
como este “suplemento” – o termo é do próprio Nietzsche –
que define a arte. Entre ambas, a forma estética e o fundo
instintivo das paixões que ela encena, está o acontecimento
misterioso encarnado por Dionísio - ou o teatro.
A individuação do
deus como o destino dos heróis, que já não significa expiação
como na antiga fórmula homérica, mas a ferida narcísica, a dor que
o “suplemento” anula. O teatro é para rir, a dor foi só um
momento que não apagou a grandeza do devir heróico e o misterioso
eterno retorno, na forma cênica comunizada, universalizada, em que
ao invés da sua dor o que vemos do personagem é a sua heroicização.
A religião plasmada em teatro transforma a forma em efusão
orgiástica no momento mesmo em que a produz como dramaturgia. O riso
é o resíduo inalienável de todo prazer que necessariamente suscita
um espetáculo enquanto artístico.
É fato que o
teatro aparece como um dos elementos mais importantes da religião
cívica da Polis clássica, e o mérito de Nietzsche não foi pouco
ao explorar esse dado histórico. Porém a meu ver é duvidoso que
tenha se tratado de uma subversão dos deuses homéricos ao invés de
uma transformação da mentalidade religiosa em que eles foram
transfigurados. Assim Nietzsche não equaciona o papel das teogonias
em geral e de Hesíodo em particular.
Um cômputo sucinto
dessa transformação enunciaria que purgaram-se os aspectos cruéis
como os que envolviam sacrifícios humanos, eliminando-os, e
desatrelaram-se a questão da aretê (virtude) do homem ao parentesco
das linhagens aristocráticas com os deuses, assim como suprimiu-se a
intervenção direta dos deuses no jurídico e legislativo.
Conservou-se porém, na religião, o papel estrutural das posições
do panteão em que Zeus é pai dos deuses e dos homens e detentor da
soberania.
Nietzsche não
integrou devidamente – ou seja, como um problema de reconstituição
histórico-cultural - o teatro entre os demais elementos da religião
cívica. E a nova mentalidade que se trata de reconstituir, ele
deixou cindida ao considerar a influência oriental, que já no
período jurídico intermediário entre o arcaico e o clássico havia
mudado muito a feição dos cultos e crenças, apenas como um dado
importante na emergência da filosofia que ocorreu aí.
É verdadeira essa
influência oriental na filosofia nascente, porém justamente não
quando se trata da temática do devir – assim é manifesta em
Pitágoras e Platão, pensadores da alma eterna, ao invés de
Heráclito e os sofistas. Mesmo que como acentuei, visados por
conceitos pós-homéricos, a Polis clássica recuperou a centralidade
dos deuses homéricos, após esse interregno hesiódico e
pré-socrático de predomínio da influência oriental. Os deuses
homéricos desconhecem a alma volitiva, personalizada, conceito que
só penetra na Grécia via oriente.
Os cultos
populares e extáticos cuja emergência caracterizou o período da
filosofia nascente, como das seitas órfico-pitagóricas, conviveram
é certo com a transformação em curso da mentalidade religiosa de
modo que os deuses homéricos sempre estiveram presentes, porém
transformando-se a sua significação para superar o seu papel
constitutivo do mito da superioridade da nobreza. Constituintes
orientais foram importantes nessa transformação, e assim poderia
haver alguma ligação entre a alma volitiva oriental e o “conhece-te
a ti mesmo” do oráculo apolínio. Mesmo que essa proposição deva
ser confrontada com perspectivas existentes, é evidente que a
célebre exortação inscrita na parede do templo em Delfos amplia a
qualquer um pessoalmente a relação com o deus e a religião, cujos
ritos deixam assim de ser uma prerrogativa palaciana, da nobreza.
Mas devemos
portanto lembrar que o oriente não poderia deslocar o referencial
local dos deuses gregos, já que a Grécia mesma nunca existiu na
Antiguidade como um país, e as Cidades-Estado (Polis) independentes
que então floresciam cada com uma constituição própria estavam
unidas como “gregas” apenas por um liame de consciência dessa
religiosidade homérica em comum, assim com do parentesco dos
dialetos, nem mesmo sempre por identidade étnica.
Aqui não seria
oportuno nos deter na história da formação territorial das etnias,
que remonta à reacomodação de povos após as invasões dóricas
provavelmente ocorrendo em 1200 ac. O remake homérico da
cultura que deve ter sido a do império micênico que havia antes
dessas invasões, remake obtido pela conservação oral da
tradição, não reproduz de todo, para além dos dados
mítico-religiosos, a unidade do regime anterior.
Na verdade quando
estudamos a história cultural da “Grécia”, estamos
referenciando com poucas exceções apenas o mundo étnico jônico,
entre as cidades costeiras da Ásia Menor e Atenas. Meio de comércio
marítimo e manufatureiro afirmado ao cabo do processo que reabilitou
a civilização após o período de trevas, quando a nobreza
estabilizada como referencial desde os tempos das invasões dominava
num contexto em que havia cessado todo comércio e até mesmo a
escrita, ele de modo geral se caracteriza pela instituição do
regime democrático assim como a origem e desenvolvimento da
filosofia.
É importante
considerarmos este aspecto, pois contrasta assim o referencial jônico
exemplarmente com o dórico, tipificado por Sparta, agrícola,
interiorano e totalitário mesmo sem um ditador personificado, devido
à subordinação do indivíduo ao militarismo estatal.
A modulação da
cidade-Estado spartana sobre o conteúdo mítico homérico é bem
menos espetacular que o jônico, tendo preservado muito da
mentalidade conservadora da nobreza, mesclada porém ao ideal
guerreiro que deve ter predominado na época das trevas. Porém os
aqueus, o povo anterior a essa época, haviam sido grandes
comerciantes marítimos, o que não é o caso de Sparta, ainda que
como estes tenham sido caracteristicamente militarizados. Mas Micenas
fôra um grande império de alta significação cultural enquanto a
bastante iletrada Sparta era apenas um regime constitucional entre
outros, de cidadãos iguais porém apenas como senhores dominando
continuamente sobre um contingente subjugado local, a etnia dos
messênios.
O contraste dos
regimes dórico e jônico eclode depois, na forma do antagonismo
bélico de Sparta contra Atenas, quando esta quase estava alcançando
a hegemonia sobre o que seria um sonhado pan-helenismo regional
graças à vitória sobre o notável poderio Persa, que Atenas
protagonizou incontestavelmente garantindo a independência das
cidades gregas. Em todo caso, a vitoriosa Atenas do século V ac.
concentra o referencial do que habitualmente temos em mente quando se
trata das conquistas ímpares, intelectuais, artísticas e políticas
da Grécia na Antiguidade. Porém antagonismo que, se destruiu o
poderio ateniense na Antiguidade, afinal envolveu praticamente todas
as cidades gregas, e em que a Tebas de Epaminondas teve papel
preponderante derrotando posteriormente Sparta e libertando os
messênios, entre outro feitos. Antagonismo que pôs fim à
independência das cidades gregas frente aos impérios desde o
macedônico, porque nenhuma das cidades-Estado conseguiu manter a
dominação sobre as outras, e apenas decorreu a debilitação da
resistência possível à agressão externa.
Também a
relação entre o meio jônico liberal e manufatureiro com o
nascimento da filosofia tem sido tematizado, como em Carl Sagan, que
interpreta a mutação platõnica idealista e anti-científica na
acepção de anti-experimental como o retrocesso aristocrático, isto
é, antipático ao trabalho manual, do mundo antigo, o qual como
tendência histórica anulou a singularidade grega diante dos grandes
poderios aristocrático-imperiais estrangeiros. Impediu assim o
desenvolvimento das intuições naturalistas originárias da jônia
numa ciência experimental antiga. O retrocesso tem curso até o
Renascimento, em que aquela singularidade retornou porém de um modo
europeizado, com a ciência se desenvolvendo sem obstáculos e como
um meio de planetarização.
A confusão
anacrônica de filosofia e platonismo ou em todo caso “metafísica”,
devido à longa duração do que Sagan designou retrocesso, devemos
lembrar ser o motivo da condenação dela como esterilidade
idealista, em meios marxistas e materialistas contemporâneos. Nesse
modo mais habitual de ver, a ciência experimental não é retomada
das origens, mas progresso sem precedentes. Em todo caso, não se
tratou portanto desde o marxismo como já desde o Iluminismo
oitoscentista, de objetar ao caráter conceitual, reflexivo neste
sentido, do seu teor. Apenas objetava-se ao que deveria ser um
resultado previsível desde a ausência de nexo entre o objeto do
pensar e a prática material.
Retornando ao que
examinamos acima, a prática dos oráculos dos deuses gregos desponta
na época intermediária entre o arcaico e o clássico, e sua
importância na história geral do mundo antigo nesse período é
bem conhecida, sendo Heródoto o grande referencial do tema. Na
história da filosofia, ensejei a reconstituição da importância do
oráculo de Apolo na origem, entre a tradição dos sete sábios e a
superveniência dos pré-socráticos (em meu título publicado:
“Filosofia, ceticismo, religião; com um estudo sobre Diógenes
Laércio”, ed. Quártica).
Também visei aí
o fato de que os estudiosos da era helenística, pós-democráticas,
enfatizaram o parentesco do mito de Dionísio não raro fundido com
divindades nacionais, com os “mistérios”, representações
religiosas extáticas do percurso da alma eterna, ao contrário da
religião da época clássica na Polis. Ou seja, quando Dionísio se
torna o referencial de religiões em si, já não se trata da Polis
grega, mas sim do “helenismo” como a influência cultural grega,
utilizada pelos sucessivos impérios para unificação ideológica.
Como é típico do helenismo para todo uso de motivos gregos, o
referencial dos “mistérios dionisíacos” helenísticos não são
unicamente gregos, mas resultam da miscigenação com motivos
salvíficos orientais, egícios, caldaicos e outros, relativos ao
percurso da alma além da vida como ao segredo (mistério) da
liberação relativamente ao karma.
Aqui realmente a
identificação do crente no ritual com a trajetória idealizada de
Dionísio desempenhava papel importante no “mistério”, o deus aí
miscigenado com outros como o Osíris egípcio, os “mistérios”
fundindo também outros motivos gregos a Dionísio, como o culto de
Demeter em Elêusis. Se o “mistério” da era helenística parece
algo teatralizado, não se trata porém de teatro tout court e
todo elemento de publicidade ou civismo está ausente, tratando-se ao
contrário de segredos iniciáticos invioláveis restritos
à privacidade dos fiéis.
É manifesto que
Aristóteles se encontra na época de transição entre o clássico e
o helenístico posterior. Em Aubenque trata-se da fonte dramatúrgica
da Polis grega como mais importante na reconstituição dos motivos
éticos aristotélicos, do que propriamente o platonismo.
Compreenderíamos
o ardor aubenquiano na defesa dessa tese como devendo-se a algo
ulterior à simples veleidade do prosélito que deseja provar o seu
modelo originalíssimo, devido à intensidade inusual com que se
expressa. Não deixa Aubenque espaço algum à reflexão do que é
praticamente consensual como a conservação de Aristóteles na
vertente socrática, para além das críticas ao socretismo platônico
e às modificações que Aristóteles mesmo introduziu. Nem procura,
por outro lado, reconstituir a posição de Aristóteles na história
das ideias a partir do que seria esperável em sendo assim, isto é,
por algum parentesco dele com a sofística. Em “O problema do ser
em Aristóteles” isso é ainda um pouco observado, porém nada
resta dessa intenção em “A prudência em Aristóteles”.
A epígrafe de
Nietzsche neste segundo título, lembrando que “os gregos”
preferiam, quanto ao conteúdo do saber, o viver que o contemplar,
escolhida por Aubenque, não deixa dúvida. Trata-se de livrar
Aristóteles do que Aubenque deve ter considerado autêntico na
condenação nietzschiana do platonismo como movimento avesso à
ruptura filosófico-dramatúrgica e democrática que subverteu a
hierarquia do poder supersticioso da forma imutável sobre a matéria
em devir.
Nietzsche não
considerou Sócrates, e por aí o platonismo, como simples reposição
da mentalidade arcaica do poder aristocrático, mas sim como algo de
novo e inaudito, o individualismo “burguês” - o termo também é
de Nietzsche. O que espantosamente frente ao que vimos como a
identidade dramatúrgica individuação-dor-destino, quer ter
um destino, quer saber identificar-se como alma responsável por si e
“ideia” imutável.
A princípio
ele assimilou Sócrates a Cristo, mas depois, segundo o que recenseou
em Ecce Hommo, renunciou a isso por considerar que em todo caso
Sócrates era grego. Nietzsche estabeleceu portanto um terceiro
momento do percurso helênico, o da decadência na proximidade dos
impérios. Vemos que sua carreira espelha o que estava em curso na
Europa e em Heidegger é exemplar, de modo nenhum qualquer suspeita
quanto à validez da irreditibilidade mais radical entre as culturas
como totalidades fechadas, imiscíveis umas às outras.
Vemos que a
histórica cultural de Nietzsche exibe um percurso curioso, elidindo
a sofística como movimento importante. Quanto se trata da filosofia,
há por um lado, a distinção do pré-socratismo e do platonismo,
similar à de Heidegger. Esperaríamos que se tratasse quanto ao
primeiro, do reflexo conceitual da mentalidade leiga e materialista
reconstituída na dramaturgia. Mas quando se trata de reconstituir a
mentalidade pré-socrática enquanto filosofia, Nietzsche bifurca a
condição grega entre pensadores do ser e do devir – sem com isso
eliminar a espessura histórica do socratismo como algo posterior a
ambos enquanto pré-socráticos.
Mais
propriamente, entre pensadores que condenam o devir e que o celebram.
Aubenque está portanto bem dentro da influência nietzschiana quando
quer fazer de Aristóteles expressamente um pensador que celebra o
devir.
Não considero
que haja outra fórmula para a interpretação da ética aristotélica
por Aubenque, mesmo que obviamente possam haver muitas outras
motivações importantes a serem descobertas. E ainda que Nietzche
mesmo tenha tratado Aristóteles como exemplo do socratismo, o que
estamos considerando é justamente que por trás da segregação
expressa há motivos comuns importantes. O expresso mesmo não é
tão constitutivo da perspectiva nietzschiana do que a exemplaridade
dos três momentos, aristocrático, dramatúrgico e idealista, na
qual Aristóteles não desempenha papel fundador.
Porém já
poderíamos suspeitar assim, de que se Aubenque reconduz Aristóteles
ao segundo momento, porém como figuração da própria filosofia,
toda celebração do devir na Grécia contem algum travo de amargor,
já que ela se faz de algo que só pode se enunciar num meio
carregado de intenções contrárias à sua boa recepção. Conforme
descobrimos por um exame mais detido de Nietzsche, ainda neste não
só pela interveniência do platonismo nesse meio, entre o que seria
a unidade feliz da dramaturgia devirenesca e a sua restauração por
um aristotelismo que refez o percurso da queda platônica no conceito
intelectualista apenas para melhor purgá-lo. Mas na imanência da
filosofia da época dramatúrgica ela mesma.
E quanto a Aubenque,
a originalidade de Aristóteles assim se garante. Para além de
simples sistematizador, a sua síntese contribui com algo mais. Ela
completa efetivamente o movimento em prol da libertação do devir, e
conforme Aubenque, Aristóteles ultrapassa o que os gregos até aí
haviam podido obter de melhor.
Com a finalidade de
melhor considerar Aristóteles como pensador do devir, e o lugar da
ética nele assim reconfigurada por Aubenque, devemos agora
revisitar os lugares teóricos importantes na constituição do
pensamento pré-socrático que, como devemos lembrar, foi feita só
recentemente na forma que se tornou habitual. Entre Nietzsche e
Heidegger, ou seja, justamente em função do nascimento de um
pensamento do devir como originalidade grega e promessa libertária
ocidental, mesmo que contra uma captura “metafísica” ela mesma
grega e ocidental.
Aubenque não
parece indiferente a essa composição. A epígrafe de Nietzsche em
seu livro encima o trecho sobre “O homem de prudência” que se
intitula sintomaticamente “definição e existência”. Junto a
Nietzsche, em alemão, o heideggeriano Dasein.
A
composição nietzsche-heideggeriana da Grécia revelou até aqui,
uma lacuna importante.
Como vimos, Nietzsche salta dos pré-socráticos ao platonismo sem
tangenciar a transformação
sofística, tão importante
como nada menos que o descarte da natureza
(physis), elemento mesmo do conceito pré-socrático, em termos de
referencial do pensar a que
só restam
de válido os temas humanísticos. Assim
até a transformação
platônica que torna a se interessar pela ciência das
coisas. É
interessante verificar que Cassin estudou um
salto similar
em Heidegger, que
ora situa a sofística como decadência na qual o platonismo se torna
compreensível, ora assimila Protágoras aos pré-socráticos. Ela
ressalta neste
estudo as consequências,
que não são de pormenor.
Ainda
que os
procedimentos
de Nietzsche e Heidegger
quanto a isso não tenham
sido exatamente os mesmos, o resultado é muito parecido. O
que estamos observando aqui permite pois, tratar a questão dos
motivos heideggerianos dessa lacuna, por um viés unívoco à
pergunta sobre quais teriam sido também os de Nietzsche.
Como é habitual
estabelecer, Nietzsche e Heidegger consideram que a emergência da
metafísica assinala uma mutação na história das ideias – até
aqui somente grega. Inversamente a Heidegger, porém, Nietzsche
distingue três vertentes.
Aquilo que para
Heidegger é a unidade profunda do pensamento pré-socrático,
Nietzxche secciona exemplarmente entre Anaximandro e Heráclito, como
entre dois modos de ver o devir.
Na perspectiva de
Heráclito, o devir é celebrado como imanência absoluta. Na do seu
predecessor, Anaximandro, há uma razão como algo acima do devir,
tratando-se deste como expiação da injustiça que os entes dispõem
uns aos outros, por deslocarem-se entre si no vir a ser.
Nietzsche se
identifica com Heráclito e critica Anaximandro, de que faz, sem
dúvida, o tipo de Schopenhauer. A originalidade de Nietzsche aqui é
que qualquer conceito que se sobreponha ao devir, ainda que fosse
apenas a expiação, é descoberto derivado da primeira intuição
que pertence só a ele. Não ocorre o inverso, o devir provir da
crítica a algo pensado filosoficamente como arkhé (origem) única
na acepção do Ser.
Ele assinala
Anaximandro como pensador inaugural, diferente de Tales ainda que
este tenha sido o primeiro pensador grego. Enquanto Tales foi o
pioneiro na questão da origem deste mundo, filosoficamente
encaminhada, tratou-a porém “de maneira puramente física”,
conforme Nietzsche. (Pensadores, “Os pré-socráticos”, p. 18)
Anaximandro havia
sido “o primeiro grego que ousou tomar nas mãos o mais profundo
dos problemas éticos”. Qual seja, o direito à existência
subvertido como é pela impermanência corrente do devir.
Sem que Nietzsche o
diga, fica patente assim que a existência está sendo pensada
naquele sentido que Heidegger atribui como possibilidade na Grécia
somente nos tempos metafísicos, isto é, como presença constante. A
subversão da presença constituiu-se como questão moral em
Anaximandro segundo Nietzsche, como transgressão cujo correlato
funcional ao simpierno fluxo do devir só resta ser expiação, pela
qual a pluralidde que subverte a unidade não chega a poder ser
legítima, porém se penitencia.
Mesmo assim a
explicação anaximândrica requer algo mais, se na eternidade o
processo expiatória já devia ter se consumado. Mas o devir
permanece. Nietzsche conclui que dessa nova questão, Anaximandro só
se desvencilhou por uma hipótese mística, o Ápeiron, em grego
“indeterminado” como definição da presença constante ou
daquilo que é destituído de qualidades determinadas. O devir sendo
a alternância das qualidades, subverte a presença mas apenas para
tornar pensável que ela é. As qualidades determinadas são pois o
“que levam a sucumbir”, a ser deslocado na corrente do devir pela
superveniência do contrário.
Habitualmente
trata-se do Indeterminado ou Ilimitado como a solução de
Anaximandro para a questão da origem, que Tales levantou ao
responder ser a água. Simplício na “Física” registrou o
fragmento que conhecemos como a sentença de Anaximandro sobre a
justiça que as coisas devem umas às outras, a qual Heidegger tratou
longamente como um problema de reconstituição lexical e exegese
histórica.
Ao ver de Nietzsche
pois, inversamente ao que se afirma de hábito, “ a imortalidade e
a eternidade do ser originário” para Anaximandro “não está em
sua infinitude e ineuxaribilidade mas em ser destituído de
qualidades determinadas que levam a sucumbir”. Sendo justificado o
termo “apeiron”, o que é sem “peras', sem limites, para
designar o segredo da permanência, mesmo do devir como perpétua
alternância dos opostos, sendo indeterminado só o que coerentemente
permanece.
Ainda assim a concepção
do Apeiron como presença constante está segundo creio demonstrada.
Nietzsche o trata como “ser”, o originário. Faz dele o
equivalente da c oisa em si designada por Kant, porque não se
poderia predicar dele qu alquer característica, uma vez que todas
elas se endereçam ao que está em devir. E o estabelece como “o
que está acima do vir a ser e justamente por isso garante a
eternidade e o curso ininterrupto do vir a ser”.
Como em
Aristóteles, que trata o “substrato” ou sujeito substancial da
proposição como do pensamento atributivo, em termos de
“hypokeimenon”, aquilo que subjaz relativamente a toda predicação
possível e assim de certo modo independente dela, tornando-a válida.
Utilizando-nos da interpretação de Nietzsche, Anaximandro já teria
estabelecido o Ápeiron como arkhé ou originário neste estatuto do
que subjaz.
Abbagnano
distingue as traduções habituais do “hypokeimenon' aristotélico.
Condena o uso de “substrato”, introduzido segundo ele por Pierre
Auriol (séc. XIV), e consagrado desde Locke para o ser real ou
substância, preferindo “sujeito”. Porém antes da modernidade
nunca com o sentido de ente singular ou indivíduo humano, de modo
que a transformação do termo neste uso atual é estudada em
Abbagnano no mesmo verbete.
Seja como for,
Nietzsche resume bastante bem a demonstração que pretendo sobre a
precedência de Anaximandro sobre Aristóteles, utilizando o termo
traduzido em português conforme o uso consagrado: “É manifesto
que observando a transformação recíproca dos elementos, não
achou apropriado fixar um destes como substrato”, mas algo fora de
todos eles. (p. 15)
Ao escrever sobre
Anaximandro, Heidegger critica Nietzsche e Diells como seus
intérpretes, ofuscados pelo preconceito classicista que a tudo
considera segundo as óticas de Platão e Aristóteles. Sobre
Nietzsche especialmente, ainda que pudesse ter tido vivacidade em
suas relações com os gregos, permaneceu superficial e convencional,
ao ver de Heidegger.
Ele distingue
Hegel como real pensador dos gregos, porém porque não tendo logrado
superar a crença em Aristóteles como a fonte mais segura, conservou
a dupla opinião prejudicial sobre os pré-socráticos – que não
obstante Heidegger diz também que se originou como opinião a ser
validada na modernidade precisamente aí. Isto é, devido a
Hegel, o que vale posteriormente para Nietzsche e quaisquer outros. A
saber, que a questão “pré-socrática” das origens tinha a
natureza só como referencial, e que as representações que
obtiveram eles neste rumo foram insuficientes, sendo plens apenas
desde Platão e Aristóteles.
De fato Heidegger
erra nesse ponto, como podemos observar do exposto. A questão do vir
a ser foi visada por Nietzsche quanto a Anaximandro como problema
ético, envolvendo toda a posição de existência possível. É
verdade que só desde os sofistas houve a oposição expressa,
relevante assim ao pensar, de physis e nomos, como natureza e
conveção humana. Mas Heidegger se ocupa apenas com a oposição
aristotélica dos “physei onta” em face dos “teckné
onta”, como entre o que vem a
ser por si mesmo e o que é fabricado pelo homem, da
qual teria procedido a conhecida atribuição aristotélica dos
pré-socráticos como “fisiólogos”, pensadores só da physis
(op. cit. p. 21). Ele
não diz nada aí sobre a revolução epistemológica da sofística.
A
interpretação
de Heidegger sobre Anaximandro, em todo caso realmente se opõe a
Nietzsche. Pois
concebe como
termo anaximândrico, ao
invés da “penitência” como o que dispõe os seres em devir uns
para os outros, tanto o devir mesmo como a juntura ou reunião do que
em si vem a ser, quanto
a estima ou acordo mútuo que impera na juntura de uns e outros.
Na
concepção de Heidegger, o devir anaximândrico é pensado como
totalidade, e nesta qualquer que seja a discrepância das coisas que
persistem enquanto são, não anula sua entredestinação como
coexistência. As coisas são, relacionando-se (tendo cuidado por)
umas com as outras, entre si. Mas assim Heidegger faz de Anaximandro
um pensador profundamene convergente com Heráclito. Enquanto
Nietzsche situa a via mística, isto é, filosoficamente
insuficiente, daquele no que seria a noite em avanço do pensamento
ensonbrecido pelo pessimismo, relativamente à qual heráclito seria
o esclarecimento, à plena luz: “Em
meio a essa noite mística em que estava envolto o problema do vir a
ser, de Anaximandro, veio Heráclito de Éfeso e iluminou-a com um
relâmpago divino”.
Não
obstante o contraste vívido, Heidegger e Nietzsche podem ser visados
em acordo sobre os gregos, quando se trata daquilo que Aubenque
tratou como a fonte dramatúrgica da ética gnômica aristotélica.
Na “Introduçaõ à
metafísica”, são os
gregos em geral que antes de Platão pensam para além das oposições
metafísicas, como de ser / pensar, ser / dever-ser,
ser / devir, e
principalmente, ser essencialmente
e existir efetivamente.
Porém se
em Heidegger isso é mais coerente porque não atribui uma divisão
interna ao pensamento pré-socrático,
também nele não se divisa o
nexo da filosofia com a
cultura folk e a dramaturgia.
Na
medida em que subsiste
sempre, como o que faz pensar
a filosofia desde a origem,
uma crítica contra o que é vulgar como a
fonte do que irá ser racionalizado na metafísica em termos daquelas
oposições, obviamente ela
pensa contra “a multidão”. Mas
o que é a cultura folk fora da multidão que circunda o filósofo?
Por outro lado, se
a dramaturgia é considerável em termos de prova textual, como nela
não ressoa a cultura do povo a que se dirige como espetáculo?
Heidegger
parece obter um tento contra Nietzsche, ao observar o fragmento de
Heráclito interpretado por Clemente de Alexandria como enunciado de
Deus. A sentença é
enigmática: “como pode alguém se manter oculto frente ao que
nunca tem ocaso?” Se há algo que nunca tem ocaso, sustenta
Clemente, só pode ser Deus.
Heidegger,
resolvendo a filosofia em sua origem
ao problema da essência do conhecimento – o dilema de objetivismo
e subjetivismo – propõe essa unidade do sujeito que atribui ser ao
objeto, como a significação do Logos pré-socrático. Unidade
subjetiva “mais sublime” do que a simples decisão sobre a
validez de proposições na efetividade, segundo o anti-objetivismo
de Heidegger (p. 124).
Realmente
podemos convir haver muito
de proveitoso na assunção da unidade profunda que deve encerrar
aquela instância da qual provém a atribuição do Ser a qualquer
ente, assim como desta mesma atribuição. Entenderíamos por aí a
célebre indagação da filosofia moderna: por que há o ser e não
antes o nada? Se há resposta, é tu mesmo, aquele que dá ser à
significação da pergunta.
A
este transcendental que para
Heidegger estava expresso na
semântica do arcaico termo
grego “aletheia”, traduzido por ele em termos de desocultação e
clarificação, se ajunta como vimos a designação do sublime. Aqui
deveríamos lembrar a ressonância kantiana da palavra, coerente com
a identidade da posição de Heidegger quanto à essência do
concheicmento, e a do neokantismo da escola de Marburgo.
Em
Nietzsche, como vimos, pelo contrário, o devir é pensasdo como
pluralidde e sentida esta ora ao modo de transgressão do uno
(Anaximandro ); ora de modo propriamente afirmativo, um pensamento
que assume seu objeto, o devir, sem adicionar a fantasia do que não
lhe pertence, a undiade do ser (Heráclito). Heidegger, em
contrapartida, nos faz ver através da citação do fragmento, o
próprio Heráclito afirmar a unidade –
“o que” não tem ocaso é um, restando
o enigma do que pode escapar a ele, se
jamais declina.
Mas
assim, unidade que atravessa a oposição dos contrários que é o
que faz do conhecimento e seu referente, o Real, um problema. Para
Heidegger, do mesmo modo que a partícula privativa que faz do
des-ocultar uma modalidade da ocultação, e
assim não simplesmente privação como contrário absoluto da
posse, a relação que se expressa na sentença de Heráclito, entre
o ocultável e a luz, como entre o que pode ou não ser visto e
aquilo que é perpetuamente visível.
O
cotejo heideggeriano com a interpretação de Clemente de Alexandria
é útil aqui: “O padre da igreja pensa com isto, no manter-se
escondido de homem pecador diante de uma luz. Heráclito, pelo
contrário, fala apenas de um permanecer velado. Clemente refere-se à
luz supra-sensível, tón theón,
o Deus da fé cristã. Heráclito, pelo contrário, apenas nomeia o
que nunca tem ocaso”. Mas Heidegger
deixa suspensa a questão de se este “apenas” significa “uma
limitação ou outra coisa”(p. 125)..
Não
ignoramos contudo aqueles textos em que Heidegger negou que a sua
fosse uma filosofia do su jeito, e poderíamois indagar aqui sobre a
aparente contradição. De fato, entre o Logos e o Eu, a unidade é
questionável como instância originária do sentido. O cerne da
unidade é o sentido, o fato de que há sentido naquilo tudo o que
devém, sendo ou não sendo sempre o mesmo, mas somente
se é o homem o sujeito do
enunciado, do que é mesmo ou do que difere. O
homem é em Heidegger,
contudo, essencialmente a atribuição
da unidade de algo como ser ou
não-ser.
Assim
para objetar
aos que na resolução do problema do conhecimento preferem divergir
do subjetivismo, alegando que o objeto é que contem as instâncias
que fazem o sujeito atribuir tal ou tal, mas
para evitar as dificuldades do objetivismo puro escolhem um meio
termo que coordene sujeito e objeto, Heidegger o tratou como apenas o
que “disapõe o âmbito de sua mútua relação” - ao garantir o
meio termo a subjetividade do
sujeito e a objetividade do objeto como partes
da pressuposta unidade de ambos, conforme a solução. (p. 124)
O
pensar está a caminho, em todo caso, dessa unidade. E mesmo que só
tenha logrado abarcá-la com um olhar devido à pressa em saber e
crer o que já se pressupôs desunido e independente, conforme o
hábito da irreflexão objetiva, o espanto d iante do que se revela a
ele é suficiente para originar o pensamento como “questionamento
realmente experimentado” acerca da possibilidade de conhecer. Ou,
em terminologia heideggeriana: afirmar que algo é, que es tje aí
como o que seja.
E
afirmar que não se perca na vacuidade do momento em que as coisas
mesmas vem e vão, mas validamente, de modo que sempre se
deva afirmar que foi o que foi e como tem sido, é. A partícula “se”
transcende pois o sujeito na
direção da linguagem, que é
a mesma da interpretação. Será que também Nietzsche não a
instalou nesse âmbito, ao fazer da unidade do fato a pluraliudade da
interpretação?
Ao
repor assim a questão, entendemos porque Heidegger devia aparentar
se contradizer. A interpretação desloca os dilemas de sujeito e
objeto assim como de sujeito a sujeito, pois só pode ser subjetiva
dirigindo-se à instância
intesubjetiva em que instaura multiplicidade em vez de “simplesmente
a garantia da verdade objetiva, no sentido de proposiçõe válidas”
conforme o próprio Heidegger magniicamente expressou. A sua
interpretação da sentença escolhida de Heráclito não pode
provar-se exata mais do
que qualquer outra.
Ele
o exemplificou em seguida, indagando: “Que ganharíamos se
quiséssemos rejeitar a interpretação teológica do fragmento como
apens uma interpretação incorreta? Assim,
quando muito, poderia cristalizar-se a aparência de que as
observações que seguem fincariam pé na opinião de tingir a
doutrina de heráclido da única maneira correta e de modo absoluto.”
Mas assim só ganharíamos
encorajamento para nos manter o mais possível na proximidade da
palavra que interpretamos, como de Heráclito.
O
que devemos rejeitar é a cristalização factual. Em que a
hermenêutica de Nietzsche e Heidegger se desencontram tão
abruptamente que para cada um deles a palavra de Heráclito é o
contrário do que o outro diz, entre unidade e multiplicidade?
Porém
o que vemos é em cada um deles, a tessitura de um Logos em processo,
o tempo da transmutação desses contrários
um em outro. A unidade
da instância atributiva como da atribuição do ser em Heidegger,
resulta na complementaridade das vias múltiplas abertas pelo evoluir
do acontecimento apropriador hermenêutico. Cada intepretação teve
seu lugar na história, na diferença historial se conserva o seu
sentido. E Nietzsche
representa Heráclito definindo o enigma da
efetividade uno-múltipla, a permanência do mutável como “trilhas
sempre iguais do justo na senda do eterno e único vir a ser daquilo
que porém é a inconsistência dos contrários sempre alternando-se,
pela sentença de que “um
é múltiplo”. Por
isso que o vir a ser da multiplicidade é ele mesmo unidade
inquebrantável da justiça ou conforme a palavra de Schopenhauer,
efetividade (pgs. 102 a 110).
Porém
assim para revelar o enigma do uno e do múltiplo, do devir e sua
justiça eterna, sua
perenidade, como “o jogo da grande criança do mundo, Zeus” - bem
inversamente à hybris
do transitório, em Anaximandro e o mesmo Schopenhauer.
Também
Nietzsche situou aí o transcendental kantiano. Objetando à censura
de Aristóteles, de que Heráclito teria pela afirmação dos
contrários pecado contra o tribunal da razão, mostra que este como
pensador do devir nele divisou a duplicidade entre o mutável e
cambiante, por um lado, e por outro a condição de possibilidade de
sua apreensão visível. A saber, o tempo e o espaço “pois estes
embora não tenham conteúdo determinado, podem, independentemente de
toda experiência e puramente em si, ser percebidos intuitivamente,
portanto vistos.”
Aqui
Nietzsche não faz a referência explícita
a Kant, pai deste a priori da sensibilidade, mas sim a Schopenhauer.
Como pensador do devir, ele esclarece Heráclito admiravelmente ao
ver de Nietzsche, porém com o objetivo de condená-lo,
contrariamente àquele pensador antigo. O oportuno nisto é que a
efetuação da efetividde
seja mantida como por Schopenhauer, assim como para Heráclito, o
único “modo de ser” (p. 104).
Assim
a aparente contradição do exposto com aquela parte em que Nietzche
contrasta Heráclito a Anaximandro porque este apenas criou a
fantasia mística do ser indeterminado, à parte do devir das
determinações múltiplas, se esfuma. O
que não tem em si determinação deixa de ser o contrário simples
do determinado. Eleva-se ao transcendental da determinação como
determinável, sem subsistir à parte deste na efetividade sempre
determinada.
É
importante nos deter mais nessa descoberta de Nietzsche da
indeterminação a priori ou transcendental kantiano como da
sensibilidade em Heráclito. Essa tese repercute de modo notável
com o que seria oportuno examinar agora, as interpretações de
Nietzsche e Heidegger sobre Parmênides.
A
temática das relações Nietzsche/Heidegger, relacionada à
interpretação dos gregos, revela-se aqui fecunda. Se Heidegger
mesmo deixa isso bem visível por suas epígrafes e considerações
sobre o legado nietzschiano a
propósito, quando se trata de Parmênides a intercessão
de Jean Beauffret ao
percurso crítico heideggeriano tornou-se decisiva, desencadeando a
resposta de Heidegger por carta célebre. Como
poderemos observar, só compreendemos bem o papel de Beauffret se já
estivermos bem munidos daquela de Nietzsche.
A
interpretação de Nietzsche começa por uma oposição entre as vias
da intuição e da lógica, como acessos do pensamento, e Parmênides
teria sido o introdutor da segunda na história das ideias.
Pessoalmente Nietzsche é de
todo avesso a ela, e vemos que não se trata de uma via de
continuidade ao que ele designou, em Anaximandro, a fantasia mística,
ainda que a tautologia do ser
parmenídico tenha tido a seu ver “na teoria de Anaximandro seu
ponto de partida” (p. 146). Heráclito
não fica apenas como um dos que estavam restritos à intuição,
antes de Parmênides inaugurar o acesso lógico, mas torna-se aqui,
por sua afirmação do devir como o antípoda da filosofia do ser
parmenídico, o protótipo
dela.
Vemos
assim o papel importante de Heráclito na modernidade. Se Nietzsche
se identifica a ele como pensador crítico da metafísica e assim
moderno por excelência, tão moderno que inaugura a crítica de
uma interpretação
positivista da ciência que
se acreditava moderna como
nada além do que apregoa como seu inverso, dogmatismo metafísico,
não
foi Nietzsche quem inaugurou esse
modo de tratar a história, pela qual o pensamento só atinge a
verdadeira modernidade quando reassume a origem pré-socrática, ao
invés dela ser um progresso sem precedentes.
E sim Hegel, por
identificação da modernidade com o resgate anti-metafísico do
devir, e identificação pessoal
com Heráclito como o
pensador inaugural deste.
Ora,
pela “escada de corda da lógica” compreenderíamos porque
Nietzsche identificou, ao contrário, Parmênides e Hegel. Porém não
foi nesse sentido que ele colocou a questão, e sim naquilo que a
seu ver extrapola a
tautologia, a pressuposição parmenídica
de que além
da identidade lógica há um absoluto substancial, de modo que o
pensamento “vai à essência das
coisas e é independente da experiência”.
É
por isso que
Nietzsche antepõe rigorosamente Parmênides e Hegel a Kant: “Pois
o puro critério lógico da verdade, como Kant ensina, isto é, a
concordância de um conhecimento com as leis formais e gerais do
entendimento e da razão, é apenas a conditio sine qua non, portanto
a condição negativa de toda verdade; a lógica não pode ir mais
longe nem descobrir, através de nenhum 'procedimento', o erro que se
refere não à forma mas ao conteúdo”. Porém não há conteúdo
algum para “a verdade lógica da oposição” parmenídica de que
“o que é, é; o que não é, não é”. Assim
o contrário do que Kant ensina estaria condensado na fórmula de
Hegel citada por Nietzsche nesse ponto: “o
absoluto já está presente”,
a prova sendo o seu caráter
mesmo de objeto da inquirição.
E expresso de outro modo, se
ele é encontrado por esta,
enquanto ser já está aí de alguma maneira, “sem o que nem mesmo
o conceito poderíamos ter” - como ecoa Beneke a Hegel, na citação
de Nietzche (p. 151)
Mas
Nietzsche repete Hegel, mais à frente, sem referenciar que se trata
da dialética. O seu argumento nesse ínterim é empirista. Não é
da preexistência do ser que vem a intuição
que coube à pura lógica
supor demonstrar enquanto pensamento do ser, mas sim dos nossos
próprios sentidos, que captam antes de mais nada, pelo nosso
respirar, a nossa presença constante. A
perniciosa oposição que Parmênides introduziu conforme Nietzsche
tendo sido a de matéria e espírito, intelecto e sentidos
sensoriais.
Mas o desfazer demonstrado
dessa oposição procede Nietzsche pelo recurso àquela mobilidade do
pensamento que Hegel ensinou anteriormente enquanto temporalização
da consciência.
Assim,
conforme Nietzsche, “se é real o pensamento da razão por
conceitos, então a multiplicidade e o movimento tam bém precisam
ser realidade, pois o pensamento racional é móvel, e em verdade um
movimento entre conceitos, logo entre uma quantidade de realidade”
(p. 153).
Ele aduz, como um segundo
argumento relevante, o
seguinte: “se dos sentidos vem apenas engano e aparência, e se em
verdade existe apenas a identidade real entre ser e pensamento, então
o que são os próprios sentidos?”, ou
“se os próprios sentidos são aparência, para quem eles o são?”
Essas formas de argumento ad homine
e ex concessis não
são aqui apenas falácias, pois se trata da condição do
pensamento. Vemos como é importante esse trecho, já que retira de
modo expresso o pensamento pré-socrático da esfera pura da física.
A lógica parmenídica é um
julgamento sobre o homem, como capaz, pelo pensamento, de transcender
a condição humana e alcançar a divina.
Aubenque
ecoa essa
fórmula ainda que sem
citá-la , como aquilo que
teria sido a
hybris da filosofia, e o
motivo pelo qual a centralidade da “gnome” na mentalidade grega
resultou em conflitos contra ela, assim
como em prescrições proibitivas de certos estudos como o dos
astros.
Aubenque
situa a
gnome como sabedoria
ética ou correção do
juízo prático, na
problemática que cerca a semântica da phrônesis.
A esta ele tangencia por meio
do cotejo de expressões hauridas da dramaturgia e outros textos,
em termos de limitação.
Aubenque
ressalta que inversamente a outros vocábulos mais antigos, este não
sofreu cisão na evolução até a era filosófica, de
modo a cindirem-se os usos teórico e corrente. Se a phrônesis
é “prudência” mas na acepção de “pensamento”, e
por isso ela é ligada tanto ao juízo ou gnome
quanto à eubulia ou
“boa deliberação” de que se espera que o bom juízo sobrevenha,
mais do que autoconhecimento,
na mentalidade grega corrente
ao homem enquanto
(bem)-pensante
caberia o auto-limitar-se,
por saber apenas não saber, não ser igual a deus. E
Sócrates teria sido exemplar quanto a isso ainda que enquanto
partidário da gnose, a
ciência bruta que desrespeita os limites da ignorância geral por
supor justificado impor-se sobre tudo mais,
também culpado de impiedade.
O
que Aristóteles justamente evitou, segundo
Aubenque, para contudo elevar
a limitação da gnome a um estatuto verdadeiramente filosófico.
Isto
é, demonstrado ele mesmo o
limite do pensar, num mundo que por
sua vez a ontologia
aristotélica já havia formulado inacabado, em
devir, como vimos devido
à distância que separa a terra da altura inexcedível em que mora
Deus.
Assim
a filosofia de Aristóteles,
segundo Aubenque, constituiu
apenas duas
quase-ciências, e de forma
alguma deu por demonstrada como legítima a “episteme”.
Uma ciência
procurada, a ontologia como ciência do ser enquanto ser, mas
não ciência acabada, isto
é, de todo possível, devido
à impossibilidade de ultrapassar-se a cisão de essência e
existência neste mundo. O
limite da ciência aí é a assunção filosófica da contingência
(op. cit. p. 272).
E
uma ciência não procurável, inincontrável, a ética, onde o
limite é a gnome e a
gnose é impossível (p. 159).
Aristóteles
está dentro da filosofia quando supera o preconceito popular que
institui a própria semântica da phrônesis
como pensamento disposto
de certo modo, amorosamente,
ou atenciosamente, em todo caso não
apenas pensamento intelectivo puro, e
enquanto limite ético, antrópina phronein,
isto é, disposto a pensar humanamente,
limitado pelo desconhecimento constitutivo nosso. Ele
supera portanto o pleonasmo do pensar humano,
já que para ele a ciência é saber certo e indubitável, assim
independente do sujeito epistêmico ser homem ou deus. Mas na
ontologia, como vimos,
conforme Aubenque
Aristóteles coloca esse
ideal como ideia reguladora, e não objetivo atingível.
À
frente retomaremos a
demonstração, visando as
consequências dessa ultrapassagem na formulação da ética
aristotélica. Aqui é
oportuno observar que se a noção de ideia reguladora – como
Deus, o Mundo
e Eu,
em si um
produto fictício da razão extrapolando seus limites, mas
operante como horizonte que
faculta o pensar regulado – provém
de Kant, em Aristóteles a expressão que condensa a mesma
operosidade é conforme Aubenque o aristotélico “ós endekhetai”
- “tanto quanto possível” (p.
269, 273, 275). O
que equivale expressamente ao “è dynantain”, ou seja,
potencialmente (p. 275).
Vemos
pois, a potência retornar na ética, onde Aristóteles havia
provisto apenas o ato. Nesse
estatuto ético, estreitamente
ligado porém ao ontológico por essa estranha aproximação que
funda a total irredutibilidade dos dois domínios disciplinares,
Aubenque esclarece a
semântica da potência aristotélica como semelhança,
imitação ou contemplação - do ato que só se cumpre em Deus,
isto
é, o ato de saber.
Nietzsche
estabeleceu o problema posto pelo ser parmenídico, pois, numa
reposição do contexto pré-socrático. Há agora uma unidade da
intuição pré-parmenídica, que une Anaximandro e Heráclito,
porque ambos suspeitaram igualmente da “perfeita separação entre
um mundo que apenas é e um mundo que apenas vem a ser”. Se a
suspeita contra a “ordem
dupla do mundo” conduziu
a respostas contrárias, como condenação do devir ou como negação
do ser, o problema era o mesmo (p.
146). E depois, Parmênides
mudou radicalmente o
próprio contexto
problemático. Mas
aqui, para mostrar como Parmênides o fez, Nietzsche inicia a leitura
do “poema” antigo por uma via algo surpreendente. É em que
torna-se vitalmente tangencial à análise de Jean Beauffret.
Como
Beauffret tratou exemplarmene, há um problema de exegesa na leitura
do Poema de Parmênides. Ele começa de modo muito belo, com o
narrador sendo conduzido airosamente
até a morada encantadora da deusa que lhe revela com palavras
amigáveis, de terna elegância verdadeiramente clássica que
desmente o estatuto “primitivo” dos
primeiros pensadores, a verdade. Porém o poema não se detem na
revelação de que o ser é e o ser não é, nem na exortação de
que além dessa verdade nada deve ser aceito ou
empreendido. Ele prossegue enquanto a deusa julga necessário que o
seu fiel também seja informado do que não é – isto que
justamente havia sido proibido a ele , como
a qualquer um, conhecer ou empreender, e proibido num sentido lógico
de impossível, não
apenas num sentido prescritivo.
Ao
expor a via da opinião, como do não ser que se opõem à do saber
enquanto a do
ser, a deusa da verdade empreende pois enunciar as palavras
enganosas que agora, contudo, faz-se necessário ouvir. Então o
problema de exegese é como situar a doutrina exposta como falsa, que
preenche a segunda e maior
parte do longo poema.
Nietzsche, ao
contrário, começa a interpretação por esta parte, considerando-a
como o início da reflexão parmenídica, o problema do qual
Parmênides fez a doutrina do ser a solução.
Anotando primeiro
a solução de Nietzsche, Beauffret mostra assim que as palavras da
opinião seriam reminiscência, correspondendo ao que teria sido a
antiga doutrina de Parmênides, aquela da época em que ele era, ao
ver dele mesmo já quando maduro filósofo do Ser, a criança
vigorosa e bem constituída da plena juventude. Beauffret em seguida
anota as variantes. Para Zeller, Wilamowitz e Gomperz, trata-se de um
raciocínio por hipótese. Parmênides não podia expulsar do
universo o que sabia ser a opinião do senso comum, assim como a
aparência imediata, e tratou-a pois como ser fosse verdadeira para
mostrar, contudo, que maugrado tudo isso de fato não era. Para Diels
e Burnet, trata-se inversamente, de uma intenção polêmica, pela
qual Parmênides quis refutar uma doutrina considerada por ele
inteiramente falsa. Reinhardt, saudado por Heidegger como o
solucionador desse enigma, conciliou as duas teses precedentes, porém
não é o que o próprio Beauffret tem em mente como adequado.
Assim ele
tangencia de modo irônico o heideggerianismo, pois aproxima
Heidegger não de Reinhardt, que embora não de todo errado não
teria chegado ao ponto, mas sim deste ponto que para Beauffret, é a
doutrina kantiana do transcendental. As palavras da opinião, segundo
Beauffret, não importa a Parmênides se não são verdadeiras, o que
está sendo explicado pelo poema não é a verdade do que elas
poderiam querer saber, o estofo e consititutivo das coisas enquanto
eles mesmos coisas. Mas sim a verdade da qual qualquer enunciado,
verdadeiro ou falso, provém em sua intenção constitutiva, a saber,
a identidade do atribuído na atribuição.
Uma conclusão
bastante aristotélica, como poderíamos notar, porém neste presente
estudo estamos justamente descobrindo quanto se tornou perigoso hoje
em dia julgar apressadamente o qualificativo. Assim, o que não é
heideggeriano e sim metafísico, seria julgar que a identidade é
sempre apenas a tautologia fora da história, e, portanto, fora do
Homem como o entende Heidegger – o que creio ter ele mesmo
enunciado na carta a Jean Beauffret.
Realmente Kant não
chegou a esse aporte que se inicia propriamente como pós-kantismo.
Mas, o que deveremos examinar à frente, o próprio Heidegger manteve
com Aristóteles uma relação transformadora do ponto de vista da
tradição, visando-o como pensador do Homem. Em todo caso, a
ambiguidade que Beauffret localizou na espessura que Heidegger
pretendeu de si relativamente a Kant, se torna assim menor do que o
inteiro problema da metafísica na reposição do heideggerismo.
Ora, em todo caso,
Beauffret chega a uma conclusão perfeitamente inversa à de
Nietzsche, isto é, de um Parmênides que não funda a metafísica
antiga, a fantasia, embora suposta lógica, de um acesso direto à
coisa em si, mas sim o transcendental kantiano, o subjetivismo
moderno.
Beauffret não se
detem na forma inusitada pela qual Nietzsche inverteu a ordem da
precedência entre as palavras da verdade e da opinião, começando
pelas últimas. Visando a essa motivação, temos a consideração
pela qual ao ver de Nietzsche, Parmênides não apenas considerou
inicialmente, na juventude, o problema do vir a ser e dos contrários,
que ele aí tangencia em termos da oposição de sombra e luz,
para depois resolvê-lo de alguma forma original. Entre as
palavras da verdade e da opinião, há um fosso tão intransponível
quanto entre as duas idades do pensamento pré-socrático ou grego em
geral, cindido pelo advento parmenídico da lógica como via
filosófica.
Não que a intenção
de resolver não tivesse ocorrido, e muito pelo desgosto de ter
encontrado Heráclito, que para Parmênides resumia o preconceito e
irreflexão da massa – ao contrário do que Nietzsche dizia antes
do próprio Heráclito como altivo desafiador da aparência comum da
fixidez.
Para esse
problema do vir a ser e dos contrários que se alternam, Parmênides
tivera segundo Nietzsche uma tão grande rejeição que só
mergulhando “no banho frio de suas abstrações” ele superou a
consternação e exprimiu a sua concepção totalmente independente.
Nietzsche não suspeita da possibilidade de pastiche dos poemas
filosóficos alternativos, mas parece considerar que a extravagante
doutrina exposta como enganosa pela deusa de Parmênides, a teoria da
mistura dos contrários, é realmente uma doutrina de princípio de
carreira, enunciando o poder de Vênus em unir o que é contraditório
como ser e não-ser. A solução original do problema herdado por
Parmênides consistiria portanto, para Nietzsche, em ter ele arrolado
todos os opostos de um certo tipo como ser, e seus contrários como
não-ser.
Mas como isso o
desgostava, as abstrações que o consolavam o conduziram até a
convicção de não ser possível que do ser se diga que não é,
assim como que alguma vez foi ou será, sem sempre ser. Mas não é
aí que reside a medula do pensamento parmenídico. E sim, conforme
Nietzsche, só “agora”, munido dessse antídoto contra o crime
anti-lógico, “Parmênides voltava seu olhar ao mundo do
vir-a-ser, cuja existência ele antes tinha procurado compreender
através de combinações tão engenhosas, ele zangava-se com os seus
olhos por verem o v ir-a-ser e com os seus o ouvidos por ouvi-lo. Seu
imperativo agora era: 'não siga os olhos estúpidos, não siga o
ouvido ruidoso ou a língua, mas examine tudo somente com a força do
pensamento.”
Contra a dedução
do pensamento parmenídico, Nietzsche se coloca mais ainda contra o
própria via lógica do acesso ao pensar. Porém nesse ponto cabe
indagar da ambiguidade desse encaminhamento. Como Nietzsche poderia
conciliar o aporte empirista do penso = respiro, com o transcendental
kantiano que é como sabemos, absolutamene não condicionado?
O meio-termo
nietzschiano é claramente expresso. Trata-se da experiência, como o
limite do entendimento, além do qual a razão deixa de ser
validamente exercida. Sem conteúdo, a proposição sobre o ser não
tem validez. O ser é apenas relação entre um antecedente e
um consequente proposicionados.
Mas sabemos também
que Kant ordenou o conteúdo possível do entendimento em termos de
categorias lógicas, embora transcendentais, como substância,
quantidade, causalidade, etc. É a apreensão mesma do conteúdo que
se torna em Kant lógico-categorial e só assim pode-se segundo ele
afirmar estar havendo algo como "experiência" e não
simplesmente o caos ou nada. Ao invés, amparando-se expressamente em
Kant, Nietzsche apenas conservou o criticismo como pronunciamento
sobre os limites da razão, digamos, abstrata, desprezando a parte
que conduz aos conceitos do entendimento enquanto o concreto. Isso é
tão nítido que ele, chegando a pressentir a lacuna, escreve que se
"a verdade lógica daquela oosição entre o ser e não-ser é
completamente vazia, se não pode ser dado o objeto subjacente, se
não pode ser dado a intuição através da qual esta oposição é
deduzida por abstração; sem este retorno à intuição, ela é
apenas um jogo com abstrações através do qual nada é conhecido de
fato".
A ambiguidade
aqui reside entre abstrair e intuir. A abstração é bem mais um
conceito gnoseológico aristotélico do que kantiano, já que neste
último não se trata de abstrair como operação unívoca que a
partir da semelhança captada pelos sentidos entre vários exemplares
de uma espécie, atinge o universal como a própria. E sim do intuir
regrado já tanto pelas categorias do entendimento quanto, primeiro,
pelo apriorismo da percepção sensível. Aristóteles não explica
realmente como é que os exemplares individuais da espécie já são
vistos como os mesmos antes de serem conforme ele deduzidos como
todos o mesmo da espécie. A razão disso é que Aristóteles não
tem por objeto o pensamento, mas sim este apenas como um meio para
provar a realidade das coisas em si.
Heidegger é de
fato algo ambíguo a propósito. Ele tirou mais do que ninguém as
consequências da defasagem antiga, a limitação às coisas, como ao
ser nesse sentido substancial que se opõe ao pensar, de modo que
onde o que Nietzsche designou a via lógica quis identificar a ambos,
sempre sacrificou o pensar ao ser como um meio e não como um fim.
Heidegger considera
Nietzsche e também Marx, como metafísicos, se bem que a contrario,
na acepção desse mesmo limite, mas também a Descartes e Kant,
assim como anotou na carta a Jean Beauffret intitulada "sobre o
humanismo". A filosofia, mesmo quando torna-se criticismo
moderno, ainda "pensa, partindo do ente e para ele se dirigindo,
na passagem através de um olhar para o ser."
Ela tem que fazer
assim, pois "na luz do ser está situado cada ponto de partida
do ente e cada retorno a ele", porém enquanto metafísica,
"somente conhece a clareira do ser, ou desde o olhar que nos
lança aquilo que se presenta no 'aspecto' (idéia) ou criticamente,
como o visado da perspectiva de representar categorial por parte da
subjetividade". Mas que a verdade do ser seja essa "clareira",
isto é, o já estar dado das coisas (entes / sendos ) enquanto
coisas, isso "permanece oculto para a Metafísica" que
procede ao invés não vendo qualquer problemática envolvida no
como do estar dado das coisas elas mesmas, como se não fosse o
estar dado o problema em si. (Pensadores, "heidegger", p.
158)
Por outro lado, o
modo como Heidegger lança a problemática, na diferença historial,
patriotismo ou vazia apatridade, etc., não está isento de
questionamento como veleidade de ter atingido o limite do pensar/ser
enquanto a instância da qual brota a heterogeneidade, como devemos
examinar à frente. Aqui seria bastante considerar que justamente é
a circunscrição absoluta da variação historial em torno do "ser"
, isto é, atribuição unívoca cuja diferença tem então que
restar fora de si mesma como no "esquecimento", que parece
explicar o que justifica questionamentos posteriores, assim como o
que aqui endereçamos.
Mas quanto à
questão mesma do pensar, na eclosão da modernidade, reside como se
sabe, na gênese categorial. O empirismo não ignora, desde Hume
expressamente, que a realidade só pode ser acessível pelo espírito,
e esse enunciado é de fato empirista. O racionalismo parte daí,
porém para ripostar, restaurando a metafísica, que as leis do
espírito são inatas.
O empirismo,
limitando a e estas leis o real cosgnoscível, havia afirmado a
dependência dos nossos processos pensantes às nossas condições
vitais em meio às coisas. Assim ele as descobriu como tais. Ao invés
dos dados sensíveis serem imediatamente dotados de sentido, eles são
apenas a matéria que o espírito elabora e da qual realiza o
significado. Já desde Locke ou mesmo Hobbes, o processo de dotação
de significado a partir da matéria básica foi interpretado em
termos de formação de ideias, o que posteriormente o Iluminismo
designou "ideologia".
O inatismo de
Descartes em diante, não tem que explicar o processo formativo,
porém assim restou lacunar quanto à razão do que definiu como
inato. Para passar das hipóteses da loucura e do sonho - aqui
considero ao invés de Derrida que são duas, não uma só hipótese
- quanto ao que a razão inata produz, à validação do saber assim
produzido, Descartes recorreu em grandes linhas a Deus. Mas também à
identidade do Soi pensante. Ora, a identidade ela mesma
repete-se assim, entre o por demonstrar e a mola da demonstração.
E de fato, o que é constante na demonstração cartesiana enquanto
Cogito, é o conteúdo (= 'penso'), tão "fato de razão"
quanto qualquer outro. Para atingir o ser pensante que "sou"
teria que haver um terceiro termo, que só poderia ser demonstrado em
função de um novo conteúdo, e assim ao infinito.
Concordo inteiramente
com Hans Albert, quanto à sua proposição de que qualquer
demonstração transcendental cai sob a limitação tripartite de ser
uma petição de princípio, ou algo interrompido pela metade, ou um
regresso ao infinito.
A objeção
"performativa" de Apel, de que Albert enuncia assim nada
outro que um transcendental, creio inviabilizada quanto à veleidade
de justificar o transcendental como demonstrado condição sine qua
non da linguagem, por uma limitação subjacente às enunciadas, qual
seja que não se poderia decidir qual transcendental é justificado,
já que seu enunciado é sempre restrito a uma filofofia e diferente
dos outros. Assim a "contradição performativa" atribuída
a Albert só teria sentido se considerássemos a própria linguagem
como um transcendental, como faz Apel, mas há outros, e o problema
permanece - ou ainda, acusar aí uma ambiguidade do próprio Apel,
se considerarmos que se trata de uma contradição lógico-formal.
Mas vemos que se o
inatismo justifica o mundo conhecido quando pretende ter justificado
a razão que conhece, e o empirismo põe o mundo entre parêntesis
porque só pretende ter justificado a coerência do conhecimento, o
motivo pelo qual o século XX pensante foi tão contrário ao
empirismo é que as "ideologias" que se sucederam desde o
séc. XVII, foram uma a uma refutadas por novos conhecimentos
objetivos sobre nossas faculdades psíquicas. Em inícios do século
XX houve uma grande transformação porque o esquema básico a todas
elas, estabilizado como "associacionismo", a sucessão de
captação dos dados sensíveis desde o mais simples, formação de
imagem e formação de ideia, foi refutado por demonstração
laboratorial. Não obstante, como epistemologia científica o
empirismo continuou sendo importante, e de fato o modo mesmo da
refutação foi experimental. Concentrou-se pois a metodologia
empirista, abandonando a explicação "ideológica", na
premissa de que todo conhecimento válido é experimental-científico,
e que este é um conhecimento universal. A defesa das culturas
particulares como visões de mundo válidas por si mesmas, tornou-se
o contraponto teórico e polêmico do neoempirismo.
Em todo caso, a
carreira de Heidegger está muito ligada ao cenário de entusiasmo
entre meios inatistas ou contrários ao "atomismo" dos
dados, suscitado pela refutação do associacionismo, embora o que se
refutou foi apenas que imagens tenham que ser formadas entre a
sensação e a ideia, e não a perfeita independência "espiritual"
desta. Porém demonstrou-se ainda que o dado sensível ele mesmo não
corresponde integralmente ao objeto em si, mas que leis puramente
perceptivas intervem - eis o princípio do "desenho animado",
por exemplo.
Mais do que Husserl,
Heidegger se tornou importante nesse movimento contrário ao
empirismo, que tem na psicologia da Gestalt um ponto alto. Posto que
uma perspectiva da totalidade de um campo de valores semântico,
aquilo que vulgarmente se designa cultura, não estava no horizonte
neocartesiano de Husserl, ou ao menos não antes dele começar a
falar do Lebenswelt. Tudo o que o interessava sendo a demonstração
da universalidade a partir do inatismo.
Assim é algo
complicado atribuir a Heidegger simplesmente um inatismo tradicional.
Teríamos antes que incursionar pelo tema da consolidação da
metodologia "funcionalista" ou "compreensiva" em
ciências humanas - aqui não distingo entre ambos, como se faz por
vezes - para desenvolver essa questão com alguma chance maior de não
sermos precipitados. Como podemos notar, a própria Gestalt não
enuncia leis do "espírito", mas objetivas à percepção
como fenômeno independente, entre as coisas percebidas e o aparelho
percipiente, obtidas em laboratório e não por introspecção
reflexiva.
Almejando o
máximo de síntese, poderíamos afirmar que a harmonia
"compreensiva" entre estrutura totalizante e funções
elementares, quando se trata da cultura como referencial de alguma
sociedade, pressupõe articulações concretas entre as
possibilidades adaptativas dos seres humanos e a diferença do meio
local. O que resulta em termos de "espírito", como
atribuição humana de valores significativos, fica em questão,
desde a "ideologia" como reinterpretada por Marx em termos
de justificativas fantasiadas como puras, para práticas
experimentais e vitalmente interessadas, e algo que dependeria das
leis de formação do sentido, sejam semióticas, linguisticas,
lógicas ou ainda outras.
O conteúdo das
leis em si mesmas fica também em questão, quanto a serem algo
organicamente integrado num campo, como entendo Heidegger, ou fatores
dispersos conforme situações diversas. Ou, ainda, se a integração
é uma condição por si mesma ou devida a algo mais como instintos,
a libido, etc. A modernidade, como transferência ao pensar daquilo
que antes era problematizado como ser substancial, é apenas a
reinstauração das questões ontológicas ao modo de se do
pensamento, como se pensa e em que.
Vemos como a questão
do heideggerianismo, entre empirismo e inatismo é complicada, porém.
Um cômputo geral da questão nos forneceria o seguinte paradoxo. Por
um lado, o homem em Heidegger tem uma essência que é linguagem, e
esta é transcendental como atribuição do Ser ou simplesmente "o
Ser". Em A escritura e a Diferença, a defesa de Heidegger por
Derrida frente à subversão de Levinas em prol dos entes ou sendos,
como tudo que é histórico e em que a alteridade se presentifica,
mostra bem o caráter incondicionado do transcendental heideggeriano,
neutro frente a toda determinação. Porém por isso mesmo o seu
caráter estritamente complementar à existência dos sendos enquanto
sequer pensável. Não é tanto aí que reside o paradoxo, já que
essa espécie de oposição complementar do incondicionado e da
experiência condicionada estaria já na razão pura do kantismo,
como Derrida explorou devidamente, sendo a pedra de toque na
compreensão ajustada do conceito filosófico de transcendental. E
sim, por outro lado, porque a linguagem em Heidegger é hermenêutica,
indefinível na acepção de intotalizável a qualquer ciência ou
pensamento, por não poder haver um fora dela em que seria julgável.
Não há um fora da história.
A sua crítica ao
objetivismo de Marx - tendo Heidegger por "metafísica"
apenas e sempre essa atribuição redutora do dado à coisam ainda
que fosse na modernidade puramente "ideológico" -
constante da carta "sobre o humanismo", coexiste com a
assunção por ele de que é "possível um diálogo produtivo
com o marxismo". O qualificativo "produtivo" aqui é
importante, porque o diálogo não é requerido apenas na decorrência
de não ter havido - nesse ponto, Heidegger critica tanto a Husserl
quanto a Sartre por não terem se mostrado capazes de o apresentar.
Afirmando que a
'apatridade' como esquecimento da totalidade semântica enquanto
diferença historial em vez de ser-assim da universalidade
lógica-formal, corresponde plenamente ao conceito marxiano de
"alienação", Heidegger enuncia enigmaticamente também
que o materialismo não deve ser atingido por pretensões mesquinhas
de desqualificá-lo. Ao contrário, ele é "determinação
metafísica" do trabalho como aquilo em função de que todo
ente aparece como material, ao invés da asunção ingênua de que
tudo é matéria.
A relação entre
técnica e metafísica é então nesse trecho nem apenas o núcleo do
habitualmente criticado por Heidegger como a fantasia cientificista
de ser algo novo quando reduz todo conteúdo do conhecimento à coisa
como objeto de experiência - por isso "técnica" não
é o correlato etmológico da teckné greco-antiga; nem apenas
a inversão com que Heidegger nomeia essa fantasia, pela qual o
cientificismo nomeia "metafísica" ao que coloca como
cegueira dos tempos e barbárie anterior a si.
Ao que parece,
Heidegger enuncia aí, na palavrinha "metafísica", a
ontologia não-tradicional que ele mesmo descobriu como o aporte
propriamente humanístico segundo ele, o que desqualifica a todos os
outros aportes desse nome. Ou seja, a apreensão de que o homem
atribui Ser, mas de modo que a essência do homem, isso sobre
que ele não pode decidir diversamente, é essa atribuição. Porém
isso não é ao mesmo tempo uma demonstração que refuta o que
desqualifica. A própria metafísica, naquele sentido negativo que
habitualmente se associa à crítica heideggeriana da tradição "faz
parte... da história da verdade do ser", e, portanto, "néscia
é toda refutação no campo do pensar essencial. A disputa entre
pensadores é a 'disputa amorosa' da questão mesma".
Poderíamos ser
tentados a definir um relação simples de Nietzsche com o empirismo
dos instintos, e Heidegger com o inatismo da cultura atributiva de
significações, mas constatamos que muito restaria por se pensar. Em
todo caso, a meu ver o Nietzsche da época dos seus estudos gregos
reduziu Kant a um empirismo sistêmico, quando na verdade ele é um
inatista que equacionou a problemática da sensibilidade.
Ora, se sobre Marx
vimos que Heidegger é algo ambíguo, também ao pronunciar-se sobre
Heráclito concede agora razão a Nietzsche, por ter, "em suas
notas dos anos 1885/1886", escrito que "O ser - dele não
possuímos outra representação que a vida. - como pode algo morto
'ser'?" (op. cit. Os pensadores, "pré-socráticos",
p. 131).
Assim Heidegger
propõe que ao "tò mè dynón pote" do texto
original, com que Heráclito designou o que "jamais tem ocaso",
deva ser "facultado substituir" por "tó aeì phýon",
desde que se pense "phýsis a partir do velar-se e phýon
em sua função verbal". Heidegger justifica a interpretação,
lembrando nós que desde o início ele perseguia a unidade do que
devia ter sido o texto de que nos restaram apenas fragmentos, porque
há um deles, o 30, em que se registra o sintagma "aeízoon",
cujo significado é "o que vive sempre", sendo contudo
ausente a palavra "aeíphyon" em Heráclito.
Poderíamos aqui indagar
como o pensador do "ser para a morte" como o que, com ou
sem razão, Heidegger designa o Dasein, o ser humano da presença que
só se assume na possibilidade do que é ao abranger nesta a própria
finitude - como Kant já o havia feito de modo inaugural - conserva o
elogio do que aparenta uma oposição simples entre o que é ou não
animado? Ocorre que Heidegger não pensa de fato aí essa oposição.
E sim a partir do parentesco, não de "aeíphyon" que ele
defende como próprio ao contexto do fragmento 16, mas do "aeízoon",
com uma raiz que em grego nomeia "luz", o luzir em geral -
assim como o do fogo a que o fragmento 30 equipara o kosmos. Como
deveremos ver mais detidamente, o sentido de tudo que clareia e
revela, em Heidegger, põe por si mesmo a evocação do que oculta e
obscurece.
Na introdução à
metafísica, Heidegger deplora que Nietzche tenha sido vítima do
erro de opor Heidegger e Parmênides como pensadores do devir e do
ser. De fato, se a luz é o mesmo que o viver, é em sentido
essencial pelo que Heráclito enunciaria o mesmo que Parmênides. Não
o devir abstrato das coisas que se sucedem, mas sim a identidade
atributiva em que o ser do homem, também para si mesmo, é,
enunciado a seu ver por Parmênides - o que ele revela na carta a
Jean Beauffret. Não creio que ele tenha deixado aí ambígua as suas
relações com Kant, pois neste a revolução copernicana da
filosofia não chegou a este para-si e suas questões próprias.
Realmente poderíamos indagar de Nietzsche, que ele tenha criticado
tão duramente a primeira parte do poema de Parmênides, mas não
tenha equacionado de modo devido o sentido do Logos em Heráclito.
Mas vimos que
Heidegger não estava certo ao considerar Nietzsche um hegeliano que
conservou os pré-socráticos como pensadores da natureza longe da
humanidade, já que Nietzsche os tratou desde Anaximandro como
pensadores éticos, cuja questão é a justiça na existência.
Em todo caso,
juntando ou separando Nietzsche e Heidegger, poderíamos indagar
aqui: se assim não é, por que a physis? Por que a crítica do saber
dogmático da tradição, sem autocrítica, sem autodelimitação de
sua validez, crítica que com os pré-socráticos iniciou o que o
mundo recolheu como filosofia, não foi de saída a crítica
sofística da pretensão de conhecer justamente isto, a physis, como
o que poderia nomear também aquilo de que as teogonias faziam a
genealogia de modo poético, antropomorfizando princípios
inteligíveis como deuses e alegorias?
A propósito, é
interessante notar que Nietzsche até mesmo equiparou, sim, os
sofistas com os inícios da filosofia, mas fazendo-os remontar por
afinidade de estilo, à anterioridade dos pré-socráticos, e desse
modo antepô-los a estes. Anterioridade como tempos ainda incertos,
nos quais o misticismo não estava nem mesmo formalmente banido pela
exigencia da demonstração por argumentos.
É Xenófanes um
homem proverbialmente longevo e que antecedeu Parmênides na
enunciação monoteísta, de que Nietzsche faz uma figura de sofista,
isto é, segundo ele, de interventor na vida dos homens como místico
que os pretenderia curar e melhorar. Classificando-o de moralista,
mas na ambiência do século VI ac., considera que na época
clássica ele teria sido um sofista, quando na sua própria
conservou-se um rapsodo. O contraste nietzschiano entre Xenófanes e
Parmênides torna-se exemplar, como entre o místico e o lógico,
tipos que a vulgata histórica tornou característicos da cultura
grega de antes e depois do nascimento da filosofia tratado como
trânsito radical do mito à razão.
Para Nietzsche,
portanto, o que atribuiu de modo original como aporte ético na
problematização pré-socrática da physis não basta para
caracerizar a estes filósofos pioneiros moralistas. A posição de
Heidegger parece ser a mesma, com a ressalva de que para ele o
importante é reconstituir um conceito pré-socrático de "physis"
que na época clássica julgava já não se praticar. Este é um
avanço relativamente a Nietzsche. Se ambos pensam em termos de uma
mutação que opõe a metafísica e o exercício da filosofia que se
fazia até aí, Heidegger descobre também uma mudança histórica do
próprio campo semântico, tal que a physis veio a ter um significado
oponível, como "natureza", a outros tipos de fenômenos.
Mas podemos questionar a ilação, a partir da unidade semântica do
termo de eleição dos pré-socráticos, a unidade do próprio
pensamento filosófico.
Quando
Heidegger fala em termos de "disputa amorosa", ele reproduz
na verdade sem o citar o polêmico preceito dos sofistas de que
refutação é impossível, o que até hoje é matéria de
controvérsias sobre o que teria realmente significado ou até mesmo
se significava a mesma coisa para todos os sofistas que o repetiam.
De modo nenhum podemos associar os pré-socráticos a esse preceito.
Pelo contrário,
os fragmentos mostram que cada um deles estavam ativamente
interessados em refutar teses contrárias à sua, e a renúncia
sofística a uma ciência da physis tem nesse fato um apoio
explícito, já que o tempo havia passado, mas as teses se sucedendo
por mais de um século não mostravam qualquer meio de viabilizar
esse objetivo.
Assim os sofistas
do século V ac. não só enunciaram o princípio negativo e
puramente retórico da impossibilidade da refutação na linguagem,
enquanto aquilo a que se limitaram a ser, professores de retórica,
mestres retores. Mas também um conceito novo, o de Doxa ou "opinião"
subjetiva como o limite da validez dos enunciados.
Se o significado de
"subjetivo" greco-antigo difere muito do que hoje
consideraríamos realmente assim, ou se pode ser considerado raiz da
modernidade, em todo caso sabemos que não houve uma teoria do
sujeito antiga, e que o subjetivo era então em muito condicional - o
indivíduo exemplar da espécie, o que varia é apenas enquanto
contingência desta. Uma pessoa sã sente o leite doce, enquanto o
doente o sente amargo, etc. Em todo caso, a subsequente revolta
socrática e platônica contra a sofística reviveu a ambição
pré-socrática de fornecer um saber seguro sobre o cosmos, e foi
Platão que introduziu o vocábulo Episteme, em grego "ciência",
como conhecimento universal e o contrário da Doxa variável.
Porém é mais
provável que o conceito de Episteme estivesse subjacente à intenção
dos textos pré-socráticos do que a posição sofística na qual a
interpretação é o que varia, não em termos de algo suplementar,
mas sim originário da condição humana. O objetivo dessa ciência
antiga não eram leis regendo fatos definidos, mas a totalidade do
existente, o cosmos ou a physis nessa acepção, e somente se
considerava possível compreender os fatos como derivados da
compreensão do todo.
Vemos que Aristóteles
seguiu Platão nessa oposição em prol da Episteme, porém conforme
Aubenque ressalta, não sendo totalmente platônico nisso, e evitando
a derivação direta do saber de tipo matemático ou físico aos
contextos político, ético e estético, humanísticos. Contudo o
complicado, como estamos visando neste estudo, é que Aristóteles
não restaurou simplesmente, quanto a estes últimos, a
heterogeneidade da opinião produtora ao invés da physis, do "nomos"
ou lei convencional humana.
A ausência de ciência
humanística não significava para Aristóteles o limite retórico da
civilização. E se pudesse parecer mais associável Nietzsche à
Doxa, do que Heidegger, o fato é que ambos instituem limites de modo
a convergirem singularmente com aspectos importantes do
aristotelismo, conforme o escopo deste estudo tangenciar.
Com relação à
estimativa dos estudos pré-socráticos, o avanço heideggeriano,
enunciando ou não a verdade sobre a intenção do movimento, evitou
a aporia nietzschiana da "justiça una" ou "legalidade"
como fundamento do pensamento heraclítico do devir. De fato não se
compreende bem em que ela consiste. Se é a igualdade como direito de
tudo (cada um dos sendos) que existe a existir, teria que ser apenas
ética, humanística como em Locke, ou o devir seria finito. Pois o
problema em si é que os sendos se sucedem como o não-ser ao ser, e,
além disso, não parece que os gregos pensassem em termos de
abertura histórica. O número de fenômenos devia ser limitado se a
natureza fosse ordenada - como pelos gêneros biológicos em
Aristóteles. E já o pensamento pré-aristotélico dos fenômenos em
termos de physis colocava a questão do lugar e do tempo onde estão
contidos.
Mesmo se o todo
fosse pensável eterno, isso não implica necessariamente a
continuidade indefinida, mas o caráter cíclico do que vem e vai.
Heráclito mesmo pensava em termos de conflagração universal ou
grande ano, quando o cosmos cessa de existir ainda que para recomeçar
a existir do mesmo modo que é. Há considerável polêmica sobre
como Heráclito pensava o ciclo, por exemplo, em que ordem dos
fenômenos eles recomeçariam, progressiva ou regressiva.
Heidegger evita a
aporia ao transpor o pensamento pré-socrático à semântica da
Aletheia, em grego "verdade", como etmologia do des-ocultar
- a-lethés. A oposição não é de ser ou não-ser como de
existência ou nada, de modo que nada do que vem a ser simplesmente
surge do não-ser. Mas sim entre o manifestar e o ocultar, de modo
que algo que vem a ser como verdade atribuível apenas
desentranha-se, e o que não se pode atribuir está apenas oculto,
entranhado. Não há o novo, mas o que já está sempre aí como
possível, e o cosmos não se limita ao efetivo nessa acepção.
Mesmo que muito
tenha sido contestada a tradução de Heidegger da palavra grega, é
interessante notar a semelhança do que ele hauriu com o conhecido
preceito do Eclesiastes 1, 9, segundo o que "não há nada de
novo sob o sol". Pois como se sabe, o livro do Eclesiastes
testemunha a influência grega na cultura hebraica. Já a crítica de
Heidegger a Kant, em seu escrito "A tese de Kant sobre o ser",
demarca justamente neste o sintoma da oposição modal de possível e
real subjancente ao tratamento das questões de mundo e Ser. Portanto
oposição que para Heidegger não é sempre constatável desde as
origens da filosofia.
Em todo caso, é
nítido assim que o possível como real permanece
problemático, entre a cultura sempre diversificável, e os fenômenos
naturais que os pré-socráticos certamente tematizavam. E de fato há
aí uma tensão, entre a modernidade que Heidegger permite evocar em
termos dessa abertura hermenêutica-culturalista e o fechamento
característico das sociedades antigas. Por exemplo, em Heráclito,
que poderíamos tratar como relativismo absoluto de modo que a
caracterização dos contrários seria relativa a situações e não
generalizável - os asnos preferem a palha ao ouro, os porcos
preferem a lama a àgua limpa, ou seja, para eles uma coisa é a
outra - há um limite definido, pois Zeus sempre "sabe".
Certamente para
Nietzsche é básico ao seu heraclitismo, de que faz a base
filosófica do Zaratustra, que o devir temporalizado seja infinito.
Há aí algo extremamente importante. Como se sabe, e Mondolfo
reportou em seu "O infinito no pensamento da antiguidade
clássica", o romantismo inicia o período contemporâneo
justamente conceituando a cisão de grego (clássico) e cristão como
entre duas fontes culturais perfeitamente opostas pelo ideal estético
e existencial de finito e infinito.
Conforme W.
Schlegel em suas "Lições de Arte Dramática", o ideal
clássico seria da beleza plástica, feita de perfeição da medida e
do limite, e da serenidade olímpica da ordem imutável, que não
admite indeterminação.
O ideal cristão,
inversamente, seria o da alma que conhecendo a própria limitação,
anela porém pelo infinito que concebe pertencer só a Deus e aos por
ele eleitos para reinarem na segunda vinda - que nessa concepção
ninguém poderia antecipar quem será, não pelas obras. Compreende a
alma, pois, o anelo inatingível para os não-salvos, como a própria
finitude com que melancolicamente não se contenta. A beleza é
aquilo que suscita o anelo, porém quando deixa essa margem de
ocultação da completude, a sugestão de que não exaure a
expectativa, a lacuna entre o real e o ideal.
Essa caracterização
serve ao historicismo romanticista para valorizar o cristianismo como
religião que antecipa a descoberta moderna da história e da
cultura. A caracterização coloca como infinito e Inconsciente o
devir das culturas, possíveis na acepção de inantecipáveis, não
pré-formadas - e o consciente sendo a atualização da cultura na
experiência apenas subjetiva, assim situada (finita). Porém desse
modo a atualidade situada é histórica, variação na circunstância
do meio e de si, não havendo abstração do Eu singular na
hermenêutica como ciencia da interpretação à Schleiermacher, por
exemplo.
Ora, se desde
Lessing e Winckelman até Goethe e os Schlegel, essa concepção
sobre o classicismo tornou-se tão enraizada que o século XX ainda a
perpetuava como em F. W. Otto e mesmo em Jaeger, vemos que na origem
estava uma crítica romântico-cristã ao que seria uma incapacidade
do espírito grego para atingir o conceito de indeterminação,
especialmente a espiritual como subjetividade.
Crítica
nitidamente endereçada ao cientificismo iluminista, que não
conhecia a cultura além da ciência como uma realidade histórica,
tornando-se assim apenas perseguidor dos valores subjetivos. Podemos
notar como de fato a oposição se torna exemplar entre essas duas
vertentes, do saber científico e dos valores culturais. Mas
originada como foi, contra um cientificismo setescentista que o
próprio romanticismo transformava a partir da Evolução, tem até
hoje suscitado equívocos e becos-sem-saída evitáveis. Como podemos
notar, a posição historicista da cultura desde o Romantismo é na
verdade científica, a emergência mesma das "ciências humanas"
que fazem da cultura histórica e seus constituintes o seu objeto, e
não simplesmente "folk".
Ao contrário do
romanticismo, homens como Goethe a Jaeger ligados ao ideal da
estética classicista e lato sensu iluministas
- mas de fato já na imanência das ciências humanas, isto é, da
cultura historicizada - viam nessa limitação a verdadeira
compreensão da beleza como harmonia, da qual os gregos teriam
produzidos modelos estéticos e educativos realmente universais. Isto
é, imutáveis e normativos relativamente ao possivelmente
qualificado ao invés de "barbárie" desordenada e
insuficiente.
Seja como for, a
relativização da opinião sobre o classicismo como limitado ao
finito como à perfeição do dado, iniciou-se justamente com
Nietzsche, que descobriu o elemento dionisíaco na esfera estética
da grecidade, e com ele a percepção grega do que é conflituoso,
monstruoso e cruel na existência - numa palavra, o trágico que
epitomiza o teatro sério e religioso na Grécia pós-homérica. Algo
que correspondendo ao período formativo que antecede a democracia
ateniense em seu apogeu, não se deixaria fascinar pelo que neste
correspondeu à propaganda do regime.
Ao endossar essa
transformação, para dedicar alentado estudo ao conceito de infinito
ínsito a todos os pensadores gregos, mesmo que misturado a ideais de
clareza e perfeição, Mondolfo comenta que após Nietzsche
principiaram-se teses com intuito de desfazer o preconceito da
incompreensão estética e intelectual do infinito na Grécia Antiga.
Mas chegando-se apenas à distinção entre finito nas ciências
racionais e infinito na esfera do sentimento subjetivo, dos valores
humanísticos, se bem que mesmo naquelas os gregos não tivessem
desconhecido o infinitesimal matemático, e as intuições do
heliocentrismo e do universo ilimitado.
A Mondolfo, isto
que a nós pareceria concepção pré-aubenquiana, permaneceu tímido
esforço de superar o preconceito, superação que com Nietzsche já
teria sido consumada. Conforme ele, a influência de Nietzsche
tornou-se decisiva a propósito só desde a metade do século
passado. Porém Mondolfo mais concilia a beleza plástica e o ideal
da harmonia como gregas, com as intuições do disforme e do
incontrolável titânicos e dionisíacos que o pessimismo
nietzschiano desencavara na transformação pós-homérica, do que
propriamente reduz a Grécia pensante a elas. De fato a arte em
Nietzsche, e o papel de Dionísio, é transmutar o mal da existência
em beleza estética cênica - não porém sem estar esse conceito
eivado da descoberta kantiana do sublime, que Nietzsche epitomizou
como o "assombro afortunado" e o reportou ao sentimento
heraclíteo do devir. À frente deveremos confrontar os aspectos da
tese de Mondolfo relevantes à apreensão aubenquiana de Aristóteles.
Aqui devemos
sublinhar oportunamente que há sim algo de sintomático e infantil
na indiferença nietzschiana ao sofrimento que considera apenas como
matéria de espetáculo, de modo que o epíteto de "pessimismo"
se torna nele bastante ambíguo e diverso da coerência de um
Schopenhauer. Essa ambiguidade será porém generalizada na metade
inicial do século XX, como fermento revolucionário à exemplo de
Sorel.
Quanto a
Nietzsche, é evidente que tratou a questão como meio de sua
propaganda anti-cristã, o discurso de um neoclassicismo que votava o
amor e a piedade à mera pieguice hipócrita. Mas assim é
interessante que também colocou no mesmo rol a "justiça"
nesse sentido de legalidade que seria demonstrável em si como
direito igual dos seres à existencia, a igualdade deles nesta, ao
invés de apenas o que reflete o império instintivo da classe
senhorial - como se lê especialmente em "Genealogia da Moral",
"Vontade de Potência" e "O Anti-Cristo". Com
efeito parece contraditória a legalidade que ele vê em Heráclito,
ao que parece a igualdade dos contrários enquanto existentes, e a
desigualdade constitutiva do mais forte que ele prega entretanto como
decorrente de sua filosofia heraclítea do devir e contrário do que
seria uma ontologia socrática do Ser.
E se além de
infinito, para Nietzsche a legalidade do devir em Heráclito é
transcendental, como aquilo que vota algo dado como simples
transcendente a tudo mais, à insuficiência de um pensamento
primitivo, a seu ver o ser de Parmênides estaria nesta última
condição, o que é questionável.
A série de aporias
que os filósofos eleatas (parmenídicos) desde Zenão tem colocado,
especialmente a contradição entre o que é imóvel e o que se
estende a todas as partes, e em Melisso entre o incorpóreo e o
pleno, como todos estes atributos do todo, pode ser anulada como tal
pela compreensão deste em termos de inteligência. A qual apreende
não o que é parcial como cada um dos nossos sentidos, mas a
totalidade, por exemplo a infinitude.
Mas vimos que
Heidegger, elevando Parmênides ao transcendental, não se limitou a
tratá-lo como kantiano avant la lettre. Ao invés da
identidade ou atribuição do ser estar sendo posta pelo
homem, e reduzindo-se à lógica do atribuir, é ao homem que
a identidade vem encontrar ou dar-se, como o que ele recolhe na
existência. O aporte existencial e não somente lógico da
atribuição é o locus da irredutibilidade de Heidegger a Husserl, e
o móvel da reintrodução de Aristóteles por aquele. Sendo o que
examinaremos a seguir, aqui é importante repetir que em todo caso,
assim fica em questão porque o enunciado pré-socrático em geral é
sobre a Physis em vez de ser sobre o Homem.
Acima observamos que
Nietzsche situou Schopenhauer como o melhor tradutor do devir em
Heráclito, ainda que com intenção condenatória oposta à deste
pensador. Aqui podemos sublinhar que desse modo a aparente
contradição do exposto com aquela parte em que Nietzsche contrasta
Heráclito e Anaximandro porque este apenas criou a fantasia do Ser
indeterminado à parte do devir das determinaçõies múltiplas, se
esfuma.
O que não tem em si
determinação, como efetividade, deixa de ser o simples contrário
absoluto do determinado. Eleva-se ao transcendental da determinação
como possível determinável, sem subsistir à parte deste na
efetividade de algum modo sempre determinada. A positividade se
comunica a ambos os lados da oposição, e assim muda de sentido,
deixa de ser simples. Se Heráclito nega e Anaximandro afirma, o Ser,
esse enunciado significa o oposto do que aparenta. Pois Anaximandro
afirma o inefetivo e Heráclito a ontologia de tudo o que devém, mas
a intenção de enunciar um puro caráter ontológico, atingindo a
plenitude expressa em Parmênides, já estava prenunciada em
Anaximandro segundo Nietzsche, que considera indubitável a
convivência destes dois.
É inexcedível a
altura em que o texto de Nietzsche logrou situar-se, ao compor a
imagem do filósofo em geral e de Heráclito em particular. Aqui,
inclusive, ele antecipa a interpretação de Heidegger sobre a
filosofia dos pré-socráticos em termos unívocos de "grande
convicção" acerca da "unidade de todo vivente" (p.
110)
Porém resulta algo de
incompreensível a diferença de Heráclito, que ao inverso dos
outros, tira dessa lição apenas a verdade de que ela é o avesso da
crença popular, o sentimento de total segregação de si
relativamente à multidão. E assim a identificação absoluta do
Real com seu interior, sua subjetividade, o fora, os outros, sendo
apenas asquerosos erro e confusão, cometimento de injustiça pelo
desconhecimento de que ela pode ser apenas passageiro instanter na
realização da justiça inteiramente una que impera como vir a ser.
Com certeza podemos
aqui afirmar que Nietzsche manteve Heráclito na unidade do princípio
aristotélico da não-contradição, o enunciado de existência do
tribunal da razão. Se o que Heráclito expressou conforme Nietzsche
foi "a doutrina da lei no vir a ser e do jogo na necessidade",
essa descoberta "da presença de uma lei uniforme na natureza"
ele a supunha unicamente sua, legalidade que os outros, mesmo vivendo
em seu coração, desconheciam.
Os filósofos gregos
para Nietzsche foram intérpretes da unidade. Sócrates a viu como
lógica universal, e Pitágoras como identidade religiosa dos seres.
Esses tres tipos, Sócrates, Pitágoras e Heráclito, são de sábios
exemplares na história antiga. (p. 109)
O transcendental em
Heráclito é um ethos da dispersão que promana do saber do que é
absolutamente comum - o sujeito resulta da totalidade, paradoxo que
se expressa pelo grande orgulho do solitário de Éfeso, nietzschiano
tipo de Zaratustra morando em ermos altos de montanhas. Paradoxo
relativamente ao princípio subjetivista do saber transcendental, do
qual se deveia deduzir, ao inverso, que a totalidade resulta do
sujeito, este sendo quem enuncia a atribuição do "tudo é um".
Em vez de
incorporar o tipo como faz Nietzsche, Heidegger condlui que
"Heráclito não ensina nem o panteísmo, nem uma doutrina.
Enquanto pensador, dá apenas o que pensar" (p. 119). Porém a
meditação do fragmento 16, ressoa curiosamente com a questão que
levantamos. Pois se o que Nietzsche incorporou foi um modo de vida
oculto e solitário, ele mesmo reconheceu que havia outros igualmente
filosóficos, a inda que o atributo do filósofo corresponde sempre
ao mesmo da descoberta da unidade da efetivação.
Heidegger como que
continua Nietzsche ao incorporar o signo da ocultação na vida
filosófica, com objetivo expresso de recuperar o uso da palavra em
grego, e assim escapar do cila e caribde entre a veleidade da
interpretação única correta e a inconsistência de uma lisa
anódina das intepretações conhecidas. É muito espirituoso que o
motivo do texto subentenda a questão: como pode Heráclito, "o
obscuro" como o designa a tradição, tematizar neste fragmento
a impossibilidade da ocultação na decorrência de algo que jamais
se oculta?
Mas aqui
aparentemente temos uma regressão ao infinito. A pesquisa
heideggeriana da unidade do que existiu como o texto de Heráclito,
que reuniria os fragmentos, se torna a da unidade da língua grega,
que se torna a da expressão da unidade pensável na origem da
filosofia e do pensamento auto-reflexivo, que por sua vez é a da
unidade que funda apenas a divergência historial como unidades que
se decompõem mutuamente, ao infinito. Ou seja, o transcendental
heideggeriano se deixa prender pelo terceiro item do "trilema de
Munchhausen", que vimos acima ser enunciado por Albert. O nome
do trilema evoca o cômico barão da lenda, que entre outras
aventuras fantásticas tentava se alçar aos céus puxando-se pelos
próprios cabelos, a figura do que seria a veleidade do
transcendental.
Verifica-se pois
entre Nietzsche e Heidegger, de algum modo, regressão ao
transcendental conforme o colocou o kantismo, a saber, como condição
de possibilidade da experiência. Não obstante Nietzsche antepor
Parmênides à experiência como grave erro dos antigos, o que ele
visa como tal é expressamente o que o transcendental kantiano
condiciona. Deveríamos aqui ter em mente o que Kant mesmo antepôs.
Entre a experiência restrita ao empírico, e o transcendental, a
irredutibilidade é tão radical como entre os referentes subjetivos
de duas certidões de nascimento lavradas em cartório.
Essa regressão é
algo surpreendente. Como tal implica que houve um pós-kantismo, logo
algo que problematizou a condição como incondicionado. E então se
torna instigante entender por que aconteceu assim, uma regressão, ao
invés de um progresso contínuo. Mas o compreendemos justamente pelo
paralelismo com o aristotelismo, que é regressão similar na
filosofia antiga do devir. Aquela que progride desde Heráclito aos
sofistas.
Mas o paralelismo é
expressivo justamente da reversão histórica da democracia ao
Império. Algo que notamos hoje diversamente da história do século
XX, que habitualmente expõe quanto à modernidade apenas o progresso
do arcaico/feudal ao democrático/liberal.
Autores como Carpeaux
tematizam o burguês aristocrático que emergiu depois do Realismo em
diante, apagando a mentalidade igualitarista que fôra apenas o da
pequena burguesia na Revolução francesa. O estereótipo da
burguesia nobre posterior se generalizou, alcançando até os estudos
gregos, como em Bruno Snell que supõe a transformação imperial da
cultura, Calímaco relativamente a Eurípides ou mesmo Aristófanes
por exemplo, como o protótipo da mentalidade da burguesia
contemporânea europeia. Tenho investido esse tema como algo muito
mais importante do que apenas um paradoxo divertido sobre a classe
dominante na democracia. Algo cujo alcance antropológico atinge a
análise do discurso da própria "ciência do homem".
Mas neste ponto em
que estamos cabe manter o foco, apenas salientando que Nietzsche - o
inimigo radical de Eurípides - é a culminância na transformação
oitoscentista que estamos reportando, e Heidegger não pode ter
deixado de ampliar as consequências dela. Entre ambos a relação
poderia ser colocada como entre Aristóteles e os sábios das escolas
pós-socráticas helenísticas, como entre uma mentalidade de
transição quase-imperial e o império na plenitude.
Não que à época de
Nietzche a Alemanha fosse democrática, mas sim que cultivava ainda a
ideologia que o Reich podia emprestar de Hegel - se este não
houvesse sido atalhado pelos "jovens hegelianos",
materialistas subversivos do romantismo e realistas, dentre os quais
Marx - e que assim entronizou o velho Schelling como pensador
oficial. Ideologia que explica uma das ambiguidades da exegese de
Hegel sobre se a perfeita liberdade subjetiva que o Estado
contemporâneo realiza é a constituição ou o príncipe. Essa
ambiguidade, que em termos de regime era o que Nietzsche tanto
deplorava como a uma nobreza fraca, aburguesada, já não se poderia
manter em nível de regime após 1900, data da morte de Nietzche,
menos ainda após a primeira guerra. O império ideologicamente
fundado estabeleceu-se então, e é nele que Heidegger produz numa
fase decisiva de sua carreira, sem deixar de ter sido oficialmente
partidário do regime. Não devemos considerar que as conhecidas
distorções que a irmã de Nietzsche, casada com um oficial nazista,
imprimiu na edição da obra póstuma, abrangesse o elogio do
nacionalismo e do belicismo. A edição corrente de Vontade de
Potência não aponta reserva dos comentadores sobre os trechos
correspondentes a essa exortação, que soa porém curiosa pois num
contexto de exaltação a tudo o que conduz à independência da
pessoa, o que se choca não tanto com o nacionalismo como com o
belicismo.
Na verdade tanto
Nietzche quanto Aristóteles parecem idealizar o que almejam na sua
propaganda contra a democracia - em se tratando de Aristóteles,
nitidamente inferida, não obstante o seu grecismo ser mais polido
com a marca registrada de Atenas do que Sócrates e Platão o foram.
Um locus que pretendo
tangenciar oportunamene é a defasagem do que Aristóteles e Nietzche
idealizavam contra a democracia sofística, relativamente ao que
aconteceu depois. Assim o "saber de si" dos filósofos do
império, todo centrado na enformação ética e humanística, seria
interessante contrastar com o que Aristóteles antecipa mas não de
fato atinge. Aqui seria interessante lembrar a propósito da
idealização nietzschiana da nobreza, que ele não conseguiu
casar-se com Salomé, uma verdaderia aristocrata, não compreendendo
o vínculo do status dela com a dependência financeira ao
Estado, por exemplo. Registros textuais de Salomé revelam que as
maneiras dele a chocavam, especialmente pelo ciúme grosseiro.
Assim vemos que
Aristóteles é ruptura não expressiva daquela que enuncia a
emergência da metafísica como filosofia do Ser na amplitude da Idea
contrariamente à da Aletheia, e sim na trajetória da
filosofia do devir. Com efeito, Abbagnano diverge de Aubenque quanto
ao "devir" ou "vir a ser" em Aristóteles:
gignesthai em grego, o fieri latino, em ingles
becoming, o mesmo que o Werden alemão e o devenir
francês.
Enquanto Aubenque,
como verificamos, instala o Estagirista no âmago da percepção da
contingência, a concepção de Abbagnano pode se resumir na
proposição como segue: "Na verdade, o 'nada' de Hegel não é
muito diferente da 'privação' de Aristóteles: é, com efeito, um
nada privativo que, como a privação aristotélica, entra na
constituição do devir". Abbagnano tendo explicado que
Aristóteles distinguia o devir: a) do não-ser ao ser como o que vem a ser absolutamente (àplós); e b) do que vem a ser isto ou aquilo. Somente à substância cabe o primeiro sentido, as demais categorias cabendo o segundo, já que elas dependem do sujeito para serem referenciadas.
Aristóteles distinguia o devir: a) do não-ser ao ser como o que vem a ser absolutamente (àplós); e b) do que vem a ser isto ou aquilo. Somente à substância cabe o primeiro sentido, as demais categorias cabendo o segundo, já que elas dependem do sujeito para serem referenciadas.
Os princípios do
devir em Aristóteles são, por conseguinte, os opostos entre os
quais ocorre o devir, e a privação de um deles. Em sentido
absoluto, porém, não há privação na geração, já que nada pode
ser dito proveniente do nada. Só em sentido acidental ou relativo o
vir a ser procede como do ser desde o não-ser, "isto é, da
privação que é o termo do devir", conforme a citação de
Aristóteles por Abbagnano.
Em Hegel,
prossegue ele o raciocínio por meio da citação da Enciclopédia,
parágrafo 88: "O devir é a verdadeira expressão do resultado
de ser e nada, como unidade destes; não é só a unidade do ser e do
nada, mas é a inquientação em si". Da Lógica, extrai
a oposição hegeliana entre panteísmo e criacionismo, como entre
defesa eleática do princípio de que do nada nada se faz sendo
portanto o oposto do Ser, e defesa do devir que subentende o nada
componente conjunto ao Ser.
A meu ver essa
sobreposição de Hegel a Aristóteles resulta numa noção confusa.
Pois neste trata-se do princípio que Hegel designou eleático quanto
à substância, que não provém do não-ser, e, portanto, não
pertence à esfera do devir. A expressão de Aristóteles aí afirma
apenas a pluralidade das substâncias, já que sabemos que para ele
os gêneros substanciais são a própria existência incriada do ato
que subsiste eternamente em Deus. Se há vir a ser em sentido
absoluto, é apenas na perspectiva da matéria, mas assim justamente
o referente conceitual não é igual ao até aí pressuposto como
fluxo de variações desregradas, o contrário do objeto
cientificizável.
Em Hegel ocorre o
inverso desse fixismo, o que compreendemos pela transposição
evolucionista que afeta o conceito dos próprios gêneros de ser.
Aqui há mudança substancial como devir do espírito que sai de si
na exterioridade histórica e volta a si recolhido como saber. Ora,
enquanto pós-kantiano, a Hegel o devir importa como enunciado da
subjetividade do espírito, o saber é absoluto se é auto-situado
(na história). Ao invés do ambíguo subjetivismo do transcendental
kantiano a que faz apelo Nietzsche e de certo modo também Heidegger
quando reduz a diversidade existencial da cultura à ontologia da
atribuição.
Aqui o tópico é a
heterogeneidade da opinião, que na democracia sofística
problematiza a asserção aristotélica - nietzschiana e
heideggeriana - de que em todo caso o que há é atribuído a um
sujeito numa proposição, e se forem os contrários como em
Heráclito, resta a igualdade deles como atributos possíveis.
Aristóteles explicou o seu princípio de identidade justamente
ripostando ao sofista que ele atribui algo quando nega a esse
atribuído que seja idêntico a si, como Protágoras restringindo o
ser e o não-ser ao que parece a cada um.
Porém Aristóteles
não apreende aí o sentido da limitação sofística da semântica à
linguística, por isso mesmo sua inviabilização ontológica. O que
pensamos por um lado, e o que é por outro lado, justamente não
corresponde ao que a palavra veicula como existente correlato de
significado.
Que não corresponde
necessariamente ao que é, demonstrava o criticismo antigo por isso
que atribuir uma qualidade a algo não implica que essa qualidade
esteja nele, mas o contrário: o mel é doce, porém não é a
doçura. Há mais coisas doces e pode haver quem esteja na
circunstância de não o sentir doce. E que não corresponde ao que
pensamos, demonstra-se pelo fato de haverem paradoxos, aquilo que não
podemos conceber, e mentiras tais como a de Paris convencendo Helena
de que se deixar levar por ele seria algo bom para ela.
Gorgias arrolou mais
objeções, conforme o tratado do não-ser conservado por Sexto
Empírico, mas em geral o argumento criticista antigo, como dos
sofistas e céticos pirrônicos, era pois que a qualidade não está
no objeto, mas somente em quem a enuncia, porém assim não se
seguindo a prova ontológica do correlato enunciado. Já a
heterogeneidade dos enunciadores quanto a culturas e circunstâncias
era algo dado na experiência social da liberdade de expressão desde
a democracia. Na era imperial isso chega a algo curioso, pois para
Sexto há razão em condenar-se a retórica, que para os sofistas era
o instrumento mesmo da liberdade de opinião, se ela implica ao
contrário uma camisa de força estilística e a intenção de coagir
a opinião do ouvinte. Sexto repudia pois a opinião como limite da
liberdade expressiva, e o coloca na linguagem pathos eautós,
que testemunha apenas a sensação própria, de que ninguém pode
convencer alguém ser de modo diverso do que ele sente.
Ora, na
Metafísica Aristóteles passa por alto esse ponto ao ripostar
secamente apenas que não obedeceríamos ao médico que recomenda
comer pão, se não estivéssemos certos de que é pão, isto é,
"como se as coisas sensíveis não tivessem uma natureza fixa e
constante e se todas as naturezas se econtrassem em perpétuo
movimento e estado de fluxo", isto é, em devir conforme a noção
do termo até então utilizada. (met. IX, 1063a)
Aqui vemos que a
oposição entre o que é por natureza ou por arte humana não
importa ao argumento, e a heterogeneidade da experiência é
frontalmente negada. Além disso, a oposição entre pragmática e
semântica, que era o principal da retórica sofística, se torna
apenas inviabilizada ao pensar.
Aristóteles critica
a opinião de Protágoras sobre a matéria estar sempre em variação
de sua quantidade, argumentando que se fosse assim também teria que
estar quanto à qualidade. A negação da heterogeneidade na
sensação é do mesmo modo explícita: "Mas atender igualmente
às opiniões e fantasias das partes disputantes seria infantil, pois
é evidente que uma delas deve estar enganada", Aristóteles
ajuntando que a mesma coisa não pode ser doce para alguns e o
contrário de doce para outros, "salvo se houver lesão ou
perversão do órgão sensorial que distingue esses sabores".
De fato há algumas
constantes na psicologia da percepção atualmente em uso, porém com
descobertas que surpreenderiam expectativas consolidadas - como
quando se demonstrou que nem todas as regiões da pele captam as
mesmas sensações, e outras singularidades similares. Em todo caso,
concede-se que existe considerável margem de variação subjetiva
quanto ao resultado percebido. Também há ambiguidades resultantes
das próprias leis de percepção. Aristóteles não estava apenas
defasado por uma ciência "antiga" apenas por isso. De fato
o devir pré-socrático implicava transformismo, como até mesmo o de
Xenófanes para quem materialmente tudo viera do mar e as
transformações deste resultavam na existência da terra e dos seres
vivos. A esse tipo de raciocínio, ele ripostava que se algo viesse
de outro, ou conforme Anaxágoras, que tudo é parte de tudo, nada
seria doce ou amargo, posto que a presença concomitante estaria
sendo pensada em ato e não apenas potencialmente.
Sua opção
metafísica radical pelo fixismo já não deveria assim ser explicada
como alguns reducionistas tem feito, como derivada da suas
observações científico-naturais dos organismos, limitadas pela
visibilidade a olho nu. Ela parece mais coerente com sua intuição
filosófica da irredutibilidade do substancial e do acidental, sobre
que insistiu nesse trecho, deste não podendo haver qualquer ciência.
O modo como ele o
pensava predispunha ao resultado, pois pelo exemplo da arquitetura
vemos que ele não supunha que mudanças estruturais poderiam ligar
alterações significativas de soluções e estilos, perfazendo uma
história, mas sim que seria impossível a um arquiteto ocupar-se
ainda do destino das pessoas que iriam habitar a casa que ele
construísse, como se elas seriam felizes habitando-a. Era esse
destino o acidental relativamente ao substancial, o referente do
conhecimento do que é elementar na construção de casas.
Ele negava aí
que o infinito pudesse existir em ato, nisso sim defasado
relativamente à matemática moderna de Cantor, como à teoria dos
conjuntos. Não admitia Aristóteles que um designado "infinito
atual" pudesse ele mesmo ser divisível "pois forçosamente
será uma quantidade indeterminada". Na transição ao século
XX, Josiah Royce utilizou-se da teoria dos conjuntos para conceituar
o universo justamente nessa terminologia do "infinito atual"
divisível. O universo seria um conjunto numérico infinito, cujas
representações infinitas seriam cada um subconjunto infinito dele.
Uma representação ou subconjunto deveria ser como um mapa do
universo, tão preciso como o seria um mapa da Inglaterra, feito
neste país, em que estivesse contida a representação do próprio
mapa que nele está.
Insistindo em nosso
paralelismo, temos que assim como o pós-kantismo enunciou a
heterogeneidade do Eu, também o criticismo antigo, sofístico ou
pirrônico, armava-se pelo princípio da heterogeneidade dos sujeitos
pragmáticos da enunciação - mesmo que não tivessem alcançado as
exigências de uma teoria do ego. E assim como na trajetória
oitoscentista, na subsequência ao pós-kantismo verificamos a
regressão anti-liberal do pensamento, desde as propostas ditatoriais
tecno-progressistas de Comte e Marx até o aristocratismo de
Nietzsche conduzindo algo paradoxalmente às rejeições anarquistas
da legalidade democrática como em Sorel, Aristóteles é a
culminância do movimento metafísico que a esta igualmente rejeitava
na Antituidade, como ao próprio criticismo antigo.
Repetindo, tanto
naquela trajetória moderna quanto na da metafísica antiga,
tratou-se da inviabilização do princípio da heterogeneidade, que
aqui se expressou como retorno ao kantismo, recalcamento da
descoberta do Eu pós-kantiana.
Já o que estamos
descobrindo neste estudo é a importância de Nietzsche e Heidegger
nesses acontecimentos, ambos podendo ser - como de fato vem sendo por
estudiosos importantes - de algum modo relacionados a Aristóteles,
independente das grandes linhas de sua moderna crítica
anti-metafísica. A relação deles com Aristóteles envolve porém
nada menos que a reconstrução da interpretação dos gregos, que em
Nietzche e Heidegger tem lugar como sistematização dos dados no
contexto da evolução das descobertas em ciências históricas,
linguísticas e sociais.
Um exemplo do modo
como a reconstrução recalcou do mesmo modo que Aristóteles a
heterogeneidade pragmática problematizada na Antiguidade, o torna
bem nitido. Vimos como o elemento dionisíaco em Nietzshe é
contraposto a Sócrates, assim como a totalidade ao indivíduo, a
indiferenciação de gozo instintivo e meio por um lado, e o destino
como verdade da alma, por outro lado, sendo que como já dissemos, o
teatro como arte dionisíaca tematiza o destino apenas para
transmutar a dor da individuação em coletivo prazer estético,
realizar assim o apagamento da dor.
A Sócrates,
Nietzsche equipara Eurípides como o sacrílego fim do teatro da
época trágica. É verdade que Aristófanes já o considerava, e
realmente desde Eurípides já não se faziam trajédias na Grécia.
Para Snell inversamente, esse fim foi, já constatamos, o signo da
plenitude espiritual que os gregos alcançavam como condutores à
civilização, tendo em Calímaco o resultado típico em termos da
burguesia imperial antiga, modelo da moderna burguesia aristocrática.
Porém Snell não
desenvolve a questão nietzschiana da "Grécia noturna",
como Eliade o designa, em contraponto à da evolução da noção de
pessoa. Ele destaca a ausência total da representação de pessoa
individuada em Homero, mas erra ao tratar a mudança pós-homérica
expressa a princípio na lírica, desprezando a influência oriental,
em termos de um progresso inerente à clareza do naturalismo grego e
radicalmente oponível ao obscurantismo da magia oriental - como se
também deliberadamente ignorando Nietzsche.
Ora, quanto a
Nietzsche, se tratou ambiguamente Sócrates como uma anomalia na
Grécia antiga, ainda que nada menos do que o iniciador da era grega
pós-trágica que teria em Eurípides o tipo ideal, também Carpeaux,
na História da Literatura Ocidental, estabelece a este na vertente
de uma trajetória que ligaria a emergência do regime democrático e
a inquietação nascida da tensão entre indivíduo e sociedade.
Inquietação que a democracia, ao invés de eliminar pela liberação
anti-tradicional da pessoa, favoreceria por ser um discurso liberal,
mas uma prática de força legal como de qualquer regime instituído.
Carpeaux explora sem
dúvida a linha de crítica da cultura que na dramaturgia, começando
por Eurípides, expressa a mesma tensão "entre a vontade
sentimental do indivíduo e as leis fatais da convivência social e
familiar", em eras bem posteriores (História da literatura
universal, Rio de Janeiro, Alhambra, 1978, p. 57). Resultando de fato
na ironia da modernidade totalitária de que o próprio Carpeaux foi
vítima, como podemos observar considerando esse trecho como
expressivo de um sentimento pessoal.
Essa linha não foi
descoberta de Carpeaux, pelo contrário, ele cita a comparação de
Eurípides a Ibsen e Shaw como de procedência alheia. Filia-se a
Aristóteles na interpretação do autor antigo como bem inversamente
à opinião de Aristófanes, o cume do teatro sério na Grécia,
superando todos os outros na condição de trágico, mas considera-o
poeta lírico - a seu ver por isso mais próximo de Petrarca do que
de Ibsen. O tratamento histórico é algo complicado, pois a opinião
condenatória de Aristófanes não foi conforme Carpeaux seguida pela
posteridade até o romantismo, que a reabilitou, e assim, paralela à
linha individualista de crítica da cultura tipificada pelos dois
citados modernistas, informa ele a trajetória da influência de
Eurípides na dramaturgia clássica, de Racine e Goethe por meio de
Sêneca, Shakespeare e Calderón.
Ora, a ambiguidade
do juízo político aqui mostra-se por isso que para Carpeaux, o
referencial da crítica é a família, mas em Eurípides porque ela
ameaça a autonomia do indivíduo, contrapondo-se a Ésquilo que a
problematiza pelo motivo oposto de ser ela contrária ao Estado.
Eurípides se torna assim "o primeiro poeta que exprime a alma
do homem, sozinho no mundo, fora de todas as ligações religiosas,
familiares e políticas, sozinho com sua razão crítica e o seu
sentimento pessimista, com a sua paixão e o seu desespero" - e
nisso é que Eurípides seia o cume do drama sério antigo ao ver de
Carpeaux, portanto seguindo Aristóteles mas não muito fielmente, já
que para o Estagirista a excelência poética está na expressão do
universal.
Contudo, se em
Eurípides o conflito de família e indivíduo não visa diretamente
a questão do Estado, esta subentende-se. Para Carpeaux, Aristófanes
estava errado ao supor que Eurípides havia sido "o porta-voz da
nova democracia", e ele teria podido responder aos seus
acusadores que não era o responsável pela derrubada dos valores
tradicionais, pois "a moral tradicional já estava ameaçada
pela democracia totalitária", o Estado de "intolerância
religiosa pela qual a democracia ateniense se distinguia." (p.
56)
Mas assim Carpeaux
expressa a ambiguidade construída desde Nietzsche ao século XX,
pela qual a superação do domínio sobre a subjetividade já não
era traduzida pelos ideias democráticos que expressavam justamente a
democracia individualista, e sim pela estranha descrença na equação
que iguala democracia e liberdade. A afirmação individualista da
liberdade revela-se assim sempre ambígua, e se nesse trecho Carpeaux
parece expressar a aporia de um fugitivo do nazismo que porém não
crê que o antípoda deste seja a democracia, se é ao mesmo tempo a
afirmação do individualismo contra o coletivismo, o espírito de
sua "História da Literatura Ocidental" é bem avesso a
qualquer metodologia subjetivista. Pelo contrário, se utiliza-se do
determinismo das paixões sobre o intelecto, é mesclado ao
materialismo dialético que lhe permite reduzir manifestações
estéticas a expressão do conflito de classes, como na modernidade a
fases da revolução industrial.
Assim Carpeaux
distingue na verdade dois tipos de coletivismo, do qual o que
designou tradicional não era "talvez mais duro", do que o
"coletivismo diferente" instaurado pela democracia e contra
o qual Eurípides lutara.
Seria interessante
aqui, mantendo o paralelismo que propomos da reversão
pós-democrática, entre Aristoteles e de Nietzsche em diante, a
análise dos conceitos de tempo de sucessividade histórica nestes
autores. Aubenque o enfatizou de modo suficiente, sem suspeitar porém
do alcance da questão - até porque conhecemos suficientemente a
condenação Aristotélica da história como do meramente fortuito,
frente à poesia do universal.
Em "O problema
do Ser em Aristóteles" mostra Aubenque, com efeito, que
Aristóteles situava já o conceito de "moderno", em grego
cainoprepestéros, como horizonte da atualidade naquilo que teria
sido a trajetória da filosofia desde a origem. Porém, se ele mesmo
assinalaria o fim - como o cumprimento ou plenitude, bem em sentido
Heideggeriano após Hegel - o que a filosofia realizava desse modo
como a resposta às questões que soubera levantar ao longo do
percurso era nada além da clarificação daquele saber que a
antecedera. O saber da tradição religiosa, como do mito, que
Aristóteles distingue cindindo em duas. Há o mito puro, fonte da
verdade, e há o mito impuro, a profusão de estórias populares que
o distorceram. Ensejando assim porém a utilidade da filosofia como
meio de depuração do mito e restauração da sua pureza, como "das
palavras mesmas dos deuses", na expressão de Aubenque.
O papel da releitura
dos pré-socráticos entre Nietzsche e Heidegger, tem o mesmo sentido
de restauração da pureza originária do pensamento, superando-se o
interregno da degradação "metafísica", a qual em ambos
já não é o contrário da ciência, como salientei acima. E sim a
contaminação desta pelo pathos da cegueira metafísica à
hermenêutica do sentido. Não resta dúvida de que a restauração
da anterioridade originária contra a anterioridade imediata não se
limita aí à pureza do conceito, mas à concepção social e
política que o conceito deve ele mesmo fornecer.
Mas se essa forma
de temporalização histórica se antepõe frontalmente ao
tecno-progressismo positivista que precede Nietzsche, como o Realismo
pós-romântico ao Simbolismo pré-modernista, vimos que o
positivismo mesmo já não era liberal - assim a ambiguidade de Marx
entre o prerequisito da democracia mas à ditadura do proletariado.
Era, sim, reducionista da sociedade à produção como ao progresso
técno-industrial, de modo que mesmo nessa epítome da
consecutividade temporal há um recuo relativamente ao sentimento de
modernidade absoluta da legalidade constituicional como do direito
subjetivo, que transpira das páginas de Hegel, do socialismo
ante-positivista e do nacionalismo romântico.
A propósito, é
interessante observar que na dialética de Hegel há algo que não se
recupera pelo trabalho do negativo, na síntese. Ou seja, o senhorio
que desencadeia a história, na qual o que ocorre é a libertação
progressiva do escravo, de modo que este se torna verdadeira
subjetividade na igualdade jurídica do Estado moderno. Em Hegel,
pois, a dialética das sínteses a suprassumirem-se não
corresponde a um tempo regressivo, que deveria repor como progresso o
que já se encontrava de início.
Por outro lado, desde
os pioneiros tempos de formação da teoria liberal, com Locke,
sempre a desopressão a realizar-se pelo Estado da legitimidade civil
deve restaurar a natureza do homem cuja essência só poderíamos
apreender pelo conhecimento do estado primitivo. Entre o
pré-romantismo rousseauísta e os românticos, inclusive Hegel,
cresceu a ênfase nessa natureza como subjetividade, valendo a
premissa até Darwin, Comte e Marx.
Não surpreende,
pois, que na viragem elitista da modernidade ocidental após
Nietzsche o próprio marxismo tenha se culturalizado, entre Lukacs e
Gramsci transformando a "ideologia" criticada por Marx em
duas noções complementares, ora a distorção "burguesa"
mantendo a crítica, ora a inalienável cultura em geral.
Mas como acima
salientei, há nessa mudança algo demasiado importante, agora sendo
um momento oportuno ao menos à menção de que não se esgota na
explicação dos motivos pelo mero reflexo do antagonismo de classe,
por isso que o capitalismo já está em curso desde o romanticismo.
Pelo contrário, um dado dessa transformação é a redução da
democracia, por Marx, de um progresso da organização social a uma
peça da trajetória de emancipação da burguesia na consolidação
do capitalismo, como lógica da produção econômica.
O que devemos
esclarecer, na intenção de preencher a lacuna dos estudos quanto a
esse tópico, já que por um lado ele não é de modo algum
intematizado, mas sem que suscite a necessidade de uma
caracterização alternativa da modernidade ocidental para bem ou mal
como trajetória do processo democrático, é a transformação da
antropologia, entre o lamarckismo romanticista e o darwinismo
positivista. Tenho tratado o discurso das ciências humanas em termos
do que designei "geoegologia", base da junção de
geopolítica, antropologia e psicologia do ego, e epistemologia da
ciência, justamente pela dependência que se verifica entre as
mudanças da antropologia do primitivo e o aparelhamento teórico dos
fenômenos psicossociais. Como um discurso do desenvolvimento posto
pela trajetória ocidental, as ciências humanas operam a junção do
que viabilizam conceitualmente em termos do estado primitivo
(ante-moderno-ocidental) das sociedades, e a mentalidade do que é o
"povo" como a base de que os processos políticos
revolucinários deveriam ser ao mesmo tempo o resgate e a superação
do estado rumo ao desenvolvido da sua evolução psicossocial.
Entre a emergência
do liberalismo de Locke a Rousseau e o romanticismo, vigorou a noção
pós-feudal do primitivo como um eu atuando de modo autônomo no seio
da natureza, o que a visibilidade do aborígine americano justificava
nestes autores como base científica da posição política quanto ao
estado natural do homem. Não deixava de ser um progresso a
revolução democrática apenas porque a dominação do privilégio
senhorial havia se interposto como estado de guerra a ser saneado
pela ciência política do liberalismo.
Mas de Darwin em
diante, estava consolidada a opinião oposta de que o primitivo
incivilizado era um ser coletivo, incapaz de individuação. Enquanto
o positivismo o interpretava como o indesejável eliminado pelo
progresso da produção, motor da evolução ao estágio científico
experimental do saber, o neocolonialismo na transição ao século XX
mudou o parâmetro do visível, com a introdução do trabalho de
campo em Ásia e África, onde a composição das tribos era bem
diversa da autarquia da pessoa do índio americano, mas refutando
também o que o positivismo supunha como estado de promiscuidade
primitiva.
A assunção pela
antropologia, de um estado tradicional originário, coletivo mas como
organização ideal-funcional de papeis sociais hierarquizados,
tornou-se a base de uma nova crítica da cultura na acepção de
"saber", voltada explicitamente contra a noção de
progresso linear e a favor do culturalismo nesse sentido
tradicional de totalidade de valores coletivos a definir o caráter
de uma dada sociedade (etnia).
A democracia
tornou-se visada como inútil, pois nem interessando à base popular,
que agora se supunha, inversamente, de valores hierarquizantes, como
os primitivos. Nem às elites que deviam ao invés da democracia,
preservar a nobreza na moral hierárquica, a fim de evitar que esta
pudesse refletir apenas os baixos instintos primitivos, e caso não
se deixassem as elites degradar na barbárie do mero predomínio
econômico - e era a este que a democracia passava a ser vista como
interessante. Já a sociologia pós-revolucionária na França não
acreditava na capacidade do povo para compreender os trâmites da
burocracia do Estado constituído.
O que a dicotomia
do primitivo e civilizado que a antropologia de campo trouxe a esse
cenário, foi a inviabilização de se alcançar tratá-lo como
circunstancial, não havendo uma caracterização essencial do
"povo", mas decorrência dos investimentos em educação e
civilidade. Atualmente, muitos sociólogos concordam com Bottomore
quando afirma, ao invés, que não há qualquer a priori da
inferioridade como "diferença" dicotômica que resista a
bons níveis de alimentação, letramento e salubridade, em qualquer
população conhecida, à parte os universais resíduos de conflito
social que não se deixam reduzir a problemas estruturais.
Na verdade o que se
consolidou em princípios de século foi a sistematização de muito
que já havia Nietzsche presentificado, mas agora na terminologia
sociológica que definia o civilizado como burocracia racional, isto
é, o capitalismo e o regime parlamentar constituído.
O planejamento,
que hoje associamos à realização daqueles bons níveis, nesse
cenário era ao invés no mínimo visto ambiguamente, faca de dois
gumes entre possibilidade de aperfeiçoamento da justiça
distributiva mas sem dúvida instrumento de total dominação nunca
antes alcançado. Mais geralmente era visto, como a "planificação"
técnica em Heidegger, apenas como instrumento assim, restando o
mistério sobre como se pensava a evitação do domínio qualquer, se
não por meios políticos, implicando o planejamento responsável.
A resposta é
justamente a antropologia, a crença na pureza primitiva,
espontaneidade revolucionária, harmonia pré-estabelecida de
indivíduo e função social, etc. Porém crença não menos ambígua,
como vimos, pois esse estado "comunitário" então
significava anti-social, pré-lógico, pré-científico,
pré-filosófico, etc., e a realização pensante do estado
originário devia ser esteio da política do futuro, estritamente a
ocidentalização ou o que se devia fazer da técnica, que já a
tornara mais que mera cogitação quanto ao porvir.
Mas a resposta seria
insuficiente, se não compreendêssemos o contexto
ideológico-imperial. Não surpreende pois, que na atualidade do
neoliberalismo econômico, quando a "globalização"
corresponde ao domínio imperialista sem precedentes em grau, tenha
surgido várias correntes que recuaram ao eticismo "comunitarista"
dos anos trinta - com muito menos seriedade na era dos mass midia,
de modo que a própria rotulação da esquerda tornou-se duvidosa por
suas conexões com a corrupção.
Quanto à
mentalidade entre Weber e Heidegger, o enigma persiste de certo
modo, pois na sua ambiguidade típica, o próprio domínio era ao
mesmo tempo aquilo contra que se estava, na forma da burocracia
planejada; e aquilo que, como vimos, na forma da cultura "folk"
se legitimava em termos tradicionalistas, na redução da pessoa ao
papel social.
O próprio Nietzsche
não acreditava no antagonismo de classe, mas cultivava o ideal do
principado renascentista, onde a aristocracia era harmonizada com o
povo e patrocinadora da arte religiosa comunitariamente integradora.
Sonhava ele com um Borgia papa, o que a seu ver só havia sido
impedido historicamente pelo advento da Reforma, uma vez que o
catolicismo já estava àquela altura devidamente "humanizado"
e o retrocesso contra-reformisma decorreu apenas como reação.
Na concepção de
Nietzsche o antagonismo de classe era artificial, produzido pela
miragem de massas autônomas como pela ética dos fracos que
acreditavam na justiça burocrática, no limite, revolta de escravos.
E é um enigma, a meu ver, o que Nietzche entendia por isso, se não
algo que se devesse esperar.
Por outro lado,
acreditando que a revolução natural por si só favorecia o rebanho
em vez dos bem dotados, não parecia considerar a hipótese da
revolta de escravos, como entendia o socialismo, em termos de ação
consertada, ao invés de um resultado banal do curso cego das coisas,
concorrendo entre outros, todos a se verificarem na infinidade do
tempo, excetuando-se aquele da conscientização filosófica do
eterno retorno, como já observamos como o sentido do seu "filosofar
com o martelo", o instrumento em que a humanidade realmente se
tornaria ativa quanto à sua destinação, e, por aí, da natureza
como objeto de sua ciência. Algo que Heidegger parece retomar na
forma da concepção do homem como pastor do Ser.
Conveniente a
propósito do enigma do pensamento de Nietzsche sobre a revolta dos
escravos, poderia ser a referência rara, em Vontade de Potência, na
qual ele não espicaça o fraco, mas enuncia a condição pela qual o
aceita. A saber, que seja aquele humilde que esconde sua
fraqueza ou seu sofrimento. Vemos com mais razão que ele não
acreditava nela.
É importante
observar que o discurso anti-democrático consolidado desde as
mudanças na antropologia introduzidas pelo trabalho de campo, não
ficou restrito às classes conservadoras, ainda que nas versões
populistas do nazi-fascismo. Mas tornou-se a base das esquerdas
culturalistas.
A cisão de
comunismo e anarquismo explica-se assim. O primeiro interpreta a
premissa antropológica de modo que a vanguarda esclarecida do
partido precisa reter o comando, do contrário o movimento degenera
na barbárie. O segundo respeita a via da espontaneidade
revolucionária, porém como em Sorel, perseguindo um resultado que é
de todo avesso à democracia, denunciada como contrária aos
interesses do proletariado, mas já assumindo-se não ser possível
prever o que a revolução verdadeira proverá como estado de coisas
futuro, além do desejável como interrupção da expropriação
desumana dos "produtores" pela corrupção instituicional
generalizada.
Ora, a guerra
contra a democracia que as esquerdas moveram da época de Nietzsche
em diante, não podia ter por alvo um regime concreto. Qualquer
estudo histórico da efetividade europeia nessa época mostra,
inversamente, a consolidação dos impérios neocolonialistas, e o
parlamentarismo monárquico não elide essa conclusão. Marx e demais
militantes pela democracia foram detidos pelo regime alemão, cuja
estrutura previa severa censura de Estado com atuação de
departamentos de polícia política.
Os
sociais-democratas e a sociologia reformista inglesa, como o casal
Webb, eram o alvo das críticas da esquerda antropológica da época
de Nietzsche em diante como na verve de Sorel, mas atuavam num
ambiente de super-exploração do proletariado pelo império
neocolonial inglês, em que o parlamento se destinava ao
favorecimento do fluxo dos negócios internacionais ao invés de
refletir os ideais liberais de igualdade. Ambiente de expropriação
bem diverso do que se instaurou após as duas guerras e antes do
neoliberalismo econômico, este ao qual é costume associar toda a
tradição inglesa.
Sublinhar a verdade
histórica do regime imperial inglês do neocolonialismo não
significa esquecer que na teoria a Inglaterra preservou a linha
liberal mesmo na decorrência da nova antropologia, já que
representa esssa linha a tradição inglesa desde Locke e os
utilitaristas. Carpeaux explica assim o sucesso, em nível de
qualidade literária a mais do êxito de circulação comercial, do
romance policial na cultura anglo-saxônica, americana e inglesa,
como em Poe e Doyle. Aí exercitam-se os autores em intrincados
enredos que exigem tato e inteligência, porque trata-se de um
ambiente de lisura jurídica, que exige provas rigorosas da culpa
antes que a prisão possa consumar-se.
Já em países onde não
há tanta legitimidade, com o declínio ideológico da democracia nos
regimes totalitários onde os suspeitos podem ser encarcerados por
qualquer indício, o romance daquele tipo não teria sentido, e o
gênero assume versão diferente. O romance policial nesse caso
transita nos mesmos sub-mundos dos criminosos, igualando-se os
valores niilistas e os costumes boêmios de investigados e
investigadores, como na assim designada "hard-boiled school".
Tendo em Dashiel Hammet e especialmente James Cain representantes
igualmente importantes, atesta que o abuso acometeu mesmo o mundo
anglo-saxônico, ali na forma do poder econômico (op. cit. V. 8, p.
2272).
O que significa que
os verdadeiros grandes criminosos, os "tubarões" do abuso
dos trusts e carteis, nunca são referenciais de investigação
deste gênero que a crítica alemã designa Kriminalliteratur.
Como na vida real, poder-se-ia aduzir, mas da perspectiva da
estrutura literária parece ser possível deduzir desde Carpeaux que
a contaminação do político pela corrupção do dinheiro, gerando
as deformidades no ambiente social, restritas aí tematicamene ao
ambiente da criminalidade, não é o mesmo que a atribuição dos
conflitos ao que decorre das decisões de dirigentes de um regime
totalitário.
Se Edgar Wallace
populariza de certo modo este segundo tipo de romance policial
conforme a classificação de Carpeaux, a morfologia do texto é
ideologicamente esclarecedora, refletindo o palco do teatro religioso
medieval. O mundo tem três andares, na expressão de Carpeaux, "em
cima, o céu da polícia e da Lei; em baixo, o inferno dos
criminosos; no meio, o mundo humano dos homens falíveis, dos
suspeitos inocentes e dos detetives".
Wallace sistematizou o
recurso que em Dashiel Hammet surpreendia. O culpado é o menos
suspeito e o mais aparentemente inocente. A meu ver, desse modo o
commom sense da moralidade popular que Carpeaux atribuiu ao primeiro,
já destoa do modo pelo qual neste segundo a defasagem de aparência
e essência assoma como uma crítica social subreptícia. Em The
Maltesse Falcon, a secretária do detetive, protótipo da
mocinha bem comportada da classe média americana, acredita piamente
nas aparências. Devota-se ardorosamente à mentirosa causa da falsa
inocente e é revoltada contra a verdadeira que porém não cultiva
modos finamente recatados. De fato Hammet foi bastante perseguido
pelo anticomunismo do senador Macarthy.
Deveríamos lembrar
que a Inglaterra foi a promotora da causa das grandes guerras, cujo
móvel foi concorrencial neocolonialista, e que os Usa se deixaram
contaminar pelos "tubarões" capitalistas - que os
"muckrakers" de outros gêneros literários, como Upton
Sinclair e Dreiser, porfiavam por derrubar com suas críticas,
conforme o termo atribuído por Roosevelt - justamente ao generalizar
ideologicamente a opção dos políticos imperialistas (p. 1974,5).
Aqui a corrupção das instituições políticas pode ser diretamente
confrontada, como na atribuição de crime ao tribunal que condenou
os inocentes Saco e Vanzetti, tratada literariamente em Sinclair.
Algo interessante é
lembrar que esse gênero tem sido explorado como pós-modernista, ao
confluir de certo modo com a fricção de essência e aparência que
porém Hammet é que investiu com mestria na vertente do romance
policial.
Ao reconstituir
o processo que condenou à pena capital o casal Rosemberg de modo
absurdo - como culpados pelos mortos da terceira guerra mundial - The
public burning, de Robert Coover, tratou o modo como a mídia
colaborou para fomentar o estereótipo antipático do casal, de que o
tribunal se utilizou como o referencial da opinião pública, e o que
o romance mostra é como esse referencial é construído pela
ideologia textualizada da sociedade de consumo. Mas assim também a
circularidade pela qual os textos da tradição cultural
historicamente formativos dessa opinião eram construtores do mesmo
estereótipo da aparência.
Também uma
circularidade, mas desta vez literária, torna-se o pivô da
literatura pós-modernista em que se constitui o próprio romance.
Pois o que ele reconstitui como História, é literário a partir do
investimento da "intertextualidade" - isto é, investindo
a reescrita dos outros textos, como artigos de jornal e depoimentos
públicos, além dos tradicionais referenciais ideológicos, que
construíram por sua vez os acontecimentos da história assim como
foram, por terem sido constitutivos da mentalidade das pessoas
envolvidas no julgamento. O público e o tribunal. Pessoas que porém
não estão conscientes da textualidade - que seria passível de
crítica - - inerente à sua consciência.
Essa circularidade
"metaficcional-historiográfica" conforme o conceito de
Linda Hutcheon, não lembra porém, segundo creio, o círculo
hermenêutico heideggeriano, a premissa pela qual não há o que
dizer da linguagem/cultura sem já se estar operando por elas. Pois
Heidegger expulsava explicitamente a historiografia da sua noção de
História. Aqui, inversamente, vemos como ela está sendo investida
em termos da tessitura não somente da ciência, como dos
acontecimentos.
O Dasein
heideggeriano tornando-se assim vítima possível da fantasia do
significado puro que o pós-modernismo denuncia por trás das
mentalidades construídas pelos textos que circulam, desde as lições
consagradas aos scripts propagandísticos da sociedade de massas.
Sendo textos, em todo caso, sempre esses construtos que reescrevem
outros textos, intertextualiddes tão provisórias e criticáveis
como qualquer tese explicitamente apresentada como tal, mas
esquecidos na sua forma de ser, figurando como verdades de
significação própria à consciência além de toda crítica, como
signos puros, "a" verdade indubitável de que não se
procura a fonte porque se crê ser por si, indecomponível como é a
adesão a qualquer dos dois times que disputam a partida do futebol.
Na altura da metade
do século passado, os resultados acumulados do trabalho de campo e a
planetarização da ciência já havia alterado consideravelmente o
teor de validez das conclusões totalizantes do culturalismo
"funcionalista". Porém o "estruturalismo" que se
seguiu, de Levi Strauss a Lacan e Althusser, não foi a expressão
teórica sistemática do retorno do heterogêneo que vertentes mais
empíricas estavam seguindo - mesmo ao contrário do neoempirismo
stricto sensu, que preconizava o universal científico também
nas questões culturais. Foi inversamente a esse retorno do
pensamento democrático já na ambiência de um novo pluralismo
"multicultural", a radicalização de premissas
"geoegológicas" como determinismo do progresso.
Formulou-se assim um freudo-marxismo que repôs a linearidade
temporal do progresso positivista.
E se o assim
designado pós-estruturalismo, de Foucault a Derrida, Deleuze e
outros, pareceu uma crítica a este determinismo, de fato não
rompeu de todo com o discurso da totalização que recusa o
multiculturalismo, isto é, as miscigenações de culturas e as
heterogeneidades internas a cada uma, pela conservação do conceito
de totalidade semiótica que encerraria cada sociedade em si mesma.
Totalização também pela qual o sujeito emerge na história, não
tendo sido sempre, e o locus de sua emergência é o ocidente
moderno-ocidental, totalizado como percurso intelectual desde a
antiguidade grega. Porém desse modo sendo o sujeito por um lado e
não pelo outro, o telos da emancipação política. Sim, porque ele
é o resultado do progresso psicossocial ocidental; não, porque a
estruturação do seu universo de valores não vem dele mesmo, sendo
ele efeito ao invés de causa, etc.
Não significa
nossas conclusões a afirmação de que todas essas vertentes vinham
sendo simplesmente de índole política totalitária - se bem que vem
sendo sempre menos abafada a pesquisa das conexões totalitárias do
pensamento heideggeriano por exemplo. Mas sim que está muito longe
de ser simples o equacionamento dos horizontes políticos do ocidente
moderno como discurso de emancipação, devido à intercessão
"geoegológica" do seu projeto, pela qual a ciência do
Homem enuncia o desenvolvimento da espécie protagonizado porém
apenas pelo Ocidente na forma de sua ciência do Homem - da qual não
segregamos a "teoria" como "pensamento", e,
inversamente, o tratamos como fontes de sistematização dos
sucessivos paradigmas.
A "geoegologia"
como ciência paradigmática do desenvolvimento, nas formas
sucessivas dos sistemas que acima estudamos, planetariza-se ao longo
da modernidade como dominação cultural intrínseca ao processo
objetivo do capitalismo, que assim redefinimos como assimetria
internacional do capital, como processo de anexação econômica,
isto é, imperialismo. Ela se efetiva nas margens anexadas na forma
de "alter-egologia", pela qual ao invés das ciências
humanas liberarem a pesquisa e expressão da heterogeneidade local, a
limitam paradigmaticamente ao que serve aos interesses do
"desenvolvimento", suprimindo-se da conceituação deste o
próprio imperialismo como fator intrínseco, a partir do a priori da
margem como "sub-desenvolvida" (primitivo).
O que examinamos
nesse trecho aporta a uma curiosa inversão, entre Antigos e
Modernos. Independente dos paralelismos que podemos construir, a
ruptura histórica que afirmamos não está contraditada, entre os
respectivos limites do Ser e do Pensar.
Na Antiguidade, a
repulsa do infinito, ou ao menos o a priori da limitação que impede
o acesso a uma verdadeira ciência social da História, traduz de
fato a fantasia do intelecto sem finitude, de modo que uma ciência
humana, se fosse atingível, igualaria a divina. É por isso que não
creio na identidade nietzschiana de Eurípides e Sócrates, e visei
aqui, como espero ter ficado claro, inversamente a oposição que o
intelecto metafísico representa a todo pensamento da heterogeneidade
subjetiva suscitado pelo criticismo sofístico. Na Antiguidade
contudo, o criticismo só aportando à impossibilidade do Saber como
ciência humana.
Este
locus teórico é mais complexo do que aqui podemos tangenciar. Como
podemos ver pelo fato de que a radicalização criticista antiga pelo
ceticismo pirrônico aportou numa recusa dos "mathemata",
como de estudos especializados no estatuto de ensino válido, que
atingiu horizontes disciplinares defendidos pela sofística, como a
retórica. Mas o ponto em questão, expresso em Sexto Empírico, era
se cada um desses estudos deviam ou não ser considerados "teckné"
e
ciência, não especificamente se o correlato do que assim se pudesse
considerar existia além do homem como coletor de signos
coletivizáveis de constantes fenomênicas. A medicina, por exemplo,
podia, já que a saúde que ela estuda existe independente dela
mesma, conforme o raciocínio de Sexto, sendo o Empírico do seu nome
o designativo antigo de sua profissão de médico.
Assim,
independente das ambiguidades do texto sextiano na derrogação do
pretendido estatuto de teckné a disciplinas que não teriam objeto
independente do que elas mesmas definiam
nesses termos, entre
outros exemplos as
matemáticas (aritimética e geometria), gramática e retórica,
filosofia (ética, física e lógica), mas sendo o exercício mesmo
da teckné e/ou ciência apenas a semiótica da constância e não o
enunciado da natureza do objeto, o que se recusava em geral desde a
sofística era esse enunciado como possível ao homem.
E era ele o que a
metafísica visava como o correlato único do estatuto da ciência.
Em todo caso, na
Antiguidade nunca houve a descoberta do trabalho do negativo que
informa a dialética hegeliana, ou da positividade da finitude da
razão - como da subjetividade humana cognoscente - que informou o
criticismo kantiano. Assim, se a modernidade libera o infinito ao
pensar, como na abertura da História e na superação do
geocentrismo, ela é em contrapartida instaurada como analítica da
finitude que a metafísica impedira de ser suscitada na Antiguidade.
A
interpretação dos pré-socráticos em Nietzche e Heidegger, como
vimos, enuncia expressamente um retorno ao kantismo que tratamos como
sintoma da regressão anti-democrática enquanto especificamente um
recalque do pós-kantismo. O pós-kantismo, como temos repetido,
enuncia a heterogeneidade do Eu, e assim é também o pensamento da
democracia constitucional em que se resolve o aparente paradoxo do um
e do múltiplo pela duplicidade dos níveis da coexistência pública
e da existência privada. O que temos tangenciado como a filosofia do
devir ante-aristotélica se alia justamente com as quesões postas
pelo heterogêneo na linguagem, conforme tematiza a retórica e as
evidências da pluralidade da Doxa.
Assim como em
Kant o tempo e o espaço é só insuficientemente subjetivo, não
equacionando nem mesmo a hipótese da pluralidade das geometrias que
leva de Rieman a Einstein por exemplo, colocando ao invés como
absoluto o que informa a física newtoniana, Aristóteles afirma
perempetoriamente a convicção da universalidade do percebido. Mais
uma vez devemos observar como a retomada do kantismo atua
similarmente ao que converge com o pensamento pós-democrático
aristotélico, a ultrapassagem da heterogeneidade pensável.
Se um exame atento
dos pensadores pré-socráticos revelaria que o locus do heterogêneo
já estava presente em Heráclito por exemplo, Niezsche instala a
unidade como legalidade enquanto horizonte do pensamento heraclíteo.
mas a entende como regularidade fenomênica, na decorrência mesma de
resultar como resposta à questão ética do devir.
Não parece supor
Nietzsche que Heráclito recua desde o que atribuiu como salto ético
de Anaxágoras, a um fisicalismo radical. Mas continua estando em
questão o juízo de valor sobre o devir. Realmente o argumento da
isenção de culpa no vir a ser transposto na eterna unidade da
justiça se revela ambíguo, sustendo-se a partir da regularidade dos
fatos naturais como pretendeu Heidegger para toda a intepretação
dos pré-socráticos em termos de fisiólogos, desde Hegel seguindo
Aristóteles.
Em todo caso, é
daqui que a espessura do conhecer se impõe em Heráclito, sobre a
simplicidade popularesca, ao ver de Nietzsche. A regularidade,
inversamente à crença vulgar não se esgota em fixidez, é
alternância dos opostos. A exemplificação é então fisicalista.
Pois, se a lição é na verdade ética e política, é dessa
alternância de opostos naturais como docuça e amargor, escuridão e
clareza, que ela se tira: "tudo ocorre conforme a esse conflito
e é exatamente esse conflito que manifesta a eterna justiç. É uma
representação maravilhosa que considera o conflito como o império
constante de uma justiça unitária, rigorosa, vinculada a leis
eternas", escreve Nietzsche.
Podemos questionar a
ligação, ou a lacuna, entre a guerra dos opostos como natureza cega
e a representação humana da justiça constituída. Nem mesmo
sabemos o que ela subentende - a igualdade ou o privilégio, ambos
sempre estribados na evidência natural conforme as teorias
habituais divergentes, ora porque todos os seres igualmente existem,
ora pelo efeito da força que subjuga e predomina. Mas devemos
lembrar que Heráclito está sendo apresentado por Nietzsche como
resposta à condenação anaximândrica do devir, e a esta
entendemos, pois não justifica, inversamente, acusa a natureza de
carecer de qualquer justificação.
O próprio Nietzsche
se expressa nestes termos em alguns dos escritos, como sua filosofia.
Contra a condenação do devir ele não faz causa de celebração,
mas argumenta que é impossível julgar a exisitência, pois sempre
já se estaria fazendo parte dela. Quando se trata da exegese dos
pré-socráticos, inversamente, salienta que segundo o ponto de vista
anaximândrico, a constância do vir a ser é desvanecer-se o que
devem, ainda que sempre mais alguma coisa venha a ser em seu lugar.
Como vimos, Heidegger
não aceita tal interpretação do expiar, nem mesmo que se trate de
expiação em Anaximandro, e sim que ele desfaz a oposição
nietzschiana construída entre este e Heráclito. Aqui estamos
constatando que a oposição se constroi em Nietzsche mais em termos
de ligação de um antecedente a um consequente. Conforme Nietzsche,
como pensador do devir Anaximandro introduziu a interpretação dos
elementos como nele opostos, e foi da contrariedade anaximândrica de
frio e quente, atribuída a propriedades da água como elemento
primordial vindo de Tales, que Heráclito teria tirado a sua própria
concepção da arkhé. Ele destacou o quente e estabeleceu o fogo em
vez da água como elemento originário, porque referencial da
transmutação dos elementos.
Hegel pensa também a
propósito, que o fogo é a figuração do devir, que entende em
Heráclito como "processo real" de alteridade, trânsito de
um ao outro e retorno dessa cisão plural à unidade do todo.
Sobretudo o fogo é mudança das coisas por evaporação, conforme
Hegel nota ter observado Aristóteles acerca da doutrina heraclítea.
Mas assim a unidade que Hegel atribui a esta como fundamento, é
razão. O processo que tanto em Hegel quanto em Nietzsche, faz do
fixo apenas aparência, é porém para aquele lógico, atribuindo ao
comentário de Sexto Empírico sobre Heráclito, a apreensão do
nexo do processo natural e da consciência subjetiva racional. A
razão, o que é sábio, em tudo é o que domina, conforme o
fragmento que Hegel seleciona.
Quanto ao que estamos
observando, em Nietzsche há uma ambiguidade expressa. A princípio
atribui a intuição de Heráclito, ao contrário de um fisicalismo,
como figuração humanística da natureza. Os gregos viveram na
agonística, tinham consciência aguda de que guerreavam pela
vitória enfrentando pois um partido oposto com intento igual, ao
invés de segundo desígnios sobrenaturalmente pré-estabelecidos.
Assim puderam ver na natureza, conforme Nietzsche, sempre por toda
parte a mesma Éris, a mesma discórdia. Quanto a essa explicação
inicial, podemos manter nosso questionamento, pois a inspiração
agonística justamente se opõe a uma justiça pré-estabelecida, é
puro arbítrio ou predomínio do mais forte - como poderia conduzir a
uma filosofia da justiça natural?
Se aqui pode ser que
resida a origem da concepção nietzschiana da potência como
imposição da força, devemos lembrar que quando se trata de
defendê-la como sua, Nietzche se insurge contra a noção de justiça
natural, tratando os que a propugnam como os fracos que construíram
a moral do ressentimento contra a evidência do predomínio da força,
isto é, da vontade que quer se impor. A força é arbítrio, a
imposição é do que o forte cria ao seu arbítrio, e ainda que isso
seja a transposição do instinto em inteligência de valores, estes
não são antecipados na natureza, formam a originalidade da cultura.
E se é possível entender de outro modo, a força como lei natural e
a crítica de Nietzsche sendo à crença na justiça ideal, é em
sentido científico, biológico, e não ético do termo "lei",
arbítrio das coisas, não decisão concertada da humanidade.
Mas como um segundo
aporte, Nietzsche também atribui a inspiração de Heráclito a uma
física do fogo, que seria o elemento em que se transmutam os outros
elementos, a terra e a água. Aqui o jogo das mutações é puramente
natural, mas arbitrário, "sem nenhum discernimento" de
moralidade, e nesse sentido é que é inteiramente absolvido, sem
culpa. (op. cit. p. 105;7) A lacuna entre arbítrio, inocência ou
jogo infantil, e justiça una, eternamente reinante, permanece, ambos
predicados igualmente da filosofia de Heráclito como se esta fosse
porém bastante coerente, assim como a lacuna entre natureza e
cultura.
Como vimos, Heidegger
estende ao possível a concepção da totalidade do devir. Podemos
nessa acepção opor o seu conceito ao de efetividade, de Nietzsche e
Schopenhauer. Mas Heidegger parece interpretar por um outro ângulo o
devir pré-socrático em termos de efetividade, ao traduzir a physis
conforme um termo que o brasileiro verte por "mantença",
o vigor do que impera e permanece em vigência. Mas o modo como o faz
parece endereçar-se justamente ao preenchimento da lacuna, a partir
da transposição do conceito de efetividade ("mantença")
a uma dialética do emergir e do ocultar.
Se
a unidade é por um lado física, como totalidade do que devem,
enquanto vir a ser, mesmo que pela physis grega se deva entender toda
a amplitude fenomênica, tanto natural quanto humanística, algo mais
é requerido a esse endereçamento. O que Hegel já visava ao
instalar na razão o modo de ser unificador, ao invés do devir como
monturo de coisas díspares e não coerentemente relacionadas.
Mas
assim Hegel teve que se defrontar com a raiz do seu próprio
pensamento, a subjetividade em que o Romantismo descobria a
historicidade do pensar. Hegel
terminou
por uma estética contrária à romântica, querendo porém melhor
servir ao subjetivo
porém fazendo a causa do universal.
Ele expressa o movimento que desemboca no anti-liberalismo da época
de
Nietzsche e Heidegger.
A concordância deste com Nietzsche se expressa assim,
c quando,
como vimos, assimila o
sentido da efetividade, aquilo que resolve o enigma do que é que
jamais tem ocaso, ao vivente, ao invés do processo lógico de
Hegel.
O
efetivo em Heidegger, como o que não tem ocaso, é o que jamais se
oculta por uma razão estranha à suposição comum do que é
constante na presença. O que se furta à ocultação é o que
desoculta, a clarificação ela mesma, pelo que Heidegge deduz do
cotejo deste com outros fragmentos heraclíteos. Quanto ao cotejo de
textos gregos em que consta o
uso do verbo "ocultar" (elanthane), Heidegger assume que o
sentido é o próprio do homem. Ser homem é de algum modo
ocultar-se, viver ocultando-se conforme a reserva do pudor.
Conforme
o significado do fragmento, o efetivo está oculto até
desocultar-se, e a
relação entre os opostos aponta para o que efetivamente atua a
desocultação. A
natureza seria a resposta inconveniente porque ela é essa mesma
complementaridade, esse mesmo devir dos opostos, ora oculto, ora
desocultado. A
clarificação é atribuição da presença tanto como a presença do
que é efetivo, o mundo, o que Heidegger sugere como correlato do
fogo heraclíteo, o que é visto e faz ver.
Ao
negar a oposição do sensível e do supra-sensível em Heráclito,
Heidegger situa o ser de quem, segundo a sentença, se impede o
ocultar perante o que jamais se oculta, apenas aos pensantes, deuses
e homens. Faz notar que a sentença uiliza "quem", ao invés
de "o que". Os
deuses e os homens são os que tomam, podem tomar, sob sua guarda, a
clarificação ela mesma, na qual se clarificam como presentes. Assim
vemos claramene a relação entre ser e pensar. A quem se veda o
ocultar, é vive, perante o que jamais se oculta como o que
desoculta, e, assim, é propriamente quem compreende o presentar como
ossibilidade desde o ocultar-se. Ou seja,,
quem compreende que o
que há está em devir, devendo ser atribuído conforme a
circunstância do pensar em seu ser. Sendo apenas na concretude sem
pensar, segundo entendo
ao ver de Heidegger algo
se presentaria sem ser como é, devir. O trânsito das coisas não
seria, só elas seriam,
por si, desconexas, como o inatribuído,
o signo puro.
Aqui
Heidegger parece de
fato apresentar algo ulteriormente a Nietzche. Só a atribuição é
capaz de apreender ocultação e desocultação, como afirmar ou
negar, em vez de transpor simplesmente o ser dado na concretude, do
combate dos homens à contrariedade das coisas, ou, inversamente, da
regularidade com que se
alternam à legalidade que predomina, como fazia Nietzche restrito ao
dado como ao necessário.
Repetindo,
Heidegger alcança em Heráclito o devir como atribuição quanto
ao possível. A physis só se concretiza em ser pensável, do
contrário seria apenas caos ou nada. Porém assim Heidegger não
transpõe do fato, o valor. Como saberíamos por que meios a
necessidade da natureza foi ultrapassada, e a esfera da cultura
tornada acessível, se na decisão em que impera a "mantença"
somente o atributo que vige é o correlato?
Mesmo
que a referência seja tudo, e a que se descarta como a que se mantem
equivalem enquanto o vir a ser da clarificação mesma, o importante
na cultura como o que decorre da heterogeneidade da opinião restou
intematizado.
Mas
assim como entenderíamos que o pólemos fosse o comum, figurando-se
pela contrariedade das coisas a polêmica em que se envolvem os
homens comunitariamene decididos,
em suas supremas decisões?
Tanto
Heidegger como Nietzche elidem o que a nós parece
dever estar, na mente dos gregos na origem da filosofia, como a
preocupação maior, uma vez que essa era ocupava-se justamente na
luta contra o antigo rgime do despotismo aristocrático,
e empenhando-se na afirmação da heterogeneidade assim como na
habilidde da confrontação das opiniões.
É
uma revolução mental abandonar a prática da reiteração do
preceito único para entender a coexistência como permanente
possibilidade de
exibição de provas
quanto à justeza da opinião própria, ver em si o contraponto dos
demais eles mesmos singulares, na mesma disposição de dar suas
razões conforme a
propriedade da ocasião.
O que Nietzche atribuiu, inversamente, à idiossincrasia do seu
Sócrates-burguês - na
acepção vulgar do que é contrário ao aristocrata - como
se aos gregos até então fosse
desconhecida a validez
do argumento.
Vemos como é enigmático
o uso que Nietzsche fez
do termo, já que não devia ignorar de
modo algum que Sócrates havia sido, pelo contrário, assim como
Platão um inimigo da democracia ateniense. O
fato dele não o considerar por esse viés, suscita a hipótese de
que imaginariamente o transpunha à atualidade do século, como um
defasado crente na egoidade originária.
Essa
revolução mental, só a aprendemos com os gregos, e ao constatar
que para eles mesmos tratava-se de o realizar, ao invés de sempre
assim ter si do. Em suma, o âmbito historial em que Heidegger
insiste inserir-se a palavra dos pensadores e a interpretação que
cada um deles faz do passado, jamais atinge o principal q uanto aos
gregos da aletheia, aqueles que se situam na era dessa terminologia
quanto à verdade.
A
saber,
que essa é a era em que desponta o sentimento da democracia e se
transige da legislação irrefletida da natureza deus homérica, à
esfera humanístico-política da cultura.
Assim Heidegger ultrapassa Nietzche, mas recua novamente a ele, ambos
incapazes de situar o que Aubenque observou como algo pertinente ao
mundo circunstancial da humanidade aristotélica. Que ele só vige
quando a comunidade de deuses e homens só enuncia a irredutibilidade
entre as duas condições existenciais, como
entre os que sempre sabem e os que precisam ainda decidir.
Eu
mesma ressaltei em meu já citado estudo
publicado, não obstante só neste proceder a leitura de "A
prudência em Aristóteles", a
ruptura relativamente
ao regime ordálico de julgamento, que na era arcaica aristocrática
se utilizava na crença
de que a ação dos deuses era aí eficaz. Já
o assinalamos,
mas importa ajuntar que a ruptura
instaura a racionalidade do tribunal restrito à deicpsão
dos homens competentes, mas instaura também a consciência
falibilista dos recursos puramente humanos. Na era da democracia,
essa consciência significava algo bem irredutível à do império.
Na
democracia, a solicitação exemplar pelos homens competentes,
dignos, honestos, "educados
no ethos da lei" conforme a exortação de Solon, homens só de
quem se sabia depender o bem estar social. Mas
o império utilizava essa mesma dependência como argumento contra os
perigos da ausência de uma autoridade central forte. Se a liberdade
pessoal é o mais digno dos homens, argumentava Cícero, pareceria
insensato a um proprietário deixar seus negócios serem
administrados pela multidão
indisciplinada.
Em
todo caso, na era clássica ateniense a racionalidade jurídica já
estava extensa ao próprio regime, e a retórica, bem como os
procedimentos jurídicos e legislativos, existem na ausência
daquela crença de intervenção direta do sobrenatural no juízo.
Os deuses continuam existindo na mente grega antiga, e o saber
consumado só a eles pertence, mas estão isentos de ação direta
quando se trata do embate entre partidos de homens iguais em condição
mas diferentes em seu coração.
Porém
se assim é, se a retórica como percurso pensável do signo emerge
apenas pela força da ausência da imediatez, o que se deu a pensar
desde a emergência do jurídico até aquela da metafísica foi a
incongruência de physis e nomos. Como dupla contraposição.
Primeiro, na democracia e conforme a terminologia sofística, como
duas esferas
fenomênicas, natural e
humanístico-cultural. Mas, depois, como tema que se tornou
preponderante na proximidade do império, e
ao longo deste, como cisão na interioridade da espécie, sendo o
homem ser natural e cultural. A oposição relevante aqui, mesmo que
na segunda sofística, a que se exerceu na era imperial, a de physis
e nomos continuasse importante, era mais entre o koinon e o idíon.
Respectivamente, o comum e o particular, como público e privado.
É
interessante que o confronto do uno e do múltiplo seja aí
invertido. Na primeira contraposição, a natureza é una desde a
regularidde factual da origem pré-socrática, até a
incognoscibilidade do objeto, sofística. E
a cultura é múltipla,
como as opiniões são heterogêneas, para mal ou bem conforme a um
Parmênides ou um Protágoras. Na segunda, inversamente, a lei é
una, mas as disposições naturais a cada um, múltiplas. O que varia
na concretude é mais a circunsância, entre fatos quaisquer e
possibilidades naturais como saúde ou doença, proveniência da
nacionalidade, posição, interesse, etc., do que algo como
personalidade. Mas em Aristóteles, como a partir do idealismo
socrático,
tratou-se inversamente de uma guerra contra a evidência do
heterogêneo. Na metafísica, Aristóteles afirma explicitamene a
homogeneidade perceptivo-intelectiva, como já vimos.
Certamente Aubenque tematiza
algo importante como a
originalidade de Aristóteles relativamente a Platão e Sócrates.
Mas o alcance das raízes gnômicas da ética aristotelica, conforme
sua
tese, deveria ser qu estionada como possivelmente referencial da
circunstância, num meio em que o pensáveldramatúrgico tornara-se o
destino, na confluência
da continuidade da vida religiosa com a ruptura política, e
sendo o drama o maior
referencial do ethos grego da prudência e da gnome como faculdade do
juízo.
Há
algo de impreciso quanto ao tratamento da questão das relações do
pensamento filosófico e ethos "folk" na Grécia Antiga,
tanto em Aubenque quanto em Nietzsche e Heidegger, estes últimos que
situaram propriamante a questão de um modo não meramente
digressivo. Mondolfo obsevou que se Nietzche é a ruptura
relativamente ao preconceito classicista da Grécia como incapaz da
apreensão do infinito, é porque ele já elaborava sua interpretação
na convicção de que a multiplicidade da opinião integra a unidade
da cultura. Se há algo de infinito nas manifestações
culturais gregas é porque a cultura grega como um todo o
permite e insere. Essa linha da totalidade, com efeito, é o que
estamos aqui reconstituindo em sua tessitura justamente nas obras
transformadoras de Nietzsche e Heidegger, que expressaram a
estabilização da antropologia pós-positivista. Constatamos que ela
atravessa a oposição entre funcionalismo culturalista e
estruturalismo, porém sendo o que na pós-modernidade voltamos a
questionar. Podemos ver que há algo de contraditório na asserção
de Mondolfo, uma vez que o preconceito classicista não era oriundo
de uma opção pela heterogeneidade, mas igualmente uma totalização.
Em todo caso, na estabilização culturalista foi essencial a
introdução dos elementos não-filosóficos da cultura na exegese
dos textos filosóficos, e, com Heidegger especialmente, isso
significando a elucidação do uso linguístico.
Em
Mondolfo notamos o quanto o resultado pode parecer vago, na carência
de nexos que expliquem a ligação, de modo que não se possa
afirmar, justamente, a heterogeneidade de um pensador original - por
influência de outras culturas; por diferença de classe ou de etnia
enquanto condição de classe, que informe práticas e concepções
humanísticas próprias em confronto com fatores dominantes; ou
ainda por transformação de esquemas conhecidos.
Ao
atribuir aos gregos não apenas a capacidade, mas a invenção mesma
"do conceito e da teoria do infinito", ele atribui a causa
à vocação navegadora já dos aqueus, que a teriam transmitido aos
gregos. Que estes são a confluência étnica dos chamados "povos
do mar", populações indo-europeias praticantes da navegação
e comércio marítimo, é certo. Mas resulta algo inconsistente a
demonstração causal. Porque a índole expansionista, mesmo
irrestrita à mera ambição do ganho comercial e abragendo a vontade
de ver, de conhecer, como uma característica que faz dos gregos
navegadores diferentes dos outros, não justifica por si só a ilação
de que, se "o espírito helênico, em si, é precisamente o
espírito dos exploradores", segue-se que "a atividade de
seus navegantes oferece no campo da prática [ que, como diz
Aristóteles no lugar já mencionado, é sempre prática e teoria ao
mesmo tempo ]" nada menos que propedêutica e "modelo para
a atividade intelectual dos seus pensadores" (Mondolfo, O
infinito no pensamento da antiguidade clássica, São Paulo, Mestre
Jou, 1968, p. 39).
Aqui
há pois uma circularidade. A vontade de ver e conhecer explica
o nascimento da filosofia entre os gregos, definida ela mesma como
vontade grega de ver e conhecer... Mesmo à aparente evidência de
que o espírito exapansionista tenha favorecido a intrepidez do
questionar e a independência do pensamento, há alternativa, como na
proposição de Sagan de que o elemento que o favorece é o trabalho
manual de um povo de artífices como atribui os jônios, o status
de comerciantes vindo dessa atividade artesanal, não o inverso.
Pode
ser que, em todo caso, a presença da atividade comercial seja sempre
estruturalmente relacionável à evolução histórica da cultura
"folk" a produções de cultura letrada, exercício de
questionamento crítico e exigência de coerência formal. Mas ligar
o comércio marítimo e determinados resultados
conceituais, ou mesmo à "orientação para o infinito",
é inconsistente. De fato seria preciso demonstrar que os gregos
sempre pensaram que os caminhos navegáveis fossem infinitos, o que é
absurdo. E se de fato a hipótese de um cosmos infinito pudesse já
existir na Grécia, não era favorecida no mundo antigo, sendo como
todos sabemos Aristóteles o limite da cosmologia finitista,
geocêntrica, que precisou ser ultrapassado para instauração da
concepção moderna.
A
inconsistência persiste em algumas formulações de Aubenque, como
já em Nietzsche e Heidegger. Aubenque afirma, pois, que "a
verdadeira origem do conceito aristotélico de prudência não deve
ser buscado na phrônesis platônica, ms na prhônesis da tradição,
à qual Aristóteles se refere, aliás, explicitamente" (op.
cit. 247). O conceito de tradição não é porém esclarecido, entre
produções da cultura letrada e ethos "folk", exceto onde
Aubenque recolhe todas as fontes eruditas que examinou como "temas
que pertencem às velhas camadas da sabedoria popular grega" (p.
257). Não havendo porém demonstração
do uso popular.
Aubenque
pesquisa expressamente o uso da palavra em Homero, os pré-socráticos
especialmente Heráclito, a literatura médica e a dramaturgia. Mas
refere-se assim à evolução da língua comum, mostrando como já
assinalamos que nela o termo não se cindiu nos usos intelectual e
popular, ao contrário do que geralmente ocorre. Ora, se Homero é a
prova, já que a língua grega que ele usa é arcaica relativamente à
época dos filósofos em que o grego se encontra muito mudado, porém
quanto à phrônesis mantendo-se o sentido, Heráclito aparece
primeiro como pensador avesso à multidão, porque esta segue "idía
phrônesis" - cada um seu pensamento próprio - mas ele,
inversamente, o que é comum, tó Kinón (p. 251).
Assim,
conforme o próprio Heráclito,
não compreendemos o que é a "phrônesis"
do uso de
cada um, se ela não é esse "pensamento"
do comum
conforme o uso dele mesmo.
A
definição do que é comum não é o imediato, é o inferido, a
despeito da prática. Como
qualquer cientista social sabe, do
contrário não haveria várias teorias sobre o que é a prática,
interligadas àquelas sobre
como se pode vir a saber. Porém
aqui a decalagem de teoria e prática atingindo o próprio
significado da palavra
suposta por Aubenque
comum. Pois, não obstante, a
concepção central ao argumento da constância
do sentido desde Homero até Aristóteles sobre a phrônesis,
em Aubenque,
é que encerra "a
ideia de limite, através do qual aparecia um dos traços mais
constantes do espírito grego",
de que não se seguiria portanto diferença notável de Homero e os
outros.
A
seu ver, Heráclito está referenciando um Logos
que ultrapassa os homens, mas que neles reside também, pois o
erro mais grave é opor "sua pobre individualidade ao universal
que está nele'. (p. 251)
Porém assim não se explica
a idéia popular de individualidade, ao invés da
facilmente comprovável lacuna
do popular quanto à constatação da oposição do
logos como razão ou
pensamento teórico,
e a
prática.
Aubenque
mostra por outro lado que se em Homero a phrônesis é um pensamento
não apenas intelectivo, mas abrangendo o envolvimento emotivo, de
fato isso não tem
importância para efeitos de distinção do sentido de "pensamento",
já que em geral ele não
distinguia funções humanas
especializadas. Seria excessivo aqui mostrar como de fato a opinião
de Aubenque não coincide totalmente com a de Snell, que entretanto
cita nesse ponto junto a Festugière.
Para
Snell, em "a cultura
grega e as origens do pensamento europeu", a
representação do homem em Homero era de todo incompleta, não
formando um todo coerente
individualizado, e isso
porque toda a volição e nexo de motivos da ação restrigia-se aos
deuses que sendo
responsáveis pela ordem natural, atuavam sobre funções
humanas específicas.
Em
todo caso, entre
os pré-socráticos Aubenque
informa que o uso de prhônesis
exibe sim a distinção. A
prhônesis é
pensamento práico, diverso de noein,
o sentido especializado de pensamento racional. Aristóteles teria
segundo Aubenque errado,
nisso ao menos seguindo Platão,
ao supor que esse sentido prático era empírico, sensista
- em Parmênides,
Empédocles, Anaxágoras, Demócrito e mesmo
Homero.
Pois de
fato significava apenas que o
prhonein tem domínio
limitado de aplicação, assim como ter um sujeito específico, o
Homem - o verbo não sendo
utilizado a propósito do pensamento divino.
Assim,
se os deuses não precisam de prudência porque já tem o saber, não
há quanto ao pensamento divino o uso que na literatura médica
Hipócrates faz de prhonein como pensar de modo sadio - com domínio
de espírito, por oposição ao paraphronein
como pensamento patológico ou ao maínethai
como pensamento delirante. Aubenque
diz aqui algo estranhamente que "prudência" não é,
portanto, exatamente o mesmo que "temperança" - não
obstante o jogo de palavras do Crátilo, em que Platão explora a
etmologia comum de phronesis
e sophrosine. E que a
fórmula do Crátilo ressoa o "repertório da
parenética médica popular",
enquanto a literatura hipocrática explicita o melhor meio de
conservar a prhônesis, o pensamento livre,
condição de saúde orgânica inversa à embriaguez,
indigestão, sono, como a
enfermidades, é seguir algumas regras de regime. Aqui transita-se a
ideia de organismo à de saúde, pela ideia de regime.
Mas só por
analogia o mesmo trânsito se
verifica quanto à phrônesis na acepção de virtude relativa ao
mundo da vida, privada ou pública,
como "atitude de respeito do homem a propósito de si mesmo, dos
outros homens e dos deuses" ,
explicando-se assim a aparente estranheza. (p.
255)
Ora,
haveria desse modo pleonasmo
na expressão
de Demócrito que utiliza a prhônesis ajuntando a exortação de
"pensar como convém" - prhonein a dei -
quando se sofre, como algo virtuoso. Pois
em sentido orgânico médico,
psicológico ou deontológico, contrariando a ideia de fixidez da
palavra, Aubenque
afirma que desde o que se poderia acusar em Demócrito, o dito
pleonasmo "será cada vez mais sentido como tal', uma vez que
prhonein é sempre
mais, e não deste o início,
afirmada como " o pensamento sadio e como é preciso" (p.
256).
Atinge-se
no terreno dramatúrgico, onde
o termo phrônesis (prudência)
quase não se usa, mas o verbo phronein
como pensar nesssa acepção de prudente é abundante, a
correlação pela qual anthrópina phronein,
o sentido restrito do pensar ao homem, "deve ter sido sentido
rapidamente como um pleonasmo".
Enquanto que "athanata
phronein", o pensamento
enquanto prhonein
imortal devia soar nesse período
dos dramaturgos como
contradição em termos. Ora,
a partir daí, dessas ideias de limite e regime quanto ao pensar
sadio, do homem e
ajustado ao homem,
natural de toda a espécie e
virtude só de alguns homens, já
vimos que
Aubenque aportou de fato a uma bifurcação do pensamento popular e
do filosófico. Aquele cingindo o homem ao ethos do
seu phronein,
este fazendo-o tender à ciência como logos igual ao dos deuses.
Assim o pensamento popular tendeu à censura das pretensões
filosóficas.
Para
Aubenque se quanto à
phronesis e phronein,
trata-se pois
na totalidade da cultura grega,
de uma unidade do sentido na multiplicidade dos usos,
Aristóteles na verdade inova, pois:
a) restringe toda a sua ética à raiz popular da limitação,
coibindo situá-la em nível epistêmico;
b) restringe a episteme (
ciência ) possível
ao mesmo limite ético, isto
é, humano; c) ultrapassa a
limitação popular ao encaminhar
a ética na mesma metodologia
que a episteme (metafísica),
da tendência ou imitação de Deus como sujeito absoluto do saber,
a imortalidade
nossa "tanto quanto possível".
Mas
quanto de possível? A resposta definiria o intervalo exato entre os
homens e os deuses, como entre o falso e o verdadeiro, porém ela não
é precisa. Aubenque esclarece a inovação de Aristóteles na
ética-semântica da phrônesis: "Para o homem, contentar-se com
sua condição seria frouxidão, mas, para aultrapassála não basta
querer e acreditá-lo seria desmesura". Ora, Aubenque e
Aristóteles são aqui bem oportunos à desconstrução do discurso
da oposição entre o maquínico e o humanístico, que se tornou a
fórmula da metafísica em Derrida. Pois a imprecisão torna-se
axial, em seguida: "Assim, ao mesmo tempo em que Aristóteles
pensa ter conjurado o antigo escrúpulo," do vulgo contra a
ciência "o encontra mais estreitamente circunscrito, é
verdade, mas sempre presente: o escrúpulo residual mas
indestrutível, que exprime a distância infinita, mesmo que seja
apenas infinitesimal, que separa o homem de Deus" (p. 273).
Nessa distância, seja quanta for, o que se escava não se define,
entre a natureza e a cultura, como entre o pré-estabelecido e o vir
a ser.
O
pós-estruturalismo perpetuou a oposição estruturalista ao
humanismo funcionalista precisamente por aprofundar o ponto de vista
do sistema, isto é, da máquina. Porém Derrida, quem mais teve
êxito aí devido a manejar o instrumento crítico bem mais do que
perfazer novo dogma, também foi vítima da apressada dedução de
Nietzsche como artificialista. O que na verdade verifica-se tão
pouco, que ao considerar o motivo da conservação por Parmênides,
do seu antigo modo de pensar, na extensão do poema consagrado porém
ao novo, felicita-o. Essa "consideração paterna" a
propósito do fruto de sua juventude, "exatamente quando através
dela um erro poderia insinuar-se, é um resto de sensibilidade humana
numa natureza quase transformada numa máquina de pensar, para
Nietzsche esse estatuto significando uma inteligência "inteiramente
petrificada pela intransigência lógica".
Se
conforme Derrida sempre descobre, a incoerência humanística
é por sua vez sempre
teorizada por meio da demonstração de nada além da máquina,
como o dever-ser e o
pré-estabelecido, e isso é a metafísica, não compreendemos porque
Niezsche e Heidegger a seu ver escaparam
tão completamente ao destino fatal. Importando
à nossa pesquisa das raízes aristotélicas do pensamento de ambos,
temos encontrado precisamente o oposto, e
quanto à Aristóteles, vemos que essa consideração esclarece o que
nos pareceu a grande contradição da tese de Aubenque.
Mondolfo cobre devidamente a
polêmica dos intérpretes de Aristóteles, entre o determinismo
mecanicista e o
finalismo, que em seguida examinaremos.
Ela se origina na própria Antiguidade, ora
pela crescente ênfase da contingência nas
pesquisas
naturalistas
do Aristóteles
tardio, ora
pelo lugar que ocupa a
crítica do peripatetismo pelos estoicos e a defesa dele
pelos continuadores,
especialmente Teofrasto.
Ao relacionar a esta
controvérsia, a tese
aubenquiana de
uma ontologia aristotélica que sendo irredutível à teologia, seria
uma ciência dos limites
humanos da ciência, e
especialmente a
extensão desse pensamento da contingência à ética da imitação
de Deus, teríamos
o equivalente
à denegação da ética
como produção ou reprodução mecânica de
uma causalidade
eficiente. Esta que
o próprio Aubenque entretanto conota,
pela constante referência à
questão da técnica
como o modelo expresso
da limitação
metodológica da ética
em Aristóteles,
evitando porém o reducionismo,
por onde a questão permanece algo lacunar, sem demonstração do que
o impede.
A meu ver, a lacuna só
se preenche se o lugar
da ética na economia da obra aristotélica
fosse precisamente
salvar a teleologia, ao
que a solução pela imitação de Deus conduz. Mas
isto como vimos destoa
da tese
de Aubenque que nem
pelo determinismo, nem pelo finalismo, pronuncia-se pela
contingência como via
preferencial do pensamento aristotélico.
Apenas
deveríamos lembrar desde agora, que
o conceito de contingência é ambíguo em se tratando de
aristotelismo, entre as notas de acaso e limitação
da causa fenomênica à
que ele designou "eficiente".
Se bem que a teoria das causas em Aristóteles é de conhecimeno
trivial, vale reproduzir o exemplo
da estátua, em que a causa final,
o para que serve ou
porque é feita, é o
objetivo estético ou religioso;
a causa formal é o modelo;
a causa eficiente é o artista que a faz;
e a causa material é o bronze do qual é feita. A limitação
fenomênica à
causa eficiente seria interpretação
empirista de Aristóteles, que mesmo assim se limitaria ao pensamento
metafísico antigo,
já que conforme a ciência moderna teria também que abarcar a
material. Mas a
metafísica do ato e da potência material justamente o coibe, pois a
matéria não é assim qualificada como referencial da ação, isto
é, da
concatenação fenomênica.
Se
Aristóteles realmente chegou tardiamente
a uma
suspeita contra o finalismo,
que havia sido porém o núcleo
de sua física do motor dos céus,
ou ao menos à consciência da dificuldade de o demonstrar na
pesquisa de fenômenos naturais,
isso significaria para
Mondolfo uma visão da
natureza como
processos atuando
por nexos intrínsecos,
a cuja compreensão se limitaria o objetivo da ciência, ao invés de
alcançar a definição da substância como causa formal e a
concatenação ao todo.
Quanto
ao acaso, para Aristóteles é raro, e como Bréhier enfatizou,
demonstra por si mesmo
a teoria das causas, já que como noção popular é relativo ao
acontecimento, assim como a matéria à forma.
Ele se define por uma analogia com a espontaneidade, que com relação
à natureza, é o mesmo que o acaso com relação à "finalidade
intencional" da
vontade (Histoire de la
philosophie, Paris, Quadrige/P.U.F., 1989,
p. 181).
Torna-se necessário deter-se com maior atenção ao texto de
Bréhier.
Bréhier considera que
Aristóteles como naturalista, define a natureza,
na acepção do que é comprensível ou cientificizável,
por uma certa relação intrínseca com a matéria, enquanto
a arte se define pela mesma relação, mas extrínseca. Bréhier
concede grande importância à questão do movimento na
filosofia aristotélica da natureza,
que em sua teoria
cinética teria rompido
o limite vigente do
conceito de movimento como indefinido
ou "outro",
como era desde
Parmênides a Platão.
O
movimento em
Aristóteles é pois
atuação da forma na matéria,
como expressamente em Bréhier, do atual ao virtual. É
a intelecção imanente da natureza,
e se define por referência ao estado final para o qual tende.
Mas não se encerra a imanência nos limite da teoria do devir, que
em Aristóteles é a alterância dos opostos da geração e da
corrupção como nascimento e destruição. Em
devir, é preciso lembrar que o movimento parte do contrário daquilo
para o qual ele tende,
só tem lugar entre contrários, e
se guarda relação com o ser na matéria, não se trata da
generalidade. Não por ser vivente de um certo tamanho, a criança
cresce, mas sim por ser criança, ou seja, ter a possibilidde de
atingir o tamanho adulto.
O conceito de movimento já não admite generalidade, mas se confunde com o de função, de modo que os contrários em que pode have movimento precisam ser de um mesmo gênero, como de uma cor à outra, de um lugar a outro. Jà os gêneros supremos de movimento são gêneros de ser que admitem contrários, ou entre as categorias, as de qualidade, quantidade. Assim os gêneros de movimento são três: alteração, aumento e diminuição; movimento local. Todos estes principiam pela privação de certa qualidade e chegam à possessão desta qualidade.
O conceito de movimento já não admite generalidade, mas se confunde com o de função, de modo que os contrários em que pode have movimento precisam ser de um mesmo gênero, como de uma cor à outra, de um lugar a outro. Jà os gêneros supremos de movimento são gêneros de ser que admitem contrários, ou entre as categorias, as de qualidade, quantidade. Assim os gêneros de movimento são três: alteração, aumento e diminuição; movimento local. Todos estes principiam pela privação de certa qualidade e chegam à possessão desta qualidade.
O
ato que anima o movimento é ser, como substância anima
a mudança mas não muda por si, ou seja, os movimentos possibilitam
a geração mas não se confundem com esta. Por
outro lado, pela negação do vazio Aristóteles nunca pôde pensar o
princípio da inércia
que Galileu descobriu inteiramente contra a física aristotélica,
e
conforme observa
Bréhier, Aristóteles
até mesmo o imaginou porém como o impossível que demonstraria a
sua própria tese da
negação. Se
houvesse o vazio, seria possível um
movimento retilínio contínuo,
O movimento
retilínio é sempre limitado como uma trajetória
com dois estados, inicial e final,
contrários um ao outro como alto e baixo, direita e esquerda, frente
e trás. E entre cada
par de contrários não poderia haver
uma circulação
infinita de retilínios
contrários, justamente
porque cada direção é contrária da outra, assim
um movimento é composto de mudanças de direção
que são finalizações de cada trajetória, ao
invés de ser único.
(p. 188) Também podemos notar que o movimento retilínio contínuo
Aristóteles pode ter
obstante negado poder
existir pelo fato do
mundo ser espacialmente
finito,
mesmo que eterno.
Já
o movimento circular, sim, é único, em que os pontos final e
inicial coincidem. Mas assim ele não é definido
como infinito
propriamente, e sim completo (uma direção não exclui a contrária)
e simples (não segue direções diferentes).
Bréhier
comenta o quanto foi custoso ao pensamento moderno se desembaraçar
dessa cinemática aristotélica, e define a irredutibilidade do
seguinte modo.
Aristóteles não define o movimento como na física moderna, pelo
que ele é em cada instante sucessivo, mas pelo que ele realiza no
ser em que ele se situa. A
teoria aristotélica foi porém revolucionária na antiguidade,
extraindo consequências que
rompem com o
platonismo, mas também que inviabilizaram por sua coincidência com
o senso comum, a adoção do atomismo já intuído por Demócrito.
Para
Bréhier a imanência do movimento natural não implica que
Aristóteles fosse um pensador da contingência do mundo. Pelo
contrário, sua filosofia seria uma teleologia radical, que não
necessita da hipótese platônica do demiurgo para imprimir
a forma na matéria, porém assim para Bréhier colocando a teologia
astral acima
da metafísica, o que vimos ser para Aubenque o inverso,
distinguindo-se também assim do mecanicismo como conveniente à
teoria atômica.
Havendo
dois tipos
de movimento, como
artificial e natural, na mentalidade antiga, Aristóteles limita o
mecânico ao artifício.
Movimentos artificiais são aqueles produzidos por um agente externo
ao movido, como quando jogamos
para o alto uma pedra. Os movimentos naturais, correspondendo ao
desejo interno e à
representação do ato próprios ao
ser que se move, nós
só o compreendemos como a este desejo e representação.
Inversamente, se as máquinas inventadas pelo homem reproduzem
movimentos artificiais, então estes podem ser reduzidos a mecânica,
mas enquanto possíveis pela remoção do obstáculo ao
retorno do movido ao seu lugar natural, aquele de onde um
impulso ou a tração
os deslocou. Não teria
sentido portanto, explicação mecanicista do movimento natural.
Por
outro lado, Bréhier observa que Aristóteles não deixa de fornecer
explicação sobre como os elementos, os animais e o céu se movem
fisicamente. Aqui o
mecanicismo retorna. Pois ao
contrário da mera remoção do obstáculo à acomodação do seu
lugar próprio, Brhéher
afirma que segundo Aristóteles, ao mover-se o animal se conforma ao
seu desejo até onde lhe permitem as condições mecânicas do
movimento e a sua constituição orgânica. Não é tanto que haja
contradição aqui, se o rigorosamente mecanicista é circunscrito ao
sentido de ser reproduzido pela máquina.
O que Bréhier informa nesse trecho é que para Aristóteles, os
elementos, os animais e o céu,
cada um destes três apresentam requisitos
físicos próprios ao movimento características
próprias, sem
confundirem-se entre si,
nem mesmo por analogia.
Se o que vimos entender
Aristóteles por definição do movimento exclui o atomismo como qualquer explicação puramente mecanicista, isto é, que exclui a diferença de natureza específica do movido, e, quanto a esta, põe em ato a noção de alma, ele também se opõe pelo mesmo motivo a uma explicação animista como a platônica, em que uma mesma alma do mundo é responsável por todos os movimentos que se verificam nele.
Aristóteles por definição do movimento exclui o atomismo como qualquer explicação puramente mecanicista, isto é, que exclui a diferença de natureza específica do movido, e, quanto a esta, põe em ato a noção de alma, ele também se opõe pelo mesmo motivo a uma explicação animista como a platônica, em que uma mesma alma do mundo é responsável por todos os movimentos que se verificam nele.
O
requisito físico do movimento peculiar a cada natureza de ser, é um
ponto fixo em torno do qual as partes podem mover-se. Em se tratando
dos animais, os pontos fixos são as articulações
em torno das quais podem mover-se os segmentos do corpo,
e a terra sobre a qual
o corpo se apoia ao mover-se.
Bréhier mostra ser errônea a suposição que alguns fizeram do
ponto fixo como o que igualaria os
movimentos
animal e
celeste, tratando-se ao
invés de cada um destes requisitar pontos fixos diferentes. Assim
os do céu, que na teoria geocêntrica gira em torno da terra, seriam
os polos, como puros pontos matemáticos.
Cada
um dos três tipos de móveis requer também um motor específico,
que não pode porém ser por sua vez móvel. A natureza, motor
dos elementos; a alma
representativa, dos animais; e Deus, o motor do céu. Porém é nesse
sentido que Bréhier reduz a ciência aristotélica à teleologia
teológica. A noção de motor imóvel, que não se restringe à
astronomia mas integra a cinemática, conforme
Bréhier "coincide completamente
no fundo com a noção
de forma ou ser em ato."
(p. 197)
O
que integra a imanência do movimento à transcendência da
substância, na
compreensão da ciência natural, ao mesmo tempo que a ambos torna
metafisicamente irredutível.
Não há nada de
transmissível, do motor ao movido, como respectivamente do ser em
ato, que move ordenando, à matéria em que tem lugar o movimento,
seja o conceito de
matéria primeira como possibilidade indeterminada de mudança, ou de
matéria segunda, deteminável como o bronze da estátua. Contra
Platão, que pensava o motor igualmente móvel, Aristóteles
argumenta que se fosse assim coincidiriam os dois estados inicial e
final do movimento, o
frio com o quente, o ignorante com o sábio. Mas
por esse meio, aporta
Aristóteles ao motor imóvel do céu,
Deus que é pensamento ou ato puro, energeia sem dynamis, substância
em si.
Aqui
há uma questão interessante, porque para Bréhier, a teleologia
radical de Aristóteles, se é a do ato puro, não obstante é uma
filosofia do movimento. A meu ver, de fato é uma filosofia da
identidade, pela mesma razão de ser teleologia atual.
O
trecho em que Bréhier enuncia sua tese sobre que "A
teologia de Aristóteles é
o ápice da metafísica
e da física. Ela
resolve ao mesmo tempo a questão do motor dos céus e da
substância..." (p.198),
a meu ver expressa bem seu modo de ver,
em termos de inquebrantável continuidade
que institui porém,
enquanto filosofia do movimento, a
irredutibilidade radical
entre a imanência e a
transcendência do pensamento puro.
A continuidade se
preserva por isso que é ainda como
física que se explica
a condição do movimento uniforme, na acepção de único e
imutável, do céu. Trata-se da "inalterável
quintessência ou
éter",
capaz do movimento circular, tendo neste sua razão de ser, o motivo
pelo qual ela existe. Já
o motor imóvel do céu, Deus, por sua própria imutabilidade,
explica a perfeita uniformidade dos circulares movimentos celestes.
E seria natural que a substância em si, Deus, fosse motor, como a
imutabilidade que as coisas móveis tendem a imitar "tanto
quanto lhes é possível", uma vez que
conforme a Metafísica (4, 7, 1072 b, 2)
"Deus move o céu como o amado move o seu amante".
Mas
assim também a teologia resolve a questão da substância, pois se
como Platão, Aristóteles a pensa incorporal, independente da
matéria, enquanto Deus
e ato puro ela
não é Ideia,
o correlato essencial
da ciência. Mas
a ciência mesma, sendo Deus substância pura, que não depende da
potência material para se realizar, de modo que nele "o
pensamento não tem outras condições que ele mesmo...",
sendo o pensamento independente da matéria. Todos
os demais seres são substância apenas como reunião de forma e
matéria. Aqui Bréhier
ressoa realmente a tese de Aubenque, porém com consequências
próprias, que deslocam a centralidade
da ontologia pela
teologia.
As
substâncias engendradas materialmente são imitações da
imutabilidade e identidade essencial de Deus enquanto substância
imaterial ou pensamento puro, porém Deus não desloca a estas
substâncias como referencial da ciência. Ela é pensamento em ato a
partir da teologia, porém não se restringe como teologia a uma
ciência do seu objeto. Deus é inacessível ao ser humano, que deve
encontrar seus objetos de pensamento na imanência do mundo.
Bréhier
não considera que haja nisso qualquer ambiguidade quanto ao lugar da
teologia na economia da obra aristotélica. A
princípio, ele é de todo oposto ao do platônico mundo das ideias.
A hesitação de Aristóteles entre o monoteísmo e o politeísmo já
o demonstra. A unidade da organização do universo,
como unidade da causa final, inclina
ao primeiro como à
expressão de um monoteísmo pagão que se utilizaria até mesmo do
verso homérico: "não é bom que haja muitos mestres".
Porém a
composição
do universo, os seres
referenciais da teologia como inegendrados e incorruptíveis,
que Aristóteles estabelece como certo
número de esferas
concêntricas dotadas de movimento próprio e independente do
movimento dos astros, exige
inversamente que haja o mesmo número de motores distintos, o que
conduz ao politeísmo.
O
que Aristóteles conserva de Platão é a espessura da realidade
essencial às possibilidades do saber dos seres materiais que somos,
mas se essa
impossibilidade motiva a hesitação entre monoteísmo e politeísmo,
explica também "o lugar real da teologia de Aristóteles",
que não consiste numa ciência de Deus em si mesmo,mas sim em sua
"função cósmica, como produtor da unidade do mundo, unidade
que permite o conhecimento racional"
(p. 199).
Mas
onde Platão uniformiza, Aristóteles hierarquiza. A hierarquia dos
motores, natural, anímico e celeste, vem da ordem de Deus, motor
dos céus, ao invés de por pura espontaneidade, e
ordem que se transmite pelo movimento dos céus à terra, A ciência
da natureza - assim definida - consiste expressamente na apreensão
dessa hierarquia, segundo
a qual cada termo é a causa final que ordena o termo inferior, e
pela qual "todos
os seres naturais tem
algo de divino"
(p. 200). Aqui, sim,
parece-me que Bréhier expressa o verdadeiro lugar da teologia, como
teleologia radical, na
sistemética
aristotélica.
Mas é curioso que ele, para demonstrar como essa
posição central da teologia não
implica que o seu objetivo seja o conhecimento de Deus em si mesmo,
insista que tal conhecimento não tem nenhum papel em moral e
política, porém
escolhendo
para ilustrar o sentido da hierarquia essa citação que é da Ética
a Nicômaco (IX, 14, 1153, b, 32).
Examinando agora a
controvérsia de
determinismo e teleologia na interpretação do aristotelismo,
vemos que Mondolfo
pesquisa a elaboração do conceito de infinito desde a época
dramatúrgica, que
coincide com o início da filosofia,
até Aristóteles. Assim ele não principia por uma separação
radical de mito e filosofia, mas estabelece o liame com a religião
naquele início,
cobrindo o percurso conceitual desde as seitas órficas até
Aristóteles.
A
intenção do texto mondolfiano
é contrariar a
concepção habitual da negação do infinito por Aristóteles, que
assim poderia ser visado em homogeneidade com a tradição grega do
ilimitado em vez de
como um cientista crítico do senso-comum.
Lembrando que os gregos
não tiveram
representação criacionista
em sua religião. O universo é eterno e agheneton,
em grego não-gerado,
incriado.
Estabelece Mondolfo desse
modo a
circunscrição da questão filosófico-cosmológica
do infinito
na amplitude da cultura
tradicional, assim pré-determinando o rumo da conclusão possível.
Utiliza o artigo Eternity,
de Mackenzie, para delimitar
as três formas da ideia de eterno que evoluem na filosofia grega,
subordinando os vários referenciais do infinito
- que em Bréhier abrange conforme Aristóteles o tempo, o número,
a grandeza geométrica como divisibilidade, e o devir -
à problemática do
tempo.
As
três formas especificadas
por Makenzie são a
eternidade
como o que se estende infinitamente no tempo;
como aquilo que é
absolutamente extratemporal;
ou como aquilo que inclui o tempo, mas o transcende. Mondolfo
reduz as três à
posição comum de serem "negação de todo limite, ou seja,
concepções do infinito", e a este subordina,
nesse caráter de interpretação cosmológica, às concepções
cíclicas. Simbolismos
ligados à geometria
do círculo, e/ou
eterno retorno do ano,
alcançando a intuição do "grande
ano"
à exemplo de Heráclito, quando todo o universo se destroi para
renascer e repetir
todo o seu curso.
A
base aí é a semântica do tempo, que em grego se compõe com a da
eternidade. Aión,
o tempo, o mesmo
que aevum
em latim, é a forma
sintética de aeí,
sempre, e on,
o que é. Aeí
on, "sempre
existente",
tem o mesmo sentido em geral que aeí
guinómenos, sempre
em devir, vindo
em Platão o
eterno na forma do
aionios.
Em
Platão, entre o tempo e a eternidade a relação é de semelhança
(homoióma), imagem ou imitação, consubstanciada na ordem do
ciclo, o movimento
celeste que a alma universal impulsionou. O
imitado pela ordem do mundo é a permanência sempre igual das ideias
do supra-mundo, sendo porém este último o único real. Platão
introduz a metafísica precisamente
como essa
transcendência da realidade sobre a aparência, e assim vemos que a
perfeita coincidência do tempo que transcorre e retorna com a
eternidade que sempre é, de algum modo se interrompe
porque nesta já não subjaz qualquer noção de devir,
movimento ou sucessão.
O que Mondolfo não
pretende negar,
mas interpretar de modo a ressaltar como a tradição, a semântica
mesma dos termos, teria que estar de algum modo preservada no
pensamento que os utiliza.
Mais
quanto à cosmologia em
si mesma a preservação
se demonstraria, pois o tempo se concretiza numa ordem alternativa à
do real porque tem
início,
nascendo com o céu.
Mondolfo aqui é algo irônico,
pois se o seu
fio expositivo endereça a cointinuidade
quando geralmente a irrupção metafísica é o que chama a atenção
como uma verdadeira mutação,
nesse ponto é ele quem ressalva a
diferença na cosmologia. Platão introduzindo um início do tempo
que se sempre é,
como a eternidade, contudo se destaca como o mundo aparente do mundo
real. Enquanto
que, como Mondolfo
assinala,
geralmente se atribui a Platão sua inserção na tradição do
agheneton - não
obstante ainda,
Aristóteles
ter a ele atribuído ruptura a propósito, coerente com o Timeu.
Os
intérpretes se apoiam,
segundo Mondolfo, na
explicação platônica do tempo e do céu cuja criação equivale à
reprodução imitativa da eternidade, e portanto devem
ser consoantes
ao
modelo que é a eternidade
mesma enquanto
permanência. O mesmo
problema é o da alma do mundo, criada e eterna, que a interpretação
resolveria também por essa noção de "coeternidade", como
em Baumker (p.110).
A
meu ver há aí por um lado inconsistência
sintomática da fantasia metafísica. Por
outro lado, o
que a fantasia é, a saber, a intenção de anular o devir enquanto
vir a ser da contingência pura, reduzindo-o ao resíduo pensável
como necessidade puramente inteligível. Assim
o pensável do tempo está na realidade fora do tempo concreto da
duração, reduzido ao sistema numérico da astronomia. Ora,
a antinomia aqui não seria tanto entre os tempos matemático e da
consciência, Platão e Bergson. A duração pura, forma
da consciência, Bergson
a conceitua justamente pela metodologia da divisão platônica,
segregando-a de mistos de forma e matéria
em cada conceito, até depurar a própria evolução do
processo mesmo em que acontece, a concretude
das espécies, e
conceituá-la como evolução qualitativa, exclusivamente espiritual.
A transcendência, como
da consciência ao cérebro, da evolução à materialidade, é bem
platônica.
A
antinomia é a meu ver
estabelecida, sim,
entre os dois tempos do
ideal e da História,
Platão e Heródoto. O
que será explícito em
Aritóteles, colocando porém na atualidade isto um problema de muito
maior magnitude, devido
à influência de Aristóteles na sociologia política em sua relação
com a filosofia, como na problemática das
relações Arendt- Heidegger, assim como Barbara Cassin e Julia
Kristeva tematizam engajando-se de fato na polêmica. Kristeva
observa o quanto ela
está relacionada à interpretação da ética aristotélica, desde o
curso
de
Heidegger sobre o
escrito platônico O Sofista, em 1924, que Arendt assistiu. Arendt
se coloca contra a interpretação de Heidegger, sendo referenciada
por Kristeva como de fato a tendo corrigido. Aqui ocorre a disputa,
não pró ou contra Aristóteles, ou
pelo melhor meio de liquidar a metafísica, mas
pela
posição da melhor
relação de antigos e modernos,
traduzida como imbricação aristotélica de filosofia e história,
tendo por liame o ético
e o político.
À frente voltaremos a esse ponto.
Eu
não creio que em Platão a eternidade preserve a identidade
semântica do termo tempo, mas ao inverso, que é o seu oposto. Mas é
por intuição corrente nesse sentido que se considera a metafísica
algo incongruente com a noção de infinito,
relacionada à extensão do universo
ou à natureza real dos
fenômenos. Se bem que
Platão e Aristóteles não concordem sobre esse ponto, ao que me
parece Aristóteles
nisso apenas aprofundou
a intenção reducionista do platonismo, de modo a purgar aspectos
muito incoerentes da exposição.
Mondolfo
permite apreender que a platônica já é representação
mais ordenada do tempo,
em que o ciclo é explicado pela intervenção do que Aristóteles
designaria uma causa
eficiente, problematizando
de certo modo a assunção primitiva da eternidade cíclica que
aporta a Heráclito desde os órficos e dos caldeus como influência
oriental. Nessa
representação anterior temos o tempo que existe sempre e assim é a
eternidade mesma como realidade
universal sem causa extrínseca.
É a reprodução,
na forma cosmológica,
do simbolismo da trokhós
tes hemarmênes,
a roda do destino.
A
roda do destino é
percebida de uma forma dual, com um aspecto bom e um mau.
O aspecto mau relaciona-se com a subsunção das almas ao ciclo das
encarnações, a partir de alguma mancha ou pecado inicial. O aspecto
bom é o equacionamento
com o kykla
chrónoio, os
"ciclos do tempo". Sendo
"chronos"
um outro designativo
grego
do tempo, estes ciclos repetem-se ao infinito, enquanto cada
encarnação das almas sugere uma descontinuidade. Em
Platão a mesma dualidade se inscreve pela existência de duas almas
do mundo, a perversa e a boa. A
perversa
é incriada, o demiurgo tendo
criado a
alma
boa.
Nas
seitas órficas,
o caráter cíclico das
encarnações é a transposição religiosa da ideia que une os
conceitos de círculo e eternidade, a coincidência de início e fim
da extensão da
circunferência, em
cada ponto que compõe o
círculo. As
encarnações da alma
sucedem o seu estado
original, igual a Deus,
ou em Deus, e se sucedem com objetivo de restaurar esse estado,
unindo pois o fim com
o
princípio. A ideia de eternidade é essa união
do fim com o princípio, e se na duração algo é finito, como o
estado encarnado, é porque não a pode realizar. Conforme
Mondolfo, esse é o sentido da declaração
da deusa, em Parmênides: "não importa onde eu comece, pois
para lá sempre voltarei".
A
figura do ouroboros, a serpente que faz um círculo ao devorar a
cauda juntando-a assim à cabeça, consta em Alcmeon como o símbolo
deste infinito circular,
se bem que ele pudesse
estar consciente do fato de que a representação perfeita deveria
excluir a de
extremidades como cabeça e cauda,
e o símbolo seja apenas expressão da ideia geométrica de círculo.
Alcmeon é referenciado em um dos "problemata"
Aristotélico, em que se discutem
as três possibilidades de se entender o "antes'
e o "depois"
temporal infinito. Como sucessão retilínia, como prega que obriga
ao retorno desde uma extensão percorrida, ou como círculo.
Com relação a esta
última representação, é que Alcmeon é citado, para objetar o
"problema" que
nela nenhum
ponto poderia ter função determinante, ao inverso do que sugere as
extremidades da cabeça e da cauda do símbolo ourobórico.
Um
dos escritos atribuídos a Hipócrates também assim considerava,
tratando dos emaranhados de veias que nasceriam cada um de uma só,
porém destas originais o testemunho hipocrático afirma não saber o
princípio e o fim porque "descrevendo um círculo, não se lhes
encontra o princípio."
(p. 72)
Heráclito, assim como
Aristóteles na Física,
repetem essa concepção do círculo em que coincidem os contrários.
Até
aqui, sobre o movimento circular,
coincide totalmente,
em Mondolfo, Aristóteles
com os pré-socráticos a quem chamava de "fisiólogos"
para os limitar ao
pensamento pré-metafísico. Mas
como a intenção de Mondolfo é como vimos, contrariar as
interpretações habituais que posicionam Aristóteles na contra-mão
do que teria sido a tradição grega do infinito, o que ele
entretanto perfaz é
uma contestação à coerência do pensamento aristotélico, de modo
que a única saída a
fim de salvá-la teria
que ser a concordância com a hipótese dele afirmar o infinito,
situando pois na irreflexão
dessas dificuldades as
interpretações correntes. Salvá-la
pois, mudando a concepção que se tem dela, já não só quanto à
afirmação do infinito como também da natureza deste, e é assim
que vem a polêmica
do determinismo. Sempre mantendo a questão do infinito na
circunscrição da
eternidade, o aeí
on como o que é
sempre se confunde com a causa final, Deus, que sendo sempre como ele
é não poderia mudar sua atividade. Porém como Mondolfo faz
ver, a astronomia que Aristóteles descobre não mantem vestígios da
imutabilidade de uma causa sempre igual. As esferas, sendo
inteligências independentes, produzem revoluções não harmônicas
na tendênca comum ao que atuam - as de algumas são simples
resistência
às de outras. A
eliptica tem que ser oblíqua, para que possa explicar a diversidade
das estações e dos processos de geração e de corrupção.
Fatos que Ptolomeu referencia mais tarde "ao deduzir que as
variações do mundo sublunar não são deduzíveis da causa
primeira", conforme
Moldolfo.
Prossegue
este: "é evidente
que esse reconhecimento da realidade dos fatos significasse um
afastamento da fundamentação racional (teleológica) da eternidade
do mundo...", porém conduzindo assim a que "a explicação
dos movimentos planetários e solares e das consequentes diferenças
entre as fases alternantes do mundo sublunar é, pois, determinista e
não teleológica: imposta pelos fatos rebeldes ao sistema finalista
regido pelo único motor imóvel"
(144;5). Aqui
não são tratados a ação recíproca dos opostos como contributos a
um estado de equilíbrio final, mas sim "um alternado efetuar-se
de desequilíbrios contrários".
E
Mondolfo na verdade está enfatizando a contradição aristotélica
destes fatos reportados com a atribuição da Metereologia (I, 2,
339) à dependência do mundo sublunar relativamente aos movimentos
superiores da causa primeira que seria o princípio do movimento em
todas as coisas. Porém
o limite do finalismo seria apenas
o deslocamento da coerência imanente aos fenômenos ao
determinismo dos
processos naturais observáveis.
Coerência que continua
observável,
apenas descontando-se a premissa de que ela só existiria caso
expressasse o desdobramento de uma mesma causa primeira sempre igual
a si mesma.
Assim
porém a eternidade do
mundo pôde continuar a ser concebida,
em Aristóteles equivalendo à negação da destruição
cíclica. Eis em que se
apoia o argumento de Mondolfo, se essa negação pode ser
interpretada
como a infinitização total, já não havendo nem mesmo a
interrupção periódica da conflagração universal. Inversamente,
a crítica estóico-zenoniana a Aristóteles dirigia-se ao
teleologismo mas não para o negar, e sim para o preservar como
demonstrável apenas na sua
hipótese da
conflagração periódica. Assim ele seria salvo, porém por uma
concepção de Deus como providência e não primeiro motor.
Ora,
na
defesa do sistema do mundo aristotélico por Teofrasto, Mondolfo
insiste haver a restrição ao determinismo, até por força do
temperamento de Teofrasto, investigador empirista. Contudo, o que
Mondolfo reporta efetivamente é que permanece "sempre e todo,
sobre o terreno de um alternar-se de fases opostas, explicadas à
maneira determinista, com o contraste de forças contrárias sem
recorrer de nenhum modo a explicações teleológicas."(p. 150).
Porém
como vimos, o que
conduziu ao questionamento do finalismo não foi a alternância dos
contrários, significando "dependência de todo sistema a uma
causa final sempre idêntica, apenas se tivesse podido afirmar um
constante e sempre igual equilíbrio, pela ação desta, dos
opostos". (p. 145)
Mas assim é a "diversidade de fases alternadas na ordem
cósmica", à exemplo da
desigualdade das
estações, o que impede a atribuição da causa primeira como sempre
constante na explicação dos fenômenos.
Ao
invés de contradição, parece que Mondolfo entende a ação dos
opostos em dois sentidos, ora como equilíbrio que anula a
diversidade, ora como essa
ação conjugada dos
elementos que formam um fenômeno a partir, contudo, da ação
irruptiva de algum outro,
este determinante por si.
Por exemplo, refutando
a suposição zeniniana do progressivo decréscimo de água devido à
evaporação constante dos mares, pelo que surgem as ilhas e as
conchas fósseis, Teofrasto menciona o processo inverso de invasões
do mar e imersão de terras.
Mas
essa alternância sendo devida,
ora à
erosão provocada pelas ondas
como na formação do estreito
de Messina, ou
por terremosos e
cataclismos como na
suposta submersão da Atlântida.
O
crucial é pois a oposição lógica
entre dependência de
uma causa constante, e contínua derivação de efeitos antagônicos.
Ainda assim, Mondolfo chega a admitir que nesta segunda alternativa
trata-se de um retorno ou confluência de concepções de Heráclito
e Empédocles, de modo que o finalismo que o sistema aristotélico
enuncia seria apenas a solução mais aperfeiçoada da exigência
causal introduzida por Sócrates.
Para "salvar os fenômenos" Aristóteles tem que
reintroduzir a ideia de ciclo, como alternância dos opostos, mas não
para mudar de fato a
sua premissa da
eternidade do mundo à
qual nenhum contrário subsiste para fazer ciclo. Aristóteles
estaria assim perdido quanto à coerência, finalmente, ao ver de
Mondolfo, porque mesmo
essa concessão que ele
faz sem contudo levá-la a sério além daquilo cujo peso no
sistema teleológico-metafísico
equivale ao de uma pena,
significa ao contrário nada
menos que a renúncia a
todo finalismo.
Pois a teoria cíclica dos fenômenos é a inversão da preminência
do ato sobre a potência, e puramente um determinismo da matéria.
A
alternativa teleológica
seria o
providencialismo estóico. Para Mondolfo, Aristóteles não escapa,
na verdade, mas já antes do eleatismo. Ou seja, conforme
Melisso, admitindo-se a
mudança, mas afirmando-se a eternidade, então prescreve-se
a aniquilação cósmica pela acumulação infinita das destruições
- e toda mudança é destruição. A
saída aí é apelar para a eternidade da alternância dos
contrários, e a própria aniquilação seria cíclica,
seguida pelos
renascimentos consequentes conforme
ao estoicismo e à tradição.
Mas
a questão está a meu ver circunscrita de um modo arbitrário à
física do mundo, como
da eternidade e do
tempo, quando a teleologia aristotélica é uma resposta à exigência
socrática, sim, mas enquanto justamente exigência que transcende a
disciplina física e se encaminha ao
questionamento da sua possibilidade intelectiva.
De fato é uma exigência pós-sofística.
Além
disso, a alternativa em si da teleologia pelo determinismo é a meu
ver já inerente à física aristotélica, isto é, transformada
metodologicamente pela exigência epistemológico-metafísica, e
assim também o questionamento feito pelo estoicismo. Porque na
origem, como exemplarmente em Heráclito, a alternância dos
contrários não é teleologia, não funda a racionalidade do mundo
como sistema de identidade, mas sim como assunção da antilogiké
ínsita ao próprio logos,
e já a Zeus - que quer e não quer ser chamado pelo seu
nome.
A
irredutibilidade é tamanha que inere à própria inteligibilidade
do que se assemelha ou difere, o que podemos aquilatar pela
contrariedade total
entre as noções de dialética heraclítea ou
hegeliana por um lado,
por onde os contrários engendram-se um ao outro; e a socrática, por
outro, em que jamais alguma coisa vem do seu contrário.
Ora,
é por aí que se pode apreender o motivo da defasagem de Mondolfo
quanto à negação aristotélica do infinito em ato.
Ele não se interroga, como vimos, sobre a natureza da causa final, a
concepção de Deus em Aritóteles.
A
qual corresponde à transformação do mito em filosofia
por meio da astronomia,
que Aubenque informa ter estado em curso após Sócrtes. Ou
seja, a estabilização de um dos conceitos religiosos gregos, aquele
que identifica a deidade com o absoluto imutável, com a metafísica,
que assim metodologicamente ampara a astronomia das inteligências
celestes motoras mas
não moventes - ou tendendo à imobilidade perfeita do
motor exterior a todas.
A
identidade imutável dos movimentos das esferas, a regularidade
absoluta, é o que reproduz a perfeição absoluta que é só a do
motor imóvel.
E
quanto a este, Deus
acima de todas as deidades astrais, devemos
lembrar, é pensamento:
idêntico só a ele
mesmo, o ato puro de
toda realidade universal possível. A
causa teleológica do universo,
sendo
a chave
aqui
a
possibilidade enquanto do ser pensável.
Nessa
condição da filosofia aristotélica, o
determinismo, posto
que
não se degrada
no
capricho ou no acaso,
nem
resolve
a alternância dos contrários na solvência deles num
mesmo ser,
não
é
antagônico à teleologia como ao
Real ele mesmo, que,
nas coisas,
é
conforme ao princípio de não-contradição na linguagem. Ser
pensável, pois, significa ser definível enquanto tal, sem confusão
do subjectum definido com qualquer outro ser. Mas em Aristóteles,
para que as coisas sejam desse modo, é porque elas perfazem o
sistema do mundo na mente de Deus, e, por isso, cada coisa que se
realiza conforme seu ser está realizando sua destinação
teleológica conforme ao sistema
da identidade.
Assim
a teologia astral aristotélica
é
depuração de toda interpretação antropomórfica dos mitos
enquanto naturezas divinas reduzidas aos caprichos da vontade,
que vimos antes Aristóteles tratar como distorção popularesca do
mito original, é
redução
ao aspecto naturalista
dos deuses
como
atuações
perfeitamente
regulares das forças naturais,
e
acréscimo, pela via do motor imóvel, daquele conceito requerido
pela metafísica já em Platão. O "epekeina
tes ousias",
o
"além
do ser"
das coisas discrimináveis, como, em Platão, das suas
correspondentes ideias, como o princípio puramente identitário que
confere a cada uma este
estranho dom de ser o que em si mesma já é, a igualdade consigo
mesma.
Em
Platão, o "além
do ser"
é o Bem, que plenifica
as ideias por
analogia atuando
como o sol, luz que permite ver as coisas como são. Em Aristóteles,
a identidade pura é a função do pensamento de Deus acima
de todas as deidades, aquele que
se pensa, o ato puro universal.
O que ele pensa vem
a ser
as ideias separáveis das coisas materializadas, só pelo
intelecto
pensante, o que equivale a dizer que além de Deus, só o homem
atinge a identidade.
Mas esse vir a ser é que faz o problema da exegese. A meu ver, ele é
o ponto sintomático da metafísica, a fantasia da separação de ser
e devir, identidade ideal e mutabilidade material, posto que
rigorosamente o que significa é que a identidade, os gêneros de
ser, isso jamais foi ou será devir, é sempre o que é
- tautologia (a=a).
Em
Aristóteles, o preenchimento da lacuna se
materializa - em sentido tautológico. Deus
é a esfera exterior a todas as que se dispõe de modo concêntrico,
sendo a terra a mais interna ao sistema, após a esfera da lua.
Tudo gira por aspiração amorosa a Deus, que está acima de tudo.
Deus permanece indiferente a tudo, pensando só nele mesmo,
mas assim realizando esse ato simples e puro que é nada menos que o
universo existente,
a realidade de qualquer ente existente assim como é.
Mas
a distância
de cada lugar ou
posição do
universo ao ato puro
ou motor imóvel,
em que tudo já é sem precisar estar sendo, é portanto variável, e
assim há devir onde estar sendo é o meio de se chegar ao próprio
ser. É a dualidade da potência material e do ato ideal. O mundo
sublunar, este nosso, é onde a distância é maior, então a matéria
é presente
na acepção costumeira do termo:
grosseiramente
resistente à forma, podendo haver acaso
e movimentos
aberrantes, isto é, aqueles que vimos como artificiais, contrários
ao lugar próprio da coisa inversamente aos naturais dos seres vivos
que cumpre o que eles são.
Na
vida do homem, podendo haver o que é contrário ao
logos na acepção de linguagem regrada pela lógica
identitária,
à
episteme enquanto ciência possível, à sophia enquanto sabedoria do
que é, e á phrônesis como prudência do trato social. Vemos que
cada uma dessas regulações traduz o que Aristóteles prescreve como
a natureza: da linguagem, do conhecimento, da intelecção e da
sociedade.
A natureza é axiomaticamente prescrita conforme o ser da
inteligência, o intelecto - a identidade de cada coisa, o sistema da
identidade como o mundo das coisas.
Assim, novamente, o haver da matéria como distância sublunar a Deus
explica o devir como o referencial da diferença possível. O
pensável está pois arbitrariamente definido pela expulsão da
diferença, como da alteridade, no
pensamento,
enquanto na
física a identidade está
condicionada pelo movimento qualificado, ao
mesmo modo da petição de princípio, como natural ao ser
movente.
É
por esse motivo que,
apesar do brilhantismo
da exposição, não
concordo com a interpretação derridiana do epekeina
tes ousia, vertido
na teologia negativa tão belamente poetizada na
letra do "peregrino querubínico"
de Angelus
Silesius, enquanto o
que teria
"alguma afinidade tanto com a skepsis do ceticismo quanto com
redução fenomenológica". ("Salvo o nome, Campinas, SP,
Papirus, 1995, p. 52)
De fato não creio muito compreensível porque a teologia negativa,
em que de Deus já nada pode ser dito pelo reconhecimento de que está
acima de tudo que podemos dizer,
na medida em que "suspende qualquer tese, toda crença, toda
doxa...", e em que
se define a "hipérbole
paradoxal", o "movimento de transcendência
que carrega ou transporta além do ser ou da sendidade, da epekeina
tes ousias", é
algum "movimento de rebelião interna" que "contesta
radicalmente a tradição de onde parece provir."
Mais, ainda: "Princípio contra princípio. Parricídio e
desenraizamento,
ruptura de pertinência, interrupção de uma espécie de contrato
social, aquele que dá direito ao Estado, à nação, e mais
geralmente à comunidade filosófica como comunidade racional e
logocêntrica" (p.
53). Ora, Derrida não
deixa de acrescentar - "mas por outro lado, e por isso mesmo,
nada é mais fiel do que essa hipérbole de
injunção
onto-teleológica originária"...
Mas
como entender o horror? Que
primeiro seja o
horror, e que seja o que comunica ao que quer que venha a ser, o Ser?
Uma hipótese é que Derrida está definindo como princípio
destrutivo da metafísica, a contradição interna na qual se
constroi e que compromete,
pois, compreensivelmente, todo o edifício - ainda que de sua
contradição ela jamais se dê conta, seja mesmo de que não pode se
aperceber para poder existir. Mas
parece que não é só isso que Derrida entende agora
como contra-princípio.
Aquela hipótese pode
dar conta da Gramatologia, se bem que já esteja um pouco complicada
relativamente à Escritura e a Diferença, que é uma defesa
apaixonada de Heidegger contra Lévinas, quando aqui ele,
Lévinas e Plotino,
estão juntos como arautos de uma mesma superoferta e nec
plus ultra
programados
em série pela ruptura de contrato.
A
ulterioridade, quando a derrogação do contrato
como da assinatura (do nome de Deus),
derrogação devida
como que a um codicilo ou post-scriptum
depois do contrato,
assume o próprio caráter a posteriori deste e "permanece
uma subscrição,
mesmo se ele denega", é mais fácil entender. Nesse momento em
que se renuncia a atingir o Ser de Deus, momento "mais
apofático, quando se diz: 'Deus não é'", por não ser isso
nem aquilo nem nada que possa afirmá-lo
ou negá-lo, é que de fato compreendemos que só ele é e pode ser,
posto que nada está assim a salvo do seu próprio nome como do ser
de qualquer das coisas que puderam até aí encerrar o poder de ser,
todas elas agora feitas esse mesmo nível de inferioridade ao ser de
Deus. Nese momento,
pois, entendemos que ser é Deus, se o ser meramente "é".
Mas
que não basta aqui
a hipótese de Derrida pensar a contrariedade de um momento a outro,
ainda que na dialética do mesmo e da transcendência dos momentos
relativos um ao outro, apenas
como a brecha por onde vem à luz o ser da contradição, se
infere pela ambiguidade da inclusão de Heidegger. Derrida, ao que eu
saiba, nunca duvidou da destruição da metafísica por
este efetivada, ao menos da metafísica como o que é
o contrário da hermenêutica - de modo que se há outro modo de ler
Platão e Aristóteles, como empreende o curso sobre o Sofista
platônico demonstrar,
é porque essa contrariedade pode
ser ultrapassada na
intimidade do texto grego.
Ou
seja, Derrida nunca
duvidou da destruição heideggeriana da
metafísica como um sistema de identidade que não é apenas lógica,
mas ontológica, e, ainda, não apenas ontológica mas também
astronômica e física
na medida em que teologicamente encaminhada.
Assim, vemos como
Derrida endereça
o contra-princípio: "essa colocação entre parênteses ou
entre aspas da própria tese arruína cada proposição ontológica
ou teológica e, na
verdade, cada filosofema enquanto tal". Não
parece restringir-se, pois, a uma contradição, mas a uma voluntária
suspensão. E é - como epocké fenomenológica visando o
primado da Res,
a substância, como das
coisas independente das palavras que as conceituam.
Visando, pois, aquilo
mesmo que foi construído como metafísica, pelo momento identitário
da substância.
Vemos
assim que confundir a epocké fenomenológica com aquilo de
que ela é a
redução, parece
bastante infundado. Além disso, o pas
de deux que Derrida
ensaia, do epeikeina
tes ousias e da
teologia negativa, parece falhar num ponto crucial.
Na
teologia negativa há
uma relação da positividade com a negatividade tal que se
contrapõem mutuamente,
mas de três
modos diversos. Primeiro há o positivo, a crença em Deus e o ser
dessa crença, Deus,
relativamente a que a negação da crença está excluída. Depois,
a negação acontece, e então é a positividade que se exclui. Nada
se pode dizer de Deus, e num momento crucial na letra do poema, isso
implica que nem mesmo a crença pode já ser afirmada. Mas
uma vez que isso aconteça, a negatividade de Deus revela abarcar
todo o possivelmente
afirmável, todo
existente enquanto tal, e, então, enquanto contrário do positivo,
a negação se inverte
pela reafirmação do positivo,
que exclui a negatividade como momento.
Não
se verifica esse esquema
da negatividde
na relação platônica
do ser das ideias com o
além do ser, a identidade pura,
assim como com o motor
imóvel aristotélico,
ou, ainda, o uno plotiniano.
O trecho da República VI, 509b, em que o
epekeina tes ousias
é referenciado,
corresponde à explicação socrático-platônica
do puramente inteligível. A menção ao hiperbólico aqui é feita
de modo jocoso pelo interlocutor, Glauco, provocado
pela referência
de Sócrates ao bem como o que está muito acima do ser "em
dignidade e poder".
O
ser aí é "a essência" como "as coisas cognoscíveis"
(gignos kimenois), que
entretanto recebem do bem sua "inteligibilidade"
(gignóskesthai),
mas também "a sua
existência"(eìnai)
e até "a sua
essência"
(oùsian) mesma.
Sócrates acrescenta
que o bem "èpékeina tês oùsias presbeía
kaì dynámei
hiperkontos" (está além da essência, [sendo] superior em
dignidade e poder). É
a isto
que Glauco riposta viva
e jocosamente:
"Apollon, èphe
daimonías
hiperbolés!
(Por Apolo! Que
maravilhosa superioridade!)
O
jogo de hiperkontos
e hiperbolés parece-me
constituir um dos motivos da graça dessa réplica. Hiper sobre
hiper, a superioridade sobre o que reduz qualquer sentido do superar,
isto é, o poder. Sócrates não faz por menos. Na tréplica lança a
culpa ao próprio
Glauco, que o fez falar sobre aquilo que desafia a coerência da fala
- assim como de tudo, poderia pensar o leitor. Mas Glauco está à
altura, exorta a manter o fluxo retórico em que se libera a
revelação sensacional. Sócrates não se faz de rogado, ele tem,
efetivamente,
muito o que revelar,
mas tanto que agora é a coerência da fala que o desafia, pois na
extensão dela não se permitiria que tudo fosse dito. É
verdade que Sócrates não pode dizer tudo, mas como Luis Carlos de
Morais Junior observou em conversa pessoal a propósito, quando
referenciei meu desacordo com Derrida nesse
ponto, ao inverso da teologia negativa que proíbe falar, declinar
as atribuições de Deus e o seu ser atribuível, o epeikeinas tes
ousias platônico obriga a falar.
É
necessário que saibamos o que são as ideias, se
queremos entender a existência delas como dom ulterior
a si.
O
que torna o trecho bastante enigmático,
se a própria essência das essências provém desse dom, como do
bem.
De fato o
texto platônico articula aqui duas positividades plenas, de onde
toda negatividade está purgada, reservada ao lado oposto do ser,
como ao devir.
Será
necessário nos deter algo mais nessa questão. Se podemos
interpretar como proponho, eis o que
seria de se esperar, já que o fator determinante da construção
nestes dois casos, a onto-teologia grega e a teologia cristã, é
inverso um ao outro.
Na
teologia cristã o
fator preponderante é a crença em um Deus voluntarioso, que não
tem correspondência com qualquer fenômeno exterior à sua própria
subjetividade, de modo que a dependência do universo ao Seu ato
criador é tão fortuita quanto o Seu desejo de o criar. Não há
outro meio de relação a Ele que a fé. Naquela
o que
se quer é justamente depurar todo fator de crença
e subjetividade,
excetuando a acepção pela qual alguém declara não crer na
"dedução" de que dois mais três são quatro.
Pode-se
até questionar que houvesse
um fator de crença puramente religiosa a depurar. Como Snell
salientou a propósito do enigma que é para nós o motivo da
condenação de Sócrates, já que se expressou em termos de algum
tipo de falta relativamente
aos deuses, porém não podendo ser falta de crença, porque os
deuses gregos são forças naturais e ninguém pode negar crer na
realidade do céu, do
ar ou do fogo, etc.
Podemos contudo
recorrer, como vimos,
à transformação metafísica da religião, que Aubenque mencionou
estar ocorrendo desde
Sócrates, e especialmente ao que ele referenciou como
relação da filosofia
aristotélica com o
mito - restauração do
conteúdo originário na forma do conceito, mas depuração das
distorções populares,
dentre as quais poderíamos colocar as
crenças em
milagres relativas às seitas extáticas.
Não
sabemos de fato o
que era considerado
o mito originário por Aristóteles, mas parece justo deduzir que era
a afirmação da identidade dos elementos enquanto deidades
especificadas. Por onde
as seitas extáticas pós-homéricas seriam um alvo compreensível da
exclusão. Na
ética, a obrigação com a religião da Cidade,
neohomérica, é
reafirmada. Ainda assim
fica ambíguo o que
era considerável distorção,
se bem que Platão, em vários lugares e especialmente na República,
critique Homero diretamente, e Aristóteles não deixa de o
mencionar. O
que Aubenque definiu foi a relação da metafísica com a teologia
astral - ou seja, a regularidade imutável,
matemática, dos
fenômenos astrais restringindo todo o conteúdo teológico
demonstrável.
Mas
como a superioridade do
bem sobre a Ousia,
sobre tudo que é
referenciável na plenitude do sentido, sendo porém o dom da
plenitude da existência quanto ao sentido,
poderia se confundir
com a skepsis
do skepticismo,
que nunca começou pela
afirmação da substância? E como esse começo seria aqui de pouca
monta, se o
epekeina tes ousias
não foi de fato nunca
feito além
da proposição desse
primado, o da Ousia?
O
ceticismo, quanto a ele, nem pode se dizer que efetivamente "começa".
Pois não
faz "exame" (skepsis) de uma hipótese, mas sim de teses
que se contrapõe acerca de algo posto por elas mesmas em sua
contraposição como
hipótese.
E se
suspende alguma coisa, é um juízo decidível sobre elas em sua
comum rivalidade após
tê-las a todas
deixado apresentarem-se
como são. A suspensão
cética, contrariamente à de Husserl, acontece no final e não no
começo, e
porque não se pode fazer de outro modo ou o que quer que seja, e
não como
o modo pelo qual se posssa vir a fazer,
ou pensar, alguma
coisa.
Obviamente o "exame"
(skepsis) de
qualquer tese ou opinião
que se apresente com pretensões de validez
não equivale de modo algum à "suspensão
do juízo"(epoké)
a propósito da pretensão delas.
Derrida confundiu sem duvida, skepsis e epoké, o caminho e o
endereço certo. O que
em termos de ceticismo pirrônico não significa o desespero da
ciência, mas a restrição metodológico-crítica dela
a uma semiótica do
observável. O que restringe também objetos possíveis da ciência,
por exclusão da metafísica
e aportes teóricos com
objetos
aquém da condição observável
de
relações constantes.
Minha
leitura do trecho da República é pois, convencional. Platão não é
de fato tão enigmático quanto o trecho descontextualizado faz crer.
A ideia do bem é definida como a faculdade de conhecer, e é nesse
sentido que é superior a tudo que é conhecido, estando aqui
restrito este conteúdo à
rigorosa acepção da ciência distinta da opinião. A analogia que
articula retoricamente o texto,
do bem com o sol,
permanece na pretensão da
linguagem conceitual,
por ser entre o
inteligível
e o visível, como
entre os
dois mundos em que se
move a demonstração, aquele que ela almeja provar como certo e
aquele em que todos já estão situados em termos do que pode
suscitar o criticismo sofístico ou as fantasias da arte. A
analogia mostra como a relação do sol com o visível é a mesma do
bem com o inteligível e entre as duas ordens se estabelece uma
relação genética, como do filho, o sol, com o pai, o bem. Ora,
o sol é a fonte da visibilidade ds coisas, mas também de sua
geração, crescimento e nutrição, se bem que ele mesmo não se
confunda com nenhum destas coisas. A
relação do sol e do bem com o visível e o inteligível é portanto
o dom existencial.
A
fonte de que provem a
existência do que existe,
pois, é na verdade dupla,
do visível e do inteligível, e o que ficou para ser acrescentado é
a partição platônica
do conhecimento, de modo a distinguir as ciências concretas da
dialética enquanto faculdade apenas do inteligível - assim depurada
do seu sentido inicial,
heraclíteo e sofístico,
como antilogiké.
Assim como
distingue o
conhecimento da fé e opinião.
Este
diálogo desmente a previsão de Hegel,
referenciado por Derrida em Khôra
(Campinas, SP, Papirus, 1995),
a propósito do mito em Platão:
"Na verdde, Platão só recorre ao mito na medida de sua
'impotência' (Unvermögen) em se 'exprimir na pura modalidade do
pensar'. Mas é também em parte porque ele só o faz na introdução
aos diálogos...".
(p. 28) E Hegel,
todos sabem, repudia as
introduções e prefácios com imiscíveis à
filosofia como ao que
convém ao seu espaço, às necessidades da parole de sua exposição.
Porém "A República" só introduz o mito, e o mais célebre
do platonismo, o da caverna, após o livro VI - se bem que, é
verdade, iniciando o VII.
Conforme
a minha impressão, sem pretender dissipar o
enigma que encerra a atribuição de ulterioridade à existência
relativamente ao existente, ao
que parece a analogia do Bem com o sol apenas garantiria que as
ideias fossem pensáveis, existindo em si mesmas. Isto é, não como
cópias das coisas em
devir, mas o inverso.
Eis
porque, também, com relação ao motor imóvel aristotélico, que
pensando-se, é a fonte da existência pensável universal, podemos
observar que coíbe a própria definida
como tal abstração da
essência a partir do visível em devir ser reduzida a si mesma, de
modo que a essência se esgotaria numa projeção nossa,
humana
nesse sentido de não dotada de ser em si;
ou subjacente às coisas na materialidade do devir.
É
assim que Aristóteles chega àquele ponto sobre que ninguém se
decidiu até hoje, a saber, como podemos entender a disjunção que
ele fez dos dois intelectos, paciente e agente.
Na
variedade de interpretações - o crucial da escolástica feudal
árabe e cristã - sempre
se pode ao menos apreender que o primeiro poderia estar limitado ao
puramene humano, mas é o segundo, que se relaciona à
teologia, que realiza o ato do conhecimento. Já Isócrates
havia considerado uma teoria das ideias, mas apenas como correlatos
da proposição, enquanto o criticismo sofístico as reduzia à
opinião
e o ceticismo à nossa sensação.
Assim
ao que parece, na Antiguidade a oposição era entre o devir
impensável porque restrito ao homem (indivíduo e/ou espécie) e o
pensável puramente ideal em si introduzido pela metafísica.
Já
desde Platão vem, pois, que o
intelecto como a faculdade de
conhecer é que é mais do que ele mesmo enquanto, de novo, aquilo
que se limitaria a captar o que as essências são na imanência em
que elas são ordenações do pensável enquanto ser
atribuído,
isto é, na experiência. Ele
é mais do que captação pragmática do ser,
porque o próprio ser é mais do que vir a ser.
É
interessante aqui pensar na relação etmológica que pode haver
entre gignesthai,
o devir, e gêneses, a geração, lembrando como
vimos que
o eterno é agheneton, incriado.
Em
Platão é do mesmo
modo que o sol permite ver que as coisas
são, ao invés de
projetarem-se de nós mesmos. Na República ele inicia o que na
Metafísica vimos Aristóteles proceder como negação simples e
veemente da variação do dado quanto à percepção subjetiva, cuja
afirmação inversamente é o foco candente dos criticismos antigos.
Na
República, até aqui o mito da caverna não era necessário. É após
ter mostrado que as ideias tem um ser em si, além das coisas
sensíveis de que poderiam
ser ideias, este ser
sendo seu bem como sua existência, que Sócrates envereda pelo mito
da caverna. Aqui, inversamente,
são as coisas que ele mostra existirem, não reduzidas a sombras que
os prisioneiros não podem se esquivar de contemplar, por sua
condição subjetiva - eles não podem mover
a cabeça.
Mas
a existência das coisas além das sombras é visível desde que se
pudesse contemplá-las ao sol,
como acontece ao prisioneiro a que é facultado sair da caverna,
conforme a analogia construída do visível com o inteligível. A
analogia constroi, pois, a transcendência do inteligível ao
sensível, mas para que isto seja possível, o próprio sensível não
pode não estar já ordenado pelo inteligível.
Mas
mesmo que não se pudesse contraditar a sério essa nossa
leitura da idealidade,
apenas ripostar que não esgota o texto e os milênios
de exegese que lhe são
devotados, entre o
passado e o
futuro, etc., restaria
a questão de se é realmente leitura oposta à de Derrida. Entender
em que e por que
é possível que a oposição aqui fosse imprópria, se
torna exequível a partir de
concedermos admitir uma
estranha torsão,
como o que
Derrida opera nesse mito da inteligibilidade pura. De
fato não é a ele como
enunciado desta, por
ser mito,
por comparecer indissoluvelmente ligado à retórica
como a essa arte que
por outro lado a
inteligibilidade pura denega
convir ao Real, que Derrida está criticando o platonismo
e sua exegese de milênios.
Exegese
a qual desloca, pelo
mesmo movimento desenraizante
da origem, aquele
historial em
que seguramente pudemos instalar a diferença do cristianismo em
geral e de Silesius em particular, relativamente aos gregos em geral
e ao epekeina tes
ousias platônico
em particular. Derrida,
começamos a ver, por outro lado também não o nega,
enquanto,
expressamente,
historial. Mas
que movimento, se ao contrário
de manter as distâncias devidas,
o que Derrida está estabelecendo é a mais inquebrantável unidade e
solidez,
indeslocável por toda a diferença, seja do tempo, que
é de milênios, seja
da exegese, idem,
relativamente à
origem, como das
cópias e dos
seres relativamente às ideias e o bem? Derrida
concebe que o historial está se desenraizando a partir da
precipitação da teologia negativa,
em seu situs próprio,
no além do ser platônico,
esse além de sua propriedade territorial.
Mas,
quanto a este, o
platonismo, a estranha
inversão exegética
operada por Derrida
não é averiguável
só aí, em "Salvo
o Nome",
na precipitação da teologia negativa e na beleza inolvidável da
poesia de Silesius. O
vemos também em Khôra e na Farmácia de Platão.
Ao
estatuto de lei estrutural, dessa enigmática pureza
sem ser, que convém
ao "além do ser" em "Salvo o nome",
que reflete "A
República",
corresponde na "Farmácia..."
o estatuto do "pharmakon",
o pendant
da palavra pura, alem do conceito, que se plasma na escrita como tema
do "Fedro",
e em Khôra a própria khôra
referenciada do "Timeu".
Aqui não disponho de "Passions",
que o próprio Derrida designou como o terceiro termo de sua trilogia
composta a partir dos dois restantes, Salvo
o Nome e Khôra...
Mas a Farmácia
supre, pois quanto a Theut, o deus inventor da escrita, conforme
Derrida "nenhum ser-aí lhe convem propriamente" (São
Paulo, Iluminuras, 2005, p. 38).
O
jogo construtivo-opositivo
desses três diálogos
platônicos,
que Derrida persegue para reconstituir,
remetem a um mesmo que
não é porém qualquer mesmo, mas a mesmidade dos mesmos todos que
se podem predicar de si,
e para além delas, a salvo - da contaminação de seus
idia, destes seus
"Si".
Em
Salvo o Nome, é a
oposição um(eu)/outro,
que leva à de nome/substância; nada/amor; a
teologia negativa chega ao cume quando nem o nome de Deus pode já
ser predicado, e quando já não está a salvo - nem o nome - então
Deus é salvo como o além de tudo que não se pode negar se nem
mesmo se pode
afirmar... nada, entretanto sendo nós mesmos o lugar do jogo, do
percurso/esquema poemático que leva da ingenuidade do testemunho
(para que, se Deus já sabe?) à negação atributiva ficando porém
só com o nome, ao esquecimento até do nome, e então a Deus que
permanece além da apófase justamente se ela é total e absoluta,
porém esse Deus que é em nós que realiza o percurso/esquema, em
seu amor, sua outridade, etc.
- impossibilidade, pois, de esgotar a outridade, o ser do além do
ser, repetindo, etc. A oposição aqui é melhor expressa por
Heidegger, a gelazenheit, double-bind, fórmula da esquizofrenia
devemos lembrar, entre o nada (deixar apenas ser) e o amor. Está
claro que essa alénidade (ousando nós
aqui o neologismo) é o transcendental, mas então a dupla-ligação
se estrutura pelo wo
- onde
- porque o lugar (o
/ do transcendental) se
duplica nas possibilidades de ser ele mesmo o transcendental, assim
como Deus criador ser o lugar da pessoa dele, nessa possibilidade
encontrando nós apenas o nada como a outridade absoluta,
impenetrável, de Deus,
como o referente do nome de Deus em nossa concepção possível.
Ou, ao invés, o
lugar é apenas da
palavra
transcendental, mesmo
que de Deus, como
seu nome. Linguagem, o
jogo/prazer,
a khôra,
das Ort of
the Wort.
Minha
distância
a
Derrida se instala nessa escanção do
transcendental vertido em double-bind. Crítica suficiente a
derridiana, como da Razão idealista vertida na loucura de um
discurso indubitavelmente dúbil? Isso, já
que o agathon, o bem, a meu ver é a fantasia da emancipação do
eterno relativamente a todo o temporal, ao que Derrida não parece
convir - e assim, não se diferenciando tanto de Heidegger quanto
parece pretender, se bem que sempre mantendo que é neste que ele se
inicia.
Em seu curso sobre o diálogo platônico O Sofista, Heidegger
pretendeu que a estrutura do que se furta ao tempo em Aristóteles
(Física,
livro delta, 12, 221 b 3) é
dada pela pertinência da palavra
tempo.
"Aquilo que sempre é, enquanto sempre é",
a saber, arkhé ou origem do que vem a ser,
"não
está no tempo", mas sendo imutável, é o tempo que lhe serve
de referência quanto ao dever/não dever do seu estar. Não
creio que Derrida ultrapassou esse limite, que é estranho a meu ver,
já que, primeiro, a arkhé aí deveria fundar a
transcendência
absoluta, contra
toda physis anterior; e,
segundo, não o
transcendental,
este
a
que só viemos a ser apresentados desde Kant, e por ele mesmo.
Em
Khôra, a oposição
cardeal que Derrida
reconstitui do Timeu é
a de filosofia/mito,
conduzindo à meditação
da oposição ser/não
ser. Com efeito, o
discurso sobre a khôra é "triton
genos"
(op. cit. p. 38), nem
mito, nem filosofia um terceiro.
Sobre a impossibilidade de definir khôra, que Derrida desdobra numa
aporética da tradução, ainda que evidentemente conhecendo todas
(matéria, receptáculo, lugar), é o próprio escopo do diálogo
platônico estabelecer. Khôra
recebe a impressão das ideias feita pelo demiurgo, mas assim, em si,
não tem ideia alguma, conceito algum, e por isso não se sabe como
se pode pensá-la.
Ora,
na Farmácia de Platão,
a oposição
dentro/fora,
operada fisicamente pela expulsão da escritura da cena filosófica,
na ocasião mítica do
Fedro, em que o rei
Thamuz a rejeita como invenção de Theut, é reconstituída
a partir do jogo polissêmico que um Platão maroto como que joga
para escanteio, escamoteando,
no significado de pharmakon enquanto "droga",
( veneno/remédio
), sempre o
sentido benéfico.
A
escrita é portanto, sempre o veneno,
o dolo contra a memória
viva, mas o dolo, Derrida acusa, está na montagem pela qual ele é
atribuído a Theut por pretender fazer passar o veneno por remédio -
como se a palavra não
comportasse os dois sentidos.
Ora,
aqui o caráter
apofático relativamente
ao ser,
que porém não é bem um não-ser, retrogradou
do triton, o terceiro
dentre os gêneros em Khôra,
para o segundo, na medida
em que a
escritura é sempre, em todos os mitos e não só gregos, secundária
relativamente à fala. E não só nos mitos, mas na filosofia, de
Aristóteles e Platão a todo o resto,
e isso
até a ciência
da linguagem,
inclusive: de
Leibniz a Saussure e Freud. Um
segundo, um duplo, assim
como Theut, o deus
secretário de algum
outro ou, eminentemente, de Rá, o pai dos deuses, e que
inventa nada além de um recurso, um suplente.
Não
seria de se esperar, então, que
em Salvo o nome, o
caráter dessa apófase não de todo apofântica
alcançasse a própria
unidade? Pois, o bem é
só um, é a unidade de tudo que é um, e o que ele confere a todos
os seres enquanto Ser é precisamente a unidade de cada um consigo
mesmo.
Movimento
retrógrado, do tres ao dois e ao um, bem conveniente e de todo
coerente com o que Derrida diz das intenções platônicas,
maravilhosamente expressas
pelo próprio autor, expressando-se Timeu. Uma vez dotados da matéria
(hylé,
e não khôra,
tendo sido Aristóteles que traduziu uma pela outra), para o serviço,
convoca ele completar o amarrar da trama do raciocínio, para que só
resta voltar "'então,
mais uma vez,
brevemente ao início (palin ep'arkhên) e voltemos rapidamene ao
próprio ponto a partir do qual tínhamos chegado aqui. E tratemos de
dar como fim (telutên) à nossa história (tô mithô) uma cabeça
(kephalèn) que esteja de cordo com o início, a fim de coroar aquilo
que precede' (69a)". (op. cit. p. 72).
Neste
ouroboros, pois, exibe-se
a torsão da exegese, de que é preciso agora falar. Aqui vai:
Derrida não critica Platão pela idealidade, pela alénidade, pelo
ser/não ser da contra-dicção, e
se é por um double-bind, não é por este.
Ao
contrário do que acima estabeleci como a interpretação
convencional, para Derrida o que Platão situa na alénidade só peca
por isso que não é nada de fato além (do Ser). Pelo contrário,
repetindo.
Seguindo
Heidegger, que traduz a phrônesis
por
modo de vida ou Dasein, ao
invés do oposto do devir Derrida interpreta a alénidade como a
fantasia da concretude e autenticidade da Res. Seja em sentido
biológico de Zoon, e ele enfatiza na "Farmácia..."
o quanto Platão preza o lógos como um ser vivo
- eis
o que a
grafia não
é; seja naquele sentido anímico
em que a vida do vivo reside, e
que a Gramatologia tanto explora, como o que comanda -
isto é, pro-grama - os dois e meio milênios de exegese, tradução
e expropriação da metafísica primeira na forma de nada menos que
toda a filosofia, religião e ciência ocidentais.
Ou seja, enquanto o que funda o primado da fala sobre
a escrita, como da alma sobre
a fala, e do intelecto sobre
a alma - assim como (ainda) sobre
todos os seus possíveis conteúdos pensados, falados, escritos.
Programa
que agiu até aqui tão eficazmente que o próprio enunciado do
transcendental sem transcendência, desde Kant, nunca se libertou do
feitiço,
e permaneceu recalcando a escrita como secundária relativamente a
fala, porque esta é por sua vez secundária relativamente ao que vai
pela alma, que é então secundário ao que o intelecto pensa -
Cogito, ergo sum, assim, do nada, nunca, jamais, nenhum Signo.
Mas
todo
esse recalque programático-programado, (retro)-programando-Se
na
inquietude de
um
pensamento que não se basta a si mesmo, não
se cala pelo que a fantasia lhe faz ver.
Efetivamente
quer mais que o visível, como vimos, e a fantasia se vê - salvo a
metafísica - dobrada pelo contraponto inteligível puríssimo,
dizendo sem dizer nem se aperceber do que enuncia, em que é
a estrutura que a metafísica enuncia. A
estrutura ausente, a regra do jogo que não pode aparecer seja qual
for o lance do jogo, a lei/programa do discurso que nenhum conteúdo
de discurso repreduz enquanto não sai de si rumo a um triton,
segundo ou primeiro acima de todo precedente,
(e depois daqui só cabe o) etc.
(dos
acontecimentos possíveis da estrutura, repetindo-Se,
etc.)
A
idealidade pura
não é o criticável da metafísica, nem o estruturalismo é o seu
reverso. Mas sim o segredo do seu double-bind esquizofrênico, a
materialidade do significante, que se, livre da fantasia não da
idealidade, mas
da concretude, como do ser-aí, enunciaria
a auto-libertação do desejo, do desejo de viver, pelo que se
renuncia à condição do signo (etc.). E
então se assumiria a ambos, sem os pressupor de todo opositivos um e
o outro.
Onde
se fez essa estranha torsão? É ela fundada e fundável? Podemos, de
direito, afirmar que ela não tem nada a ver com o que afirmamos ser
a nossa (convencional/expropriada) exegese? Podemos
a princípio, ao menos, localizar o que deveria haver de problemático
numa exegese derridiana que,
partindo da convicção de que se trata do transcendental na
metafísica, aporta à crítica dela como double-bind da
transcendência. Mas
isso basta? Não basta, evidentemente. Podemos também, um pouco
mais, observar que a leitura de Derrida deve muito a Heidegger, e
mais do que ele parece querer conceder ainda que sempre reconheça
haver algo aí. A metafísica como o ser, premido pela confusão da
ideia como resposta à confusão da doxa, mas preservando-se. O ser
do ser-aí, a autenticidade, De
Anima,
ética, retórica e interpretação, humanística - não o
ser prescrito pelo homem, mas ser e homem nesse encontro do ser-aí,
contra a irresponsabilidade da sofística. Mas qual? Também o
sofista é um ser deslocado, como Sócrates, os guardiões e o triton
genos, ecoa Derrida em Khôra, como a khôra, na economia do Timeu.
Mas de fato desse estatuto de terceiro logo Sócrates se destitui,
com Derrida o colocando em dupla, junto com a Khôra.
De
um outro lado estando os sofistas e
os poetas como numa disjunção exemplar relativamente aos filósofos
e políticos, assim como a mentira ( a imitação, o simulacro) é
oposta à verdade ( a prática, o ser).
É
certo que a khôra é sempre triton,
mas se é com Sócrates que ela vai se haver,
então ela é apenas disjunta,
em dupla -
como a res extensa da res cogitans - invertendo
a hierarquia
e o sentido da associação
mas apenas para relançá-la "com mais força" - e de modo
que a força venha integrar a Politeia, em grego
o Estado,
capacitando-o para fazer a guerra e mesmo assim ser uma politeia
viva: que estupenda hiperbolé, exclamaríamos nós, essa
superioridade das "lutas que mantem um Estado" sobre tudo o
que é mantido nele e por ele. Porém, Derrida explica, é porque o
Estado na guerra é visado na sua relação com os
outros
Estados...
Eles
se purgam entre si, e assim o fora volta ao dentro, a política
interna da
vitoriosa
será a mais exitosamente
pacífica, servindo de modelo às demais
-
etc.
- (op. cit. p. 56,7).
Nós
mesmos enunciamos,
em nosso convencionalismo exegético.
A metafísica, o idealismo puro, é transcendência, mas justamente
ela não pode ser transcendental, então conserva a Res... Mas a
nosso ver isso não é o único meio pelo qual a insipiência dos
séculos devia dizer o que a nenhum pensamento real é facultado não
enunciar,
até sobrevir o tempo maturado da veridicção depurada e da
estrutura, enfim, presente/ausente.
O
ponto em que ancoramos nossa crítica, retornando a ele, é o tempo,
como aquilo que
cremos ser o de
que se crê liberada
a fantasia da idealidade - fantasia
não-estruturada,
já que explicitamente
impossibilitada
como pensamento do signo, este estruturante,
que
fende a unidade em partes.
O
que Platão na República justamente rejeita explicitamente
que
se faça a fim de se atingir para além da matemática útil, a
matemática inteligível, o número puro.
Nossa
ancoragem: o tempo
da História, ou
tempo de
l'age
como Aubenque referenciou do rejeitado por Aristóteles para se ater
ao tempo da
obra, como
se a obra estivesse acima, sistemática e logicamente, de todas as
vicissitudes em que se constitui. Empédocles, o mais novo em idade,
é mais antigo que Anaximandro, o mais novo em obras, visto que a sua
filofia seria mais moderna, menos física, etc. E
Aubenque concorda que esse tempo da obra é ciência da estrutura
avant la lettre, mas aí um pleonasmo: antecipação da ciência
como estrutura.
Porém
Aubenque acredita no "khorismós",
em grego a cisão, do
ente e da essência - de que, como vimos, Derrida duvida um pouco
ao ressaltar precisamente o quanto é radical.
E Heidegger permanece obscuro, entre os dois. Derrida mostra que
Heidegger parte precisamente disso, em
sua interpretação da khôra
como a que o próprio Platão teria instruído. Ela
marca a diferença de lugar entre o sensível e o inteligível
(p. 74).
Mas como vimos, isso não basta para a interpretação de Heidegger
acerca da metafísica.
É
nessa
junção precisa,
entre
o
que resta na
exegese heideggeriana
de
problemático à exegese
da obra de Heidegger desde sua época até nós,
assim por exemplo na crítica de Arendt a Heidegger, com a questão
da História entre
Platão e Aristóteles, que se
sulca o caminho da
problemática instaurada na torsão do transcendental à
transcendência. Retornando
à questão mondolfiana
do
infinito
aristotélico,
entre determinismo e teleologia - lembrando que a unidade
programática do logocentrismo em Derrida depende precisamente de que
o Telos seja absolutamente determinante - alcançaremos
o lugar, como a posição, mais favorável ao desenvolvimento dessa
aporia da História na temporalidade pressuposta do que
tanto "sempre é" quanto se situa além do Ser. O
lugar, pois, da controvérsia
sobre
o
heideggerianismo
na atualidade.
Voltando
ao que nos pareceu a
defasagem da apreensão
mondolfiana da teleologia como sistema da identidade, e por aí da
metafísica aristotélica como metodologia científica que cauciona
qualquer ciência cujo objeto esteja de acordo com o pensamento
dedutivo a partir da premissa da identidade substancial.
Pudemos
definir a defasagem pela incomprensão da coincidência, assim, do
determinismo com a teleologia,
que Mondolfo considerou ao invés incompatíveis. Agora, examinando a
questão do infinito, que ele pretende ser de fato afirmado por
Aristóteles mesmo em ato, seria
bom observar como Bréhier
especifica com clareza a teoria aristotélica do infinito só
em potência.
Inversamente a Mondolfo, ele
não começa pela junção do fator religioso sectário à filosofia,
mas pela filosofia jônia - de fato, a redução dela a uma física
num sentido disciplinar, só existe desde a introdução da
metafísica como o que dela difere, não obstante o seu referencial
ser efetivamente o conceituado como physis ou natureza. Mas já vimos
como então "natureza" significava o Real, sem alguma coisa
fora de si.
A
metafísica introduziu a transcendência, não pensável antes, porém
dado confusões possíveis como a de Derrida, é importante desde
aqui lembrar que a união do transcendente à physis com a
subjetividade do Deus cristão aconteceu muito depois, na Idade
Média, e por uma adaptação que sacrificava o quanto fosse
necessário da letra dos textos gregos, estes nem mesmo conhecidos
na totalidade ou em número significativo a qualquer prejuízo desse
procedimento de distorção.
A
transcendência metafísica grega, pioneira, não tinha pois raiz na
ideia de uma ordem antropomórfica sagrada, criacionista, extrínseca
ao mundo, o que ela se tornou nesse "após". O que teve a
vantagem inestimável de tornar a teologia cristã capaz de abranger
um campo epistêmico, como a ciência da mente de Deus na forma das
verdades lógico-filosóficas, paralelo ao liame da fé.
Também
é útil a menção disto aqui, por que assim entendemos porque é
tão complexa a decisão sobre se Aristóteles afirma realmente a
transcendência do motor imóvel, ou a imanência de um sistema
universal todo contínuo. Não havendo a personificação da ordem
afirmada como transcendente ao mundo, e estando nós formados na
mentalidade dualista pelo cristianismo. A princípio fiz a defesa da
tese da imanência, mas desde há algum tempo tenho concordado com
Aubenque e aqueles que defendem a tese da transcendência. Por isso
que de fato a identidade oriunda do motor imóvel, embora contíguo
ao sistema "material" interplanetário, é puramente
intelectiva, e não "física".
Na
teoria dos primeiros filósofos jônios, conforme Bréhier, o
infinito era o correlato da noção de infinitamente grande, como
fonte material e continente de mundos cíclicos em número infinito -
isto é, mundos sujeitos à periódica conflagração universal.
Em
Platão os correlatos do infinito são a díade do infinitamente
grande e do infinitamente pequeno, que a ideia-número estanca,
fixando qualquer grandeza determinada. A Khôra, em grego o "lugar"
como receptáculo material puramente passivo em que o demiurgo deve
imprimir as formas ideais; e o infinito em si, como realidade
absoluta assim como a possui qualquer ideia.
Aristóteles começa por negar
precisamente que o infinito tenha essa realidade substancial. Nessa
argumentação ele procede por aporias, conforme o procedimento
introduzido bem antes por Zenão, o eleático. Consiste em negar
algo, não apenas mostrando que é impossível por um motivo
determinado, mas sim que é impossível qualquer das duas opiniões,
contrárias entre si, que se possa ter sobre ele. Zenão usou este
procedimento para negar a mudança assim como o movimento.
Aristóteles, o filósofo do movente, utilizou-o contra o infinito em
si, mostrando assim que não poderia ser individual por ser
divisível, mas não poderia não ser substância (individual
indivisível) se fosse por si. Então ele afirma que o infinito só
pode se pensável como atributo da substância, não sendo substância
em si.
Também
nega a teoria jônia. Não existe o infinitamente grande, pois sendo
corpo seria limitado, não infinito. E seria composto de partes que
não poderiam ser finitas nem infinitas. Não poderiam ser finitas
pois as demais seriam infinitas, sendo ele mesmo infinito. Não
poderiam ser todas infinitas porque cada uma absorveria todas as
outras assim como a todo o espaço existente. Não seria simples, sem
mudança, pois não tem contrários. Nem homogêneo, pois ocupa todo
lugar; nem heterogêneo, pois teria elementos infinitos.
Os
correlatos do infinito em Aristóteles são: tempo, número, grandeza
geométrica ou divisibilidade, e o devir. São pois, categorias de
quantidade ou qualidade, atribuíveis à categoria substancial, mas
não confundindo-se com esta. Por exemplo, quando dizemos quando,
estamos atribuindo algo individualmente definido por si, que
aconteceu. O tempo não é por si, é relativo a algo definido, a
substância como sujeito da proposição. E - eis o principal - os
correlatos são pensáveis sempre apenas tomados pela sua
quantificação finita. É por isso que conforme Aristóteles, o
infinito subjacente a qualquer dos correlatos é somente em potência.
Em ato o que apreendemos é uma grandeza definida, um limite - no
fundo, a extensão da inteligibilidade da relação platônica
díada/número à relação infinito/grandeza.
Não
pensamos de fato o "quando" em função da infinidade do
tempo em si, mas sim neste ou naquele momento - hora, dia, mês, ano,
à tarde ou à noite, antes ou depois de algo determinado, etc. Assim
também, pela relação das categorias relativas à substância como
absoluta, Aristóteles supôs ter resolvido a aporia do lugar, que
define como continente do corpo. Nesse estatuto, porém, não é o
correlato da coisa que está nele. O lugar é o correlato daquilo que
contem esta coisa. Assim se as coisas mudam de lugar, mas este é
imóvel, é porque há coisas que são continentes imóveis, de modo
que o lugar é relacionado às substâncias, não algo de separado.
Essa teoria visa salvar a metafísica do paradoxo de algo que seria
receptáculo indiferente das coisas, portanto uma coisa (substância),
como pensava Platão no Timeu, e que teria então que se deslocar com
o corpo - o que é absurdo.
Vejamos
as teses de Aristóteles atribuídas por Mondolfo com a finalidade de
flagar a refutação do limite do infinito em potência. Convém ele
que a eternidade do motor imóvel é concebida por Aristóteles como
extratemporalidade, assim como eu mesma considero. Porém a seu ver,
isso "significa exclusão de toda limitação tempoal das coisas
eternas, mas não exclusão da possibilidade de confrontar sua
existência com o transcurso infinito do tempo..." -
aparentemente confronto aqui sendo contraposição, pois quanto à
"duração finita", nela se "pode confrontar a
quietude com o movimento". (p. 125)
Mas
pouco à frente, Mondolfo precisa o sentido inverso, comentando-o em
termos de "irresistível tendência de traduzir em infinitude
temporal a permanência divina transcendente". Mondolfo crê
discernir a prova pelo fato de Aristóteles, ao negar grandeza ao
motor imóvel, porque a grandeza ou é finita ou infinita. Mas se não
se pode atribuir a Deus grandeza infinita porque esta não poderia
existir
em
ato, também não se pode atribuir a finita, já que ele deve exercer
sua ação por toda a infinitude do tempo: "eis então, o
extratemporal colocado diretamente no curso da infinitude do tempo",
aduz Mondolfo. Porém desse modo, Mondolfo estaria anulando a
premissa aristotélica da incompatibilidade do atributo da potência
ao motor imóvel. Esquecendo-se que o ato puro de Deus só se realiza
na ausência total de qualquer intervalo de tempo, que é o mesmo que
intervalo potencial, de modo que onde existe esse intervalo a causa
não é nada que tenha a ver com Deus em si mesmo, mas a distância
que separa alguma coisa dele mesmo em si. Essa distância é então
preenchida conceitualmente como matéria em si. Quanto menor a
distância, menor o intervalo, menos rebelde a matéria ao ato, isto
é, menos diferença possível existe na individuação dquele gênero
de ser que se realiza aí. Se os indivíduos da espécie humana
exibem tantas diferenças - de estatura, cor da pele, peso, etc. - é
porque a maior distância do universo é a que se localiza entre a
terra e o motor imóvel. O mesmo se pode afirmar para qualquer
relação de espécie e exemplar, dentre os gêneros biológicos
terrestres.
Porém
o comentário de Mondolfo a seguir, deixa dúvida sobre se ele está
atribuindo a Aristóteles mesmo aquela tradução do extratemporal na
infinitude temporalizada, ou se está localizando uma brecha na
argumentação do Estagirista.
Com
efeito, ele nega que Aristóteles tenha logrado, seja fazer frente à
posição de Anaxágoras, para quem o princípio motor é alternada e
infinitamente inativo e ativo, porque sua objeção de que algo não
pode ficar infinitamente numa posição contrária à sua própria,
não resolve a contradição do prolongar-se da eternidade através
do tempo infinito. Seja fazer-se compreender quanto ao sentido do
intelecto agente. Quanto à primeira objeção, vimos que não é
inquestionavelmente atribuívelo. Quanto à segunda, aqui não seria
oportuna a resenha das interpretações ao longo do tempo, mas sim
observar como aporta Mondolfo à imbricação do intelecto agente com
a alma, ora enquanto relacionada ao desenvolvimento da vida
intelectiva, ora na qualidade de alma da esfera celeste. Aristóteles
introduziu na teoria do céu realmente uma inovação importante,
relativamente ao platonismo. Pelo que se os movimentos celestes são
numerados de modo a estabelecer a relação do tempo com o movimento
- conforme a definição de Platão do tempo como o número do
movimento - Aristóteles observou que esse teria que ser o número
numerante, aquele em relação a que todas as demais numerações são
possíveis vindo a corresponder ao número numerado. Para Mondolfo,
se na alma da esfera celeste compete ao intelecto a função de
numerar o infinito transcurso do tempo, até o ponto em que
Aristóteles afirma que não há outro ser que numere além da alma,
realmente a infinitude do tempo se reduziria a potência do intelecto
numerante. Mas como Aristóteles acrescenta o trecho em que a alma é
sugerida como motriz, tanto quanto pensante e numerante. Assim,
produzindo a rotação do céu ab aeterno, a alma a numera do mesmo
modo eternamente, "por ser tal número o único numerável".
Se a infinidade do futuro está a salvo da questão, como devir, ao
menos a infinitude do tempo passado estaria assim numerada - sendo
infinito em ato e não em potência.
A
infinitude do tempo, já o vimos, produz-se do movimento circular.
Mas assim, qualquer porção do tempo é limitada entre dois
instantes, passado e futuro, e sendo número do movimento, sempre se
numera entre um menor e um maior, reafirmando a infinitude do tempo
nesse ato mesmo de limitação de sua porção. Hammelin considera
que é um infinito potencial, devido à continuidade implicada na
infinitude do movimento, e se o tempo é propriamente número, ainda
assim a solução seria a que vimos com Bréhier, a potência
restando como a possibilidade de numerar, e o tempo propriamente
numerado, finito. Mondolfo observa que as soluções quanto ao
movimento não concordam entre si, mas na medida que em Aristóteles
propriamente, ele é matéria numerável, enquanto Estraton, contra
Aristóteles, o subtraía à numerosidade. Quanto a Aristóteles
também Mondolfo considera haver contradição na escolha do único
movimento circular, que é infinito e contínuo, para fundamentar a
numeração que é o tempo enquanto, este, número numerado do
movimento.
O
desacordo de Estraton e Aristóteles não parece suficiente como
objeção à teoria de um só deles, mas a objeção principal
parece-me não ser esta da dissimetria entre os atributos de
numerante e numerado. Uma vez que o numerante é o que estabelece a
própria situação dos demais movimentos possíveis, na extensão
dos quais o tempo transcorre enquanto devir - ou seja, o oposto do
ato ou "ser".
A
objeção principal seria que intelectualmente só se pode realizar o
conceito em ato, como ato, e assim teria que ser relativamente ao
infinito, ou ao menos ao infinito já passado. Porém se é como
compreendo, na teoria aristotélica o que não existe é o número
infinito - independente do fato dos números serem infinitos nessa
acepção de infinitamente contáveis, sempre podendo-se somar ou
subtrair um. Não há pois diferença na infinitude do passado e do
futuro quanto ao pensável numerado - seria sempre um determinado
instante, passado ou futuro. Este é em ato. Mas o que realizamos em
ato quando pensamos em geral o infinito? Nenhum número de fato, mas
somente a possibilidade (potência) de numerar. Nesse caso o próprio
correlato do ato, isto é, o conceito pensável, reduz o infinito ao
finito - pois o infinito é o universo dos finitos. Lembrando que não
é uma classe em sentido substancial, esta última o caso comum em
que a compreensão não se reduz à extensão, não havendo no número
diferença de indivíduo e espécie, independente das coisas
quaisquer numeradas.
Para
Mondolfo, se o tempo aristotélico entra na categoria da quantidade,
e Aristóteles nega a si a infinitude em ato de qualquer grandeza,
por que para a realidade simplesmente numerável ser um numerado
seria preciso percorrer um caminho infinito, uma vez que as rotações
celestes se realizam ab aeterno ocorre precisamente infinitude em
ato, o percorrer de um caminho infinito. Pois usufrui do número,
tendo no tempo seu número numerado, mas desenvolvendo-se
eternamente. Já vimos que resta problemático justapor que assim
constitui-se em sua numeração uma infinitude em ato -
entretanto o que procede Mondolfo. Porém sempre de modo que podemos
entender não ter sido o que Aristóteles realmente assumiu como a
consequência da prória teoria, não obstante podendo ser que nas
entrelinhas tenha sido o intuído pelo Estagirista.
De
fato, Mondolfo considera que ele empreendeu todos os esforços para
garantir a separação de tempo e extratemporalidade, mas tal coisa
devia fracassar "pelo próprio fato de que, devendo a eternidade
extratemporal ser o fundamento e razão da temporal, a separação
tinha seu reverso na relação pela qual ambas se ligam (para usar
uma comparação do próprio Aristóteles) como a convexidade e a
concavidade num mesmo círculo." (p. 128) Cita a propósito
Rivaud, para quem Aritóteles já não tinha necessidade de mitos
cosmogônicos sobre conflagrações cíclicas universais, porque por
força da dedução lógica já havia proclamado a união necessária
do devir e do ser, ambos eternos como o universo mesmo.
Porém
assim o básico da teoria aristotélica, sua estrutura posicional,
está abstraída. E é na diversidade dos níveis estruturais que
Aristóteles estabeleceu a irredutibilidade do ser e do devir. Eis
porque Aubenque resulta mais certo que o Hegel citado por Derrida
citando a proposição da Metafísica em que Aristóteles derroga o
recurso do mito na filosofia, como daqueles a quem não se deve
tratar seriamente. Também podemos considerar que Aristóteles visava
assim a diversidade dos gêneros, mito e filosofia, mas não
implicando a do conteúdo originário que, inversamente, com Aubenque
vimos Aristóteles depurar como o mesmo.
É
interessante que se Aubenque também divisa um fracasso de
Aristóteles, não é porém porque poderíamos de fato pensar o
infinito em ato, mas, inversamente, porque em qualquer coisa que
pensamos realizamos o correlato de algo que só existe em potência.
O ato puro do motor imóvel é inferido do sistema de identidade, mas
o que atribuímos cientificamente - antes que ontologicamente - é a
essência de algo em potência, essência em sua realidade cindida de
si mesma como pura. A ciência, devemos lembrar, é o sistema dos
movimentos naturais. Se é assim, no limite da honestidade
intelectual o sábio devia localizar uma antropologia, não uma
ontologia. Aristóteles de fato procede honestamente por uma, mas não
desiste nunca da outra, que seria a ciência do ser enquanto ser,
restando porém não acabada, mas apenas proposta ou "procurada".
Nesse ponto, contudo, deveríamos nós realizar o movimento circular
do texto aubenquiano, e reunir essa conclusão com o que inicialmente
ele situava em termos da descoberta do que hoje é mais referenciado
como o tempo lógico. A ciência ela mesma, conforme Aubenque, a de
hoje, é a que não se esgota no fato de experiência, mas faz
sistema. E a ontologia é esse princípio do sistema, emergindo aí
por primeiro na história do pensamento humano.
Creio
que se nós tivéssemos que situar uma crítica, devia visar a essa
altura e não ficar como a de ontem, na irredutibilidade do
materialismo ao idealismo. Assim, para notar que a situação do
estruturalismo é análoga à da análise fatorial. Só se encontra
ao cabo do cálculo o que nós mesmos colocamos no começo... Mas
isso não exime a assim designada metodologia funcionalista. Apenas
deveria alertar para o que, como e por que colocamos.
Quanto
à questão de Mondolfo, podemos observar que se Aristóteles não
logrou atingir a concepção de infinito atual, ou explicitamente a
negou, concepção que na modernidade vimos afirmada em Royce, é
porque só desde Cantor e Frege pode-se relacionar conjunto a
conjunto, enquanto até aí e já na época de Aristóteles só se
relacionava quantidade a quantidade. Assim ele não podia predicar
subconjuntos, que em termos quantitativos seriam porções de
infinito, contradição em termos.
Porém
o próprio Cantor enunciou a aporia que mais tarde também descobriu
Frege - que ao contrário dele se cercou de cuidados formalistas tais
que não podia ser acusado de ingenuidade. É o paradoxo do conjunto
de todos os conjuntos, que ao mesmo tempo é conjunto e elemento.
Assim reporta Dessanti em seu artigo na História da filosofia
organizada por Chatelet ("as matemáticas: nascimento da
modernidade, 1850-1900). Em nosso percurso aristotélico, não
poderíamos aqui divisar o paradoxo dos muitos infinitos?
O
balanço de Dessanti, é o de um século que terminou numa
interrogação. Entre uma conquista, a de um material comum que
parecia poder restaurar a mathesis universalis da época
clássica em outros termos: ao invés do número natural, o conceito
de conjunto abstrato. Porém na descontinuidade do antigo conceito de
quantidade por um lado, e no paradoxo, por outro. O "paraíso de
Cantor" vem podendo se tornar mais manejável ao longo destes
cem anos subsequentes, mas se esta já é "uma outra história",
conforme Dessanti conclui, a meu ver o problema antigo da
representação como um limite que o conceito de infinito
ultrapassaria se pudesse se tornar, precisamente, manejável,
permanece.
Ora,
a reversão do ponto de vista do sistema, relativamente ao conceito
da ciência moderna como ruptura experimental, em termos de
redefinição do papel do idealismo como a origem da epistemologia do
sistema tem aí um ponto de controvérsia. Porque assume-se por outro
lado, como Foucault e muitos outros, que a modernidade nasce
justamente com o sistema enquanto ciência pioneiramente em ruptura
relativamente à representação da época clássica, e o paradoxo
poderíamos considerar a medida dessa ruptura. Por enquanto nem
precisamos considerar o ponto forte dessa visada histórica - o modo
pelo qual o classicismo pós-feudal difere do que lhe precede - mas
apenas reter o limite comum da representação para bem ou mal, para
afirmar o negar a possibilidade da ciência.
Ora,
o formalismo não elide a ruptura moderna para com a representação
dos fenômenos como elementos teleologicamente disponibilizados por
um todo da Natureza que entretanto é ulterior a ela enquanto
Intelecto. Pelo contrário, a legitima ao ponto da pós-modernidade
das ciências como autonomia de linguagens puramente formais. A
resolução da indemonstrabilidade dos primeiros princípios pela
mera antropologia é justamente o inverso dessa assunção.
Como
vimos, Derrida não critica a ontologia por seu mero formalismo
sistêmico, bem inversamente. O que ele critica é a um determinismo
que para se conceituar como sistema das coisas, se socorre de outra
coisa, a saber, a teleologia, e, quanto a esta, é ulterior ao ser
essencial, porém apenas para fazer com que coincida com todo o
humanamente visível e tangenciável, desde que a pressuposta
antropologia tenha abstraído todo fator de incongruência. A
heterogeneidade não é, ainda assim, o que o (pós)-estruturalismo
resolve restaurar, mas a razão imanente do todo ao seu discurso,
esse Esquecido. A teleologia? Eis o recalcamento do signo.
Retornando
à antropologia pressuposta por Aubenque como o limite em que
Aristóteles estabeleceu a ciência possível neste mundo, i.e.,
nessa posição sublunar do sistema de esferas concêntricas, nesta
relação dada com o intelecto inato de todo o saber possível em
qualquer mundo que é o motor imóvel ou mente de Deus, vejamos o que
se encontra quando ela se realiza propriamente. E como temos
constatado ela o faz na humanística aristotélica em que a
phrônesis, seguindo a primazia do gênero deliberativo, parece
assinalar o limite. Ora, a antropologia aí se desborda entre a
máquina e o animal. O tipo da euboulia, ou a boa deliberação
resulta da prudência que é efetivamente extensível a uma antevisão
daquele animal que for capaz de apreender o bem estar relativo à sua
espécie, conforme a Ética nicomaquéia (VI, 7m 1141 a1 a 25). Pois
sendo sabederia prática num sentido ainda coincidente com o de
ciência política - o que contudo logo à frente se distinguirá
porque a primeira é virtude pessoal e a segunda um rol de
capacidades institucionais - ela é essa espécie de apreensão
relativa à espécie.
Não
consiste pois no que se poderia supor como "atitude teórica",
essa espécie de sapiência (sofia) que seria universal, independente
da espécie, por um lado. E por outro, limitando-se ao bem da nossa
espécie, não são os humanos a melhor coisa do mundo. As demais
espécies tem seu próprio bem, e há entes mais excelsos como os que
compõem o sistema celeste. A prudência exclusiva do homem parece
ser associada a que a prhônesis nele se aplica como necessidade de
deliberar, e esta requer muito tempo, conforme o adágio citado por
Aristóteles segundo o qual a execução dever ser rápida e a
deliberação, lenta (VII, 9, 1142 b1 a 5), mas proíbe Aristóteles
que esta seja confundida com qualquer espécie de opinião, pois
enquanto deliberamos estamos investigando e calculando alguma coisa,
ao passo que aquele que opina já chegou a uma afirmação cabal
sobre a coisa. (1142 b1 a 10).
É
sim a deliberação, conforme Aubenque, em Aristóteles, "combinar
meios eficazes em vista de fins realizáveis." (op. cit. p. 182)
Assim o resultado da boa deliberação como aplicação da phrônesis
é também por Aubenque assinalada como o bom êxito em certa conduta
animal. Ele não cita o trecho que localizamos, mas lembra que
Aristóteles colocou em questão, "nas obras biológicas",
se phrônesis ela mesma poderia talvez ser atribuída a animais como
a abelha, sendo "uma inteligência totalmente prática, não
requerendo outra condição que a memória". (p. 253)
Realmente
não se poderia obter mais expressivo exemplo da irredutibilidade
entre Aristóteles e Platão, do que esse trecho do comentário de
Aubenque; "Uma filosofia que se apoiasse na ciência para
conhecer a realidade em suas menores determinações, não poderia
ter senão desprezo por um regime de assembléia onde a palavra é
apenas um biombo para a incompetência ou, no máximo, o substituto
abusivo da competência" (p. 183). Ou seja, a opinião que
Platão defende no diálogo intitulado "Gorgias", 456 a-c,
458e-459c., segundo Aubenque, que nesse ponto remete ao seu próprio
"O problema do ser em Aristóteles" (parte 1, cap. III; na
edição Quadrige/PUF, 1994, p. 262 e segs.), onde com Aristóteles
valoriza o ponto de vista contrário a Platão e favorável a
Gorgias. Trecho em que veremos encerrar-se todo o sentido da
antropologia na tese aubenquiana sobre o aristotelismo.
As
palavras que Platão utiliza não correspondem literalmente às
expressões que Aubenque utiliza a propósito do regime de
assembleia, quando se trata, ainda, de "A prudência em
Aristóteles". Correspondem apenas quanto ao sentido. Na
imanência do texto platônico, aí Gorgias está defendendo a
retórica como arte (teckné) da persuasão, cujo valor prático ele
demonstra apenas pelo famoso exemplo do médico impotente para
convencer seu paciente a submeter-se ao tratamento necessário, o que
um retor obtem com facilidade. Na verdade segundo consta isso
acontecia realmente com o irmão de Gorgias, que sendo médico,
precisava dele para convencer os pacientes a aplicarem a receita.
Porém compreendemos a escolha de Aubenque por aqueles termos, se ele
logo acrescenta: "Sobre esse ponto, não se pode duvidar que as
concepções do mundo refletem a realidade social, mesmo que com um
certo atraso". Se Aristóteles dissocia tão profundamente o
teórico e o prático, a deliberação privada ou política e o saber
de matérias científicas, podemos reconhecer assim "o vínculo
profundo entre uma filosofia da contingência e a prática do sistema
democrático, ou seja, deliberativo". O oposto, pois, do que
almejava Sócrates no Gorgias.
Porém
a meu ver é questionável a defesa da democracia por Aristóteles,
uma vez que, primeiro, a Polis que ele conceitua não é a realidade
efetiva do contingente populacional que nela coexiste. Não é o
vínculo propriamente "político", isto é, estabelecido
unicamente pela palavra - ou palavrização, conforme o neologismo de
Apel - conjuntamente deliberativa e da qual se sancionam as leis, e
já a lei da pertença à Polis, a que define a atribuição da
cidadania. Como Sciacca colocou oportunamente, para Aristóteles "A
sociedade não é, pois, uma formação artificial, mas uma
necessidade natural" (São Paulo, Mestre Jou, 1962, p. 111). A
oposição aristotélica de teórico e prático não é a mesma da
mentalidade sofística adaptada à democracia ateniente, entre a
physis e o nomos, natureza e cultura. Segundo, assim sendo a
política aritotélica se endereça como teoria do governo "não
só perfeito, mas também realizável e que possa facilmente
adaptar-se a todos os povos" (p. 112). O que é contrário ao
que o pensamento democrático-sofístico sobre as leis demarcava pela
autonomia da cultura. As leis da Polis não são aplicáveis senão
na Polis, por que não refletem consenso de sentido coerente com
outras culturas.
Essa
heterogeneidade da cultura, é um dos princípios do antigo
criticismo, que vimos Aristóteles obsessivamente denegar tanto
quanto Platão. Ela se comunica pois a um regime baseado na cisão
entre lei pública comum aos cidadãos, e costume privado
heterogêneo, que cada um segue como quiser.
Em
Aristóteles a negação do heterogêneo nem se detem no que já
vimos da Metafísica, mas se estende à teoria do conhecimento. O
intelecto agente que completa em cada um de nós o ato da atribuição
do universal é porém único para todos e eterno, somente o
intelecto passivo sendo individualizado.
Além
disso, a cidadania em Aristóteles na acepção do status
deliberativo em nível de leis, é restrita aos senhores, por
natureza - escravos não o são por contingência ou lei civil, mas
por natureza. Ou seja, não há consideração de que a relação
mesma do senhorio é da ordem da legalidade civil. O que é coerente
com a posição da Ética, na qual as relações de amizade entre
pessoas em várias situações é tratada por analogia com formas de
governo. Mas a amizade entre senhor e escravo não poderia existir,
para Aristóteles. A relação entre eles é análoga à de
governantes e governados numa tirania, mas aqui Aristóteles
considerando que restrita ao senhorio este é um regime correto,
embora não o seja comparada à autoridade paternal como entre os
persas. Aristóteles está pois elogiando a estes exclusivamente
quanto ao modo como consideram as relações senhoriais. A seu ver, a
relação de filhos com pais é semelhante a do rei com seus súditos,
"pois a realeza ideal é o governo paternal" (VIII, 10,
1160 e segs.)
A
amizade entre senhores e escravos não pode existir porque só
subsiste entre pessoas, não cabendo atribuir à relação de pessoas
com coisas inanimadas, a que para Aristóteles se resume um escravo,
puro instumento como o boi ou o utensílio. Poderia haver amizade com
o escravo não enquanto escravo, mas enquanto ser humano - porém
assim não creio que Aristóteles está dizendo que este ou aquele
escravo podem ser visados fora da condição, mas sim que enquanto
não escravizados eles poderiam ser visados como amigos. O escravo
para Aristóteles é o asiático capturado por um grego, aquele sendo
lânguido e inexperto, e este todo ao contrário, de modo que se
segue a tese da escravidão por natureza.
E
como vimos na Ética, a virtude perfeita não convem a todos, mas
somente a um tipo em que discerniríamos hoje o status das classe
emergente e superior. O discurso aristotélico não se dirige a
qualquer um, mas à elite, conforme Bréhier comentando a máxima
célebre de Aristóteles sobre que "Quando se trata de virtude,
não é suficiente o saber; é preciso ainda a possuir e a praticar".
Nas palavras de Bréhier: "Sobre o alcance desse ensinamento, o
moralista não deve tecer demasiadas ilusões: simples discursos não
são suficientes para inspirar a bondade; eles serão frutuosos
quando se endereçarem a pessoas jovens com caráter nobre e liberal,
mas serão bastante incapazes de conduzir o vulgar à virtude. A
moral é pois, sim, um ensinamento, mas um ensinamento aristocrático;
não é uma predicação para a multidão, mas um convite à reflexão
pelos bem dotados; aos outros bastarão o hábito e o temor do
castigo." (op. c it. p.212)
Questionar o endereçamento
aristocrático da humanística aristotélica não é pois minha
intenção, ainda que como vimos essa tampouco seja a única
interpretação. Mas podemos questionar o endereçamento aos jovens.
Para isso, contudo, temos que confrontar a contradição da ética
aristotélica, como se deixa flagrar no texto de Sciacca. Por um
lado, Aristóteles distingue duas espécies de virtude, práticas e
intelectivas.
As
virtudes morais, "éticas" ou práticas, que consistem em
dominar as paixões para forjar o bom costume, e conforme a Ética
nicomaquéia (I, 1031 a1), são a generosidade e a temperança ou
moderação. Entre os livros III (1115a1 e segs.) e IV Aristóteles
estende a lista para abarcar a coragem, O III introduz a discussão
da virtude como justo meio (mesótes) entre os extremos, porém
avaliável conforme situações particulares, não sendo
generalizável. O livro V completa a lista, incluindo a justiça.
Máxima virtude, se cinde em justiça distributiva, que distribui os
bens geometricamente ( os bens de dus pessos estão entre si como os
seus méritos respectivos), e justiça comutativa, que preside os
contratos e é corretiva, conforme a uma proporção aritmética, a
simples igualdade.
As
virtudes intelectivas ("dianoéticas"), são as que se
relacionam às atividades do intelecto, ao invés da vontade. Sciacca
apenas parece igualar atividdes e virtudes: a ciência (faculdade
demonstrativa), arte (faculdade produtiva) e sabedoria
(discernimento do bem e mal), e a sapiência ("sofia") ou
contemplação ("teoria"), acima de todas porque não se
limita a demonstrar segundo princípios, mas abarca a faculdade de
julgar sobre a verdade dos próprios princípios. Aristóteles na
Ética (livro 1) as define como sabedoria, entendimento e prudência.
Em Sciacca a phrônesis aparece conforme o aristotelismo, como aquele
aspecto da razão que se define como intelecto prático e dirige o
uso da vontade.
Ora,
também assim Sciacca primeiro informa que Aristóteles restringe o
objeto da ética às virtudes morais, mas em seguida reporta que "o
cume da atividade ética é colocada na contemplação de Deus, como
para Platão era colocada na ideia do Bem". Por um lado, pois, a
phrônesis corresponderia à esfera prática, mas por outro lado,
não, é restrita como virtude intelectiva.
Em
todo caso, ao menos enquanto corresponde ao estudo da ética, para
Aristóteles este não é um discurso dirigido às pessoas jovens,
inversamente ao que considerou Bréhier. Na Ética nicomaquéia (VI,
1142a1), conforme Aristóteles, "embora os jovens possam ser
mestres em geometria, matemática e em ramos similares do
conhecimento, não há como considerar que um jovem possa ser
prudente". Pois, aduz, a prudência implica conhecimento de
fatos, ou "a experiência que é impossível um jovem ter, pois
ela é produto dos anos" (op.. cit. p. 189).
Aristóteles ajunta ao que não
está disponível à imaturidade juvenil, o status de ser um sábio
ou um filósofo da natureza, isto é, um filósofo ou um físico.
Aqui, sim, pode-se objetar aos partidários da metafísica
aristotélica como transcendência absoluta, pois isso implica
arrolar também a estes entre os produtos da experiência, como
expressamente Aristóteles procede nesse trecho. Porém na discussão
que apresenta aí, fica nítido que se Aristóteles está opondo
produtos do entendimento como as ciências facultadas também aos
jovens, e conhecimentos que requerem conhecimento de fatos, estes
últimos não facultados a eles, isso não implica que tais
conhecimentos se restrinjam aos fatos. Pelo contrário, o objeto da
filosofia e da física são os primeiros princípios, como ele
insiste. Ou seja, a experiência de fatos que pudesse visar-se a si
mesma como apenas experiência de fatos, que não houvesse atingido
aquele ponto em que a semelhança e a generalização tornaram-se
possíveis, é em que Aristóteles mantem a imaturidade ao contrário
da velhice. Também não implica isso que não subsista a
irredutibilidade dos domínios teórico e prático.
Por
outro lado, a amizade ele limita aos jovens. As pessoas idosas e
taciturnas podem gostar de outros mas não os procuram, "visto
que tendem a ser mal-humoradas ou rabugentas e não obtem muito
prazer na companhia alheia", enquanto a amizade não se limita
ao gostar de outrem, mas comprazer-se na companhia dele e procurá-lo
(p. 244, 5).
Ao
que parece, Aristóteles quer mostrar, quando fala de casos
particulares finais como os relacionados à prhônesis, que nesse
caso do que faculta a deliberação ética não se trata apenas de
ajustar uma premissa geral a um caso particular, de modo que as
possibilidades de errar não se limitam ao discernimento de alguma
dessas duas premissas.
Quanto
à nossa questão relacionada à interpretação da doutrina como pró
ou contra a democracia, na teoria política, conforme ainda Sciacca,
vimos que Aristóteles pensa a sociedade em termos de natureza, e a
ciência ou estudo correspondendo em termos de generalidade, mas ao
distinguir especificamente formas de governo ele considera que sua
escolha deve ser coerente com épocas, condições e necessidades dos
povos. As formas são monarquia (governo de um só), aristocracia
(governo dos melhores) e democracia (governo da massa). O que se deve
evitar na eleição da forma ajustada à situação, é também os
extremos que ferem o justo meio. Estes extremos são a tirania que
tem por fim a vontade do monarca, a oligarquia que para Aristóteles
é plutocracia, e seu contrário, a demagogia, que é governo dos
indigentes.
Ora,
consoante a concepção de Aristóteles como defensor da democracia,
podemos também aduzir que seria algo inconsistente um elogio a algo
definido como governo da multidão, em vez de por igualdade de status
da cidadania. Aqui a citação que fizemos acima de Bréhier é útil,
pois como vimos a moral aristotélica não se dirige à multidão.
Além
disso, ao definir na Ética (VIII. 1160b e segs.), a relação de
amizade entre marido e mulher como a mesma de governantes e
governados numa aristocracia, ele assim define a esta: "o esposo
manda por força do mérito e conveniência...", de modo que a
proporção do que cabe a cada um como devotamento pelo outro, "diz
respeito à virtude e a parte mais virtuosa recebe a porção maior
(de bem), ao mesmo tempo cada parte recebendo o que lhe é
apropriado: e o mesmo se entende quanto às reinvindicações
referentes à justiça em ambos os lados."
Aqui
creio haver mais do que a conhecida injunção aristotélica de que
numa relação amorosa, ao melhor cabe ser mais amado do que ele ama.
A saber, o que Aristóteles realmente considera o melhor - os
"aristoi" conforme a etmologia grega da "aristocracia",
vindo de Homero, inversamente a apenas o privilégio de uma minoria.
Além disso, nesse trecho Aristóteles positivamente associa a
democracia com as casas que carecem de senhorio, "uma vez que
nestas todos os seus membros são iguais, mas também prevalece onde
o senhor da casa é fraco e, asism, todos podem fazer o que quiserem"
- o que subentende, tanto os maus quanto os bons (p. 254). O fazer,
pois, não está discriminado entre a lei comum e o costume privado.
A própria analogia se destina a elidir a cisão.
Na
defesa de Aristóteles democrático, inversamente, a questão crucial
do "Gorgias" em Platão, para Aubenque se resume, conforme
"O problema do Ser em Aristóteles", o limite prático da
ciência. Sócrates distorce o pensamento de Górgias quando este
apresenta a retórica como persuasão do homem pelo homem, a partir
do seu exemplo do médico que precisa de alguém que saiba convencer
o seu paciente a tratar-se como prescreve, ao ripostar que se é
assim o retor é aquele que quer substituir a verdade pela ilusão. A
retórica ela mesma como substituto da ciência.
Não
é assim, para Aubenque. Gorgias não devia estar pensando nestes
termos, mas bem inversamente testemunhando uma "concepção
profunda, e em todo caso defensável, das relações entre o homem e
a arte." Esta intervem naquele nível em que a atribuição de
algo por alguém envolve um reconhecimento - aqui Aubenque parece
aproximar-se do estoicismo. O reconhecimento aí, ao que parece, é
da ordem da vontade: "Gorgias não pode ter querido dizer que o
retor é mais competende em medicina que o próprio médico, mas
somente que a competência não era para ele o essencial, porque a
competência encerra o homem da arte uma relação determinada com o
ser, enquanto que as relações do médico e do paciente são
relações de homem a homem". Acima do competente, Gorgias
situa, ao ver de Aubenque, "o homem qualquer, o homem
simplesmente humano, ou seja, universalmente humano".
Mas
por que seria o retor esse homem? Ele é, conforme Aubenque, porque
a retórica não é uma arte igual às outras, e isso por duas
razões. Primeiro, porque ela exclui toda "polimatia" -
aquilo que Heráclito censurava a Pitágoras, o saber de várias
ciências ao mesmo tempo - assim como, inversamente, a toda
especialização. Ela não tem objeto próprio, do mesmo modo que a
filosofia. Em seguida, por isso que sendo uma técnica, ela não é
um saber das coisas, mas sim "uma experiência dos homens, mais
precisamente, das relações humanas". Aubenque prossegue,
atingindo aquele ponto crucial de que falamos acima: " É nesse
sentido que a Retórica aristotélica comporta em seu livro II um
tipo de antropologia prática na qual seríamos tentados a ver um
tratato do caráter e das paixões, se Aristóteles não nos
interditasse considerar como 'científicas' as definições que ele
propõe. Sobre esse ponto ainda, Aristóteles será mais próximo de
retores e sofistas do que de Platão". (op. cit. p. 262, 3).
Contrariamente ao que
comumente se ensina, conforme Aubenque não segue Aristóteles a
Platão no discernimento de uma retórica científica daquela
perniciosa, a dos retores. Ele só conhece a dos retores, por que a
seu ver a retórica não pode ultrapassar o limite da empiricidade,
aquele em que os homens vivem de suas relações mútuas. Seria uma
contradição em termos, pois a ciência especializa e isola,
enquanto a retórica só existe como relação entre pessoas. A
retórica não científica se proíbe de fragmentar a humanidade, ela
se dirige ao "homem total, capaz de deliberação e de ação,
de julgamento e de paixão, que é o ouvinte do discurso retórico.
Separando o homem de si mesmo, a ciência separa assim o homem do
outro homem". Mas será que Aristóteles é algum
anti-intelectualista, um criticista do saber, um protagórico que
limita à opinião pessoal o que cada um considera que sabe? De
fato, aqui, Aubenque não opõe a transcendência "dos que
sabem" a alguma imanência como real em que Aristóteles
situou a verdadeira vida, mas sim "à fraternidade tateante
dqueles que vivem na 'opinião'". Eles vivem aí, mas para
Aristóteles, como vimos o próprio Aubenque tanto insistir alhures,
sem limitar-se à total impossibilidade de saber ou bem agir, por
isso que num caso e no outro, eles tendem à perfeição dentro do
seu possível, e assim sua ação transcende o tateamento no rumo da
imitação do modelo, o deus enquant o ser perfeito.
A
opinião à Protágoras fragmentaria a universalidade tanto quanto a
ciência , deveríamos recordar. A menos que entendamos a sentença
do homem como a medida das coisas no sentido da espécie e não do
invidívuo, mas ainda assim seria da própria espécie estar em
condições e situações diversas, que aportam àquela diversidade
de cultura e opinião que Aristóteles tanto faz por evitar. Assim
ele não nos diz que a avaliação do meio termo na virtude é
circunstancial porque para uns e para outros não se trata do mesmo
critério, mas sim por que eles não tem as mesmas forças, nem a
situação e a mesma. Pelo contrário, na Ética nicomaquéia,
Aristóteles visa diretamente contrapor-se à teoria de que se todos
almejam o que se lhes afigura bom, não são porém responsáveis
pela aparência das coisas. É segundo o caráter de cada um que se
afigura a finalidade da ação como boa ou má.
O
contra-argumento aristotélico é que devemos responsabilizar também
o indivíduo por sua concepção de bem ou mal, ou, do
contrário,"nenhum homem será responsável por sua má
conduta." (livro III, 1114b1) A visão moral sendo uma questão
de physis ao invés de nomos: "Um homem necessita nascer, por
assim expressar, com 'visão moral' pela qual possa discernir
corretamente e escolher o que é verdadeiramente bom. Um homem de boa
disposição é alguém naturalmente dotado nesse aspecto; pois se
uma coisa é o mais elevado e nobre dos dons ... uma boa e nobre
dotação natural nesse sentido constituirá uma boa disposição no
sentido cabal e verdadeiro do termo."
Ora,
em "A prudência em Aristóteles", Aubenque julga que a
posição que atribui a Platão é coerente com a vigência da
democracia, ainda que já de quando "a sociedade" está
"por certo desequilibrada, mas tudo parece ainda possível para
a ação humana fundada na ciência". (op, cit. 183) Mas como
vimos em "O problema do ser em Aristóteles", Aubenque não
considera que o apogeu democrático que indubitavelmente associa-se à
retórica sofística fosse um referencial não humanístico naquele
sentido que ele mesmo posicionou como científico. Ele demarca,
inversamente, a radical oposição do ideal monárquico-científico
de Sócrates àquele que seria o democrático- retórico sofístico e
aristotélico.
Entre
o jovem burrinho simpático e o velho intelectual intratável, a
meu ver Aristóteles não parece assim tão comprometido com a
igualdade de condições do face a face entre os homens enquano cerne
da defesa da retórica sofística. Mas, seja como for, se Aristóteles
já se encontra num momento posterior ao de Platão, para o Aubenque
de "A prudência em Aristóteles" é importante ressaltar
que é porém momento anterior à idade helenística. Nesta "a
impotência política da Grécia favorecerá uma cosmologia do
destino e uma religião da Providência, onde a impossibilidade de
transformar o mundo será transmutada em adesão quase mística à
sua racionalidade oculta".
Entre
as duas, pois, conforme Aubenque, "o mundo de Aristóteles é
ambíguo... nem inteiramente racional, nem inteiramente irracional."
(p. 183) E, sobretudo, a tese da eficácia da deliberação humana é
uma nova forma de pressupor a contingência dos futuros, de modo que
o homem que delibera é ele mesmo um princípio do futuro como do
não-antecipável.
É
interessante o contraste dessa concepção de Aubenque a propósito
da irredutibilidade dos períodos antigos clássico e helenístico,
com o que Sciacca conclui a propósito. A seu ver, de Homero a
Plotino há uma continuidade que só se deveri opor à consciência
que emerge com o cristianismo. A unidade profunda do pensamento grego
antigo, é a afirmação de "uma ordem divina racional, garantia
da ordem humana e natural, e sua finalidade". Mas assim essa
finalidade mesma não é explicada, assim como a sua significação.
A concepção algo surpreendente de Sciacca é pois que "aos
olhos do filósofo pagão este mundo e esta vida permanecem sempre
incompreensíveis". Ao que pareceria para um filósofo da
natureza que pudesse apreender o porvir do cristianismo, não seria o
contrário? Não pareceria a ele que a vontade arbitrária de Deus é
que resulta num "creio por ser absurdo" à Tertuliano? De
fato o que Sciacca mais pretende salientar, é a irredutibilidade da
filosofia antiga ao criticismo tanto quanto à "tentativa de
explciar o mundo com o mundo e o homem com o homem (a negação de
uma ordem transcendente". Esta seria apenas "crise
passageira" se não "filão secundário", ou ainda
"signo da decadência". (op. cit. p. 153)
De
fato o helenismo temos tratado como um momento em que retorna a
índole mística das pioneiras filosofias, mas com um sentido
irredutível à sua afirmação de saber especulativo, para recuperar
a sua junção a seitas iniciáticas. Na era do império, a sapiência
se reduz a sabedoria, a filosofia quer ser apenas arte do bem viver.
Mas nele permaneceram ramos da sofística e vicejou o ceticismo
pirrônico. A academia de Platão abraçou o ceticismo radical -
diferente da suspensão do juízo própria aos seguidores de Pirro. A
própria circunscrição à sabedoria de vida significava um
criticismo implícito, com exceções de escolas sistemáticas como o
estoicismo e o aristotelismo.
Em
todo caso, detendo-nos mais em torno do Gorgias, vemos que o
objetivo de Sócrates não se limitava a fazer da retórica um
substituto incerto da ciência certa. Mas sim conduzir Gorgias a ter
que conceder que o retor ensina mais que a técnica de bem persuadir.
Gorgias defende a Retórica - aqui como no Elogio de Helena - com
base em que ela é como a arte da luta, à exemplo do pugilato, algo
que serve ao que quer aquele que aprende, à ação virtuosa ou ao
contrário, independente do que ensina o retor. Este não tem culpa,
portanto, de alguns fazerem mau uso da arte.
Porém
Sócrates insiste em que enquanto aprendiz, é possível que a pessoa
não esteja em condições de discernir o bem e o mal. Assim o retor
deve ensinar seu aprendiz também a julgar em vários aspectos da
vida social em que está se iniciando justamente com o retor. Gorgias
deve concordar que assim é, e Sócrates tem por conseguinte a
oportunidade de atribuir ao retor também a ocupação de ensinar o
que é justo ou injusto, flagrando a contradição gorgiana: o retor
tanto deve ser aquele que sabe o que é justo e é o justo, quanto
aquele que nada tem a ver com qualquer saber positivo além da
técnica do convencimento de qualquer pessoa sobre qualquer coisa,
podendo inclusive por esse meio agir injustamente.
Não
há meio, obviamente, de se desfazer a contradição apontada por
Sócrates. Porém podemos observar que Platão elide de todo Diálogo
o ponto crucial da teoria da linguagem embutida na retórica enquanto
base da cisão sofística de physis e nomos, que como se deve
considerar, abrange a oposição de privado e público na medida em
que o homem particular tem ele mesmo uma natureza inalienável, e
tudo aquilo que pode ser matéria de discussão pública,
inversamente, é alienável, nesse sentido, precisamente, de depender
de deliberação comum.
O
ponto crucial é portanto a relatividade da cultura, a qual é dupla.
Tanto é a irredutibilidade entre culturas, quanto a heterogeneidade
no interior da cultura grega democrática - isto é, civilizada nesse
sentido de ser consciente de si mesma enquanto cultura deliberativa,
e não imediatez da natureza.
A
deliberação que Aristóteles trata na Ética, é na verdade
instrumento político na sofística só enquanto não está reduzido
o regime a uma autoridade de privilégio de um ou poucos sobre todos
os demais. Na Ética, para Aubenque, Aristóteles reduziu, por um
lado, a prudência ao ideal homérico não do bravo Aquiles, mas do
cauto Ulisses, e, ainda assim, isso como um elogio socrático do rei
sábio, Aristóteles seria um defensor da democracia na medida que
para ele a ciência é inaplicável nesse nível da convivência dos
homens. Mas o sentido da imitação que subentende uma perfeição
acima da heterogeneidade do critério, Aubenque não relaciona, nem o
poderia, a essa oposição limitada ao saber e à ignorância.
Sendo
um pouco uma coisa e outra, o homem da deliberação aristotélica
"representa a via humana", conforme Aubenque. Mas como
vimos, ela está mais profundamente regrada por um ideal divino, não
apenas circunscrita à limitação das nossas diferenças - estas que
não são pensáveis nesse esquema que se cinge ao resultado bom ou
mau da ação própria. E é por isso mesmo, por ser regrada desse
modo, como por um ideal não-humano de perfeição, que para Aubenque
ela é humana e não puramente técnica ou animal. (op. cit. p. 180 a
188)
O
substituto da ciência impossível de encontrar, que a phrônesis ou
prudência deve possibilitar a nós, é a gnome, o juízo que
Aristóteles colocará, segundo Aubenque, entre as virtudes que a
acompanham, ao inverso de algo que só compreenderíamos na esfera
autônoma e coletiva do político (p. 259).
Nem
haveria outro critério, já que além do móvel só resta aquilo que
poderia se reduzir à destreza ou à sorte. E preces à eutikhia",
a boa fortuna, consta entre os tópicos relativos ao senso-comum da
phrônesis como limitação, assim como o conhece-te a ti mesmo do
oráculo de Apolo em Delfos não significaria para Aubenque, nada
diverso da solene indiferença de Sócrates pela auto-reflexão a
propósito, uma vez que ele, segundo Aubenque, só sabendo que nada
sabia quando o oráculo lhe revelou ser o mais sábio, estava bem
dentro do senso-comum grego que a exortação do oráculo traduziria:
saibas que não és um deus, mas sim um homem, e, por isso, ama a
grega prudência (p, 264). Toda essa limitação que Aristóteles
ultrapassa, contudo, por seu conceito de prhonesis como ideal
imitativo da perfeição divina, segundo o mesmo Aubenque. (p. 275)
É
interessante que ao referenciar o rei sábio, Aubenque utilize
"sophós" como designativo, ou seja, um vocábulo que em
grego designa o sujeito de um saber especializado como o retor,
vocábulo que introduziu a espessura relativamente ao mestre da
sabedoria de tipo iniciático e religioso da época homérica.
Costuma-se observar que o sophos, como retor, também é irredutível
ao tipo do filósofo pré-socrático, que detinha um saber da physis
em geral. Aubenque relata, contudo, o fato de que não há
diferença entre sophia - a raiz de sophos - e phrônesis em
Aristóteles, quanto ao texto inicial da Metafísica. A oposição de
prhônesis e sophia, como sabedoria prática e sapiência dos
princípios só ocorre na Ética nicomaquéia, o que cria um problema
enorme à exegese, porquanto não se explica jamais em Aristóteles
como podem coexistir as duas definições.
A
meu ver, seria preciso lembrar aqui que etmologicamente "sophia"
e "sophos" são de modo evidente aparentados, porém o uso
histórico desses termos é o mais oposto. O sophós que designa o
retor como especialista (em retórica) significa justamente que não
se trata de um filósofo que detem um saber em geral. Assim de
"sophós" neste sentido é que vem o termo "sofista".
Mesmo
que "filósofo" desde Pitágoras significasse o "amigo
da sabedoria" - na acepção de aspirante a ela, porque o sábio
real que já a possui só poderia ser Deus - o tipo da sabedoria
procurada aí é o que importa. Ela não é a restrição à
especialidade que o sophós da era democrática atribuía a si mesmo,
mas a sabedoria que na filosofia conservou com instrumentos próprios
o desejo pela generalidade própria da arcaica visão de mundo
religiosa.
Assim
a sophia que Aristóteles distingue da phrônesis na Ética
nicomaquéia, deveríamos indagar primeiro se é a sapiência do
"filósofo" ou a qualidade de um saber especializado como a
do "sophós". De fato a prhônesis não parece coincidir
com nenhum deles se o contexto em que ela se predica é o
discernimento que o comum dos homens ostenta quando podemos elogiá-lo
por sua conduta, subentendendo assim que não há a questão do
critério.
Mais
um motivo pelo qual a Ética não é endereçada à multidão, mas ao
leitor ideal que comunga do critério ao mesmo tempo que é
dignificado pela leitura como reconhecimento comum, seu e do texto,
de que esse é o único nobre. Restando na exclusão do universo
textualizado todo o vulgar que assim não considera.
O
nobre é o belo (kalos) e bom (agathon), o ideal da "kalokagathia"
que une a aristocracia de Homero a Platão, mesmo que assim como
Aristóteles este estivesse interessado em purgar o mito religioso
das ficções que convem ao desejo antes que ao dever. Mais
propriamente, em Homero a kalokagathia é a destreza como a virtude
na acepção de dom específico vindo de deus ao herói de estirpe
ilustre (beleza, inteligência, bravura, etc.), assim como também
era questão de berço aprender as letras junto com a etiqueta.
Enquanto desde Sócrates na metafísica ela é a inteligência e a
moralidade.
Com
efeito o prazer está excluído da ética aristotélica, ou ao menos
o prazer que - como a beleza de Helena - não se cinge à prática da
virtude. O contexto da metafísica refere-se pois, já não à
virtude específica ética, mas ao conhecimento dos princípios. A
meu ver, não há contradição entre os dois usos da prhonesis,
igual e diferente da sophia, mas diferença de contexto.
Algo
que entendemos mais se lembrarmos que a variação da concepção de
aretê ou virtude, desde Homero, abrange a transformação na qual
emerge a Polis, por um lado, indo desembocar na relação entre
virtude e lei cívica, como em Solon conforme à democracia ou - num
sentido autoritário - no espírito das leis espartano. Mas na
sofística, a virtude se relacionava ao dom da boa linguagem, o
conhecimento da retórica, já que deste dependeria o bom
entendimento entre os cidadãos.
É
por isso que os retores se gabavam de ensinar a virtude, e Sócrates
os desprezava por causa disso, como qualquer nobre o faria. Ele
trouxe o sentido da virtude para o igualar ao da justiça. A
princípio isso poderia lembrar Hesíodo, que antecedeu as
transformações do sentido da aretê na Polis, porque a entendeu num
sentido puramente jurídico do bom julgamento, isto é, aquele que
não visaria a diferença de condição nobre ou plebeia, mas que
valorizaria a honestidade definida como ajuste do gozo ao trabalho.
Porém a justiça em Sócrates é o que está intimamente relacionado
à ciência como ao saber metafísico, o que Aristóteles visa
demarcar como um campo irredutível ao mundo prático.
Em
tudo isso, a diferença comum é que desde a metafísica este mundo
terrestre se tornou desvalorizado, reputado imperfeito, e se Sócrates
pensa que mesmo nele pode haver a justiça como ciência do bem, é
porque crê na memória que o rei sábio só conserva do que sua alma
contemplou naquele outro mundo, puramente inteligível, do qual
viemos. Mas Aristóteles reduziu o mundo das ideias ao pensamento do
motor imóvel, indiferente a nós e inalcançável por nós.
Aparentemente, diferença enorme relativamente a Platão. Porém, o
ideal aristotélico da imitação do perfeito reproduz privadamente o
que o rei sábio platônico produz como politeia ou lei
pública.
Aristóteles
concebe a lei certamente de um modo institucional, pelo que o
cumprimento dela depende da aplicação burocrática ao caso de
circunstância, o que desloca totalmente a figuração platônica de
um dito exemplar dado de uma vez por todas. Mas assim ele está
explorando justamente a espessura que Platão colocou entre o que é
facultado ao sábio e ao comum dos homens neste mundo encoberto pela
materialidade, assim como, ambiguamente, por outro lado a situação
do intelecto - isento de heterogeneidade mas situado num mundo
imperfeito.
Aubenque
explora a proximidade das matérias humanísticas, ética e política,
em Aristóteles, que teria naquela desenvolvido um conceito de
deliberação emprestado desta. É assim que Aubenque fundamenta sua
tese do aristotelismo democrático e profundamente anti-platônico.
Mas nesse ponto é que encontramos a grande dificuldade da exegese de
Aubenque.
Aparentemente ela se deve não
tanto à tendenciosidade da atribuição democrática a um pensamento
que vários intérpretes consideram, inversamente, aristocrático.
Afinal certamente há também partidários dessa via aubenquiana, e
a própria "democracia" é antes de mais uma palavra, como
todo termo é polissêmico. A história ensina que por esse epíteto
muitas coisas diferentes tem sido desde tanto tempo reprovadas e
valorizadas, assim como a tantas práticas peculiares tem se
atribuído. Nem sempre é simples definir o que é abuso de
qualificação e o que não é. As monarquias escandinavas são bom
exemplo, não sendo porém únicas, já que alguns historiadores as
consideram democracias porque o rei é quem, por motivos da história
e configuração social local, está responsável pela igualdade de
status da cidadania, garantindo a aplicação da constituição
contra as possibilidades concretas de dominação por grupos de
privilégio, e compatibilizando-se com o desempenho regular do
legislativo. O parlamentarismo inglês seria exemplo ainda mais
adequado.
É
sim porque, se Aristóteles estava realmente na transição da
democracia ao império, e o seu conceito de democracia já modulava
ideais não compatíveis com a mentalidade típica do apogeu
ateniense entre Solon e Péricles, o problema reside alhures. A
saber, na construção conceitual desse novo ideal que
enquanto pós-democrático e imperial, carece compreensivelmente
daquele nexo que uniu de modo tão coerente democracia e sofística
enquanto uma filosofia da linguagem a partir da qual a
heterogeneidade do privado, essa base liberal comum à concepção
democrática ateniense e moderna, podia ser pensada.
Aubenque
reproduz, pois, uma dificuldade que não é a dele, mas do próprio
pensador que adota como mestre situado na qualidade de "incomparável"
.
Porém
precisamente essa atribuição esclarece do que tratamos aqui.
Aristóteles é "incomparável", na avaliação de
Aubenque, aí mesmo onde a dificuldade do seu pensamento ético é
tão flagrante que já não pode permanecer desapercebida. E se ele o
é, em todo caso, supondo com Aubenque que logrou isentá-lo do que é
apenas tão cômodo lhe atribuir, é porque conforme o recurso
utilizado por este, justamente já não se trata da ética, que nesse
ponto reconhece Aubenque explicitamente fracassada no aristotelismo.
Nas
palavras de Aubenque, quanto à boa deliberação, "...Aristóteles
se esforça, sem muita convicção, em dar o sentido artificial de
'deliberação em vista do bem', apenas exprime uma dificuldade mais
geral: as análises de Aristóteles sobre as condições da prudência
e as virtudes intelectuais conexas são menos uma contribuição à
ética do que fornecem os fundamentos de uma teoria geral da ação,
ou seja, de uma hermenêutica da existência humana enquanto agente
no e sobre o mundo. Desse ponto de vista, Aristóteles é
incomparável". (p. 192)
O
problema, contudo, conforme Aubenque o apresenta, não afeta a ponte
da política à ética que Aristóteles constroi na utilização da
deliberação enquanto suporte, comum a ambas as matérias, do que
seria o fundamento democrático da sociedade enquanto conveniente
à natureza humana. Pelo
contrário, quanto a isso Aubenque é peremptório na defesa da
excelência da solução aristotélica.
O
comum aí, à ética e
política, é a limitação
da ação do homem ao seu status deficiente de saber, que acarreta
porém como mal não apenas o que se segue de uma ação defeituosa
relativamente ao seu objetivo,
Mas principalmente
a hybris, a
transgressão contra o limite,
e eis aí o pecado dos regimes não-democráticos, seja enquanto
presunção de um acesso direto à divindade, seja enquanto
confiança no que seria o indivíduo do saber
que porta esse acesso.
Pecados
bem socráticos, como Aubenque salienta, porém aqui deixando
entrever o caráter não liberal e algo incoerente dessa defesa dita
democrática. Se houvesse o
saber, já que se trata da
natureza humana, não se
segue contudo que
não precisaria haver regime propriamente político, todos estaríamos
atuando diretamente
a lei
da physis em nosso simples
ser e estar aí, mas sim que
a monarquia estaria fundamentada: "Assim,
o pluralismo da deliberação [política] é, para Aristóteles,
apenas um mal menor, apenas um parco substituto em relação à
autoridade monárquica da ciência." (p. 187)
É
importante repetir
que essa concepção aristocrática
de democracia é o que
sucedeu aquele quadro que vimos acima, da reação anti-democrática
típica do período que vai de Nietzsche a Heidegger.
Ela se encontra
com a maior clareza em Raymond Aron por exemplo, e em Bruno Snell é
ligada explicitamente, quanto ao tipo psicossocial do aristocratismo
burguês, aos gêneros estéticos e modo de vida que se acomoda dos
tempos de Aristóteles ao helenismo propriamente dito.
A
democracia é o menos pior -
definição que já diz tudo sobre seu anti-liberalismo -
porque já se conhece o grande perigo do ditador carismático cujo
poder autoritário promana da multidão, explicitamente.
E o que há de bom nela é exatamente o que Sorel tanto lhe
reprovava, ser um sistema de legalidade cujo funcionamento implica
cultura letrada, de modo que pode-se fazer uma barreira de classe a
partir do controle aristocrático
sobre a educação.
Mas
implicitamente, nesse
elogio da aristocracia da letra,
que não é apenas aristocracia do mérito, mas do próprio acesso e
definição do acessível,
subsiste a lacuna sobre
a verdadeira representação do líder democrático relativamente a
uma população sem defasagem de acesso à cultura letrada, assim
como aos meios de produção,
e onde
a desigualdade já não seria efeito de uma distorção estrutural
como sistema do privilégio. Essa
lacuna porém é efetivamente preenchida pela ideologia
"antropológica" de que a suposição do povo como desejo
de iguais é falácia intelectualista, de modo que por
natureza o povo deseja o governo
dos melhores, e a divisão
tradicional aristocrática corresponde ao desejo do próprio povo.
Assim vemos Snell ligar o naturalismo da religião primitiva homérica
e o curso histórico da estabilização social da extratificação
ocidental cuja
elite é o tipo burguês-aristocrático, do helenismo à Europa
atual. A democracia vem então
como esse regime aristocrático capaz de conjurar o populismo, este a
versão atual do obscurantismo oriental antigo.
Ora,
Aristóteles conhecia o perigo do despotismo, mas não conhecia a
sociedade de massas como
dominação da consciência,
isto é, não conhecia o ditador carismático dos totalitarismos
tradicionalistas modernos, nazi-fascistas.
Podemos,
além disso, de fato afirmar
que o helenismo antigo produziu o tipo da democracia aristocrática
do alto capitalismo?
Essa
questão parece desbordar um pouco o que estamos examinando nesse
ponto, mas vemos pela citação de Aubenque, que,
se como
é informação corrente, a
reação aristocrática contra a democracia na Grécia
nunca cessou como partido de
oposição mesmo durante o apogeu ateniense, desde
Sócrates encaminhou-se num sentido não-grego, Sparta sendo
até aí o limite da opção
grega pelo conservadorismo. Ou
seja, a partir de Sócrates assimilou o "grande rei"
do oriente como ideal da
politeia, visando-o
como detentor místico do
saber filosófico,
enquanto que na Grécia típica a aliança aristocrático-religiosa
subentendera sempre
uma espécie de feudalismo. O
"grande rei" efetivamente típico desse entorno clássico
em que a liberdade na Grécia
havia sido a singularidade excepcional.
Aqui
a pergunta pertinente seria, pois, se a visão aristotélica da
reserva aristocrática do regime
enquanto restrição da cidadania ao senhorio - a família
proprietária-patriarcal como substrato de uma filosofia da natureza
social humana -
realmente antecipou o que viria a se universalizar como Império da
era helenística, de cuja emergência porém ele pessoalmente
participou dadas as suas relações de família com a côrte
macedônica.
Ora,
quanto ao que examinamos, o movimento conceitual de Aubenque nesse
ponto é o seguinte. Aristóteles defende em política a deliberação
pluralista contra ideais de
autoridade unitária, mas voltando-se explicitamente contra o que
seria a "tecnocracia" platônica em defesa dos
direitos de livre escolha dos "usuários", se uma produção
deve ser julgada por aqueles a quem se endereça sua utilização,
em vez de por seu autor.
Para
Aubenque "mais nada se disse, após a Antiguidade, contra a
'tecnocracia' e em favor dos 'usuários'" (p. 187),
esquecendo-se aqui das invectivas de Sexto Empírico contra o poder
das
veleidades
tecnicistas
em matérias teoréticas. De
modo nenhum restritas a Sócrates e que abarcam o próprio
Aristóteles na medida em que
todas dependem de prejulgar-se o acesso à natureza de todos assim
como de cada um. De fato,
Aubenque sublinha que o especialista, ao ver de Aristóteles, pode
atinar com o bom juízo sem deliberação, apenas por aplicação do
seu saber à matéria, mas se contenta com o argumento do usuário,
sem notar que, como em Sexto,
se o especialista fosse
competente, ninguém preferiria deliberar cegamente. O resultado
seria do agrado do
usuário. O que se censura é a pretensão desse resultado por uma
veleidade de técnica que não se verifica precisamente quanto aos
resultados. Assim Sexto já não julga diretamente se a retórica
enquanto técnica da persuação é algo bom ou não, mas sim
primeiro, se a retórica realmente é ou não uma técnica competente
como pretende ser. Entre os
que pensam que sim e os que negam que seja, o indecidível atinge o
próprio estatuto da retórica
como técnica, visto que
ninguém nega a uma téckné real
que ela é competente quanto
ao que pretende se o
profissional é bom, como ocorre com a medicina. A
concepção de Sexto porém é de que se pudesse ser demonstrado que
a retórica é eficiente naquilo que pretende, então ela seria algo
ruim, pois significaria despotismo carismático.
Assim,
sendo Sexto médico (o que significa "Empírico"), nele não
há vestígio da necessidade do retor para aplicação da receita.
Como sabemos, de fato o progresso técnico é grande da Grécia a
Roma, e nesta o papel da
tecnologia é importante naquilo que seria um mapa da epistemê, de
um modo que nunca foi na Grécia.
Mas que
em Aristóteles já se
deixa entrever pela célebre exortação ao mundo futuro
em que os fusos poderiam
trabalhar sozinhos, o
mundo da máquina quando só
então a escravidão deixaria de ser necessária.
Outrossim, conforme Aubenque
a especialização da aretê (virtude) como atribuição
exclusivamente moral - ao invés do que é "moralmente neutro"
como a ciência ou a habilidade - parece que só na época de
Aristóteles já havia sido feita (p. 190)
Ora,
pelo que vimos da a posição
do argumento aristotélico em prol da deliberação política
pluralista e da opinião é algo questionável. Aqui não seria
oportuno incursionar sobre a doxa em Aristóteles, salientando apenas
que para ele nada tem a ver com a heterogeneidade irredutível
da perspectiva, mas sim com a
relação de proximidade ou distância relativamente ao saber. A
opinião que acerta do ponto de vista de um saber virtual, é
verdade. Já a endoxa é a opinião prestigiosa, de modo que mesmo
não se tendo o saber, relaciona-se a algo que todos tem como
verdade. O silogismo utiliza-se validamente da endoxa como premissa
tanto quanto do saber, conforme o caso.
Mas
mesmo a
condição política positiva
de ser o "usuário"
logo se esfuma na decorrência
do texto aubenquiano,
ultrapassada pela condição
ética negativa de não
sermos detentores do saber. Assim,
nesse último caso, vem a
restrição da ética a apenas uma
estrutura da ação cujos elementos são a deliberação, a escolha e
o juízo, elementos
que a prudência reúne como regente, mas enquanto virtudes
do pensamento aportam
como resultado à ação que espelha só as virtudes morais.
Ora,
a dificuldade quanto à
ética, que Aubenque mesmo
sublinha, é a inexistência de mediação entre o que a prudência
pode reger enquanto capacidades do pensar, e a ação mesma,
enquanto moralmente virtuosa. Assim,
por um lado, Aristóteles ainda trai vestígios da concepção de
aretê "moralmente
neutra", estendendo-a a essas virtudes do pensamento que
precedem a virtude nesse novo sentido estrito, da ação moral.
Aquelas são puramente
intelectivas, sim. Mas
pelo ângulo em que precipitam ações de fato, ou seja, "enquanto
ordenadas
à realização do bem",
associam-se à virtude moral.
Inversamente, a eubolia como boa deliberação relativamente à ação
moral, pode se entender em outros sentidos, como a do estratego ou
técnico especializado. (p.
191, 2)
Como, por um lado, canalizar o pensamento à moralidade
da ação, de modo a fazer o pensamento,
sendo um meio que
apenas concorre para
a finalidade da ação,
coincidir com o julgamento sobre o próprio fim? E
como manter a independência de ambos,
pensamento e ação, por
outro lado,
se houver algum modo
de fazer na ação
enquanto moral coincidirem o
meio e o objetivo?
Aubenque
é de fato ambíguo nisso. Em grandes linhas,
como vimos, concorda que uma
"ética"
enquanto julgamento sobre os fins se torna impossível, mas que uma
antropologia da ação se libera, simplesmente.
O
que é fazer de Aristóteles como
construtor dessa "teoria geral da ação" um
contemporâneo da era de Weber,
mas sujeito às veleidades da ética do discurso de Habermas e Apel
em diante, no sentido da liberação de uma verdade ética também
dos fins a partir da
dependência da ação à argumentação possível de sua
defensibilidade,
sendo o jogo argumentativo sujeito a regras universais. Porém o jogo
linguístico não
é a ação, devíamos lembrar, e a verdade moral aí é apenas a
coincidência do ato com a intenção - não um juízo sobre a
intenção ela mesma enquanto moral prescrita, que poderia ser outra.
Extrapolar
esse limite só seria possível para uma ciência,
por definição pós-ideológica,
por exemplo a psicanálise, mas justamente ela não o extrapola
totalmente porque mais reconhece a impossibilidade
do sujeito sair por si só de
sua premissa "ideológica"
discursiva, aquela sobre que
a universalidade do argumento pode se aplicar, mas não originar. E
em todo caso, mesmo na qualidade de analista ou já analisado, o
discurso está sempre na imanência do seu desejo, ainda que uma
coisa é estar sem saber, outra é estar já sabendo.
Num
caso a argumentação existe mas não é consciente, e, assim, pode
ser prejudicada por recursos falaciosos. Já neste segundo caso a
argumentação se torna instrumento ético
da sanidade coletiva - na
impossibilidade, pois, de uma verdadeira política que nessa
delimitação seria dependente de uma posição real fora da
ideologia.
Ora,
o que mede a distância de um ao outro é a irredutibilidade do
primitivo e do civilizado. Mas como não é isso já uma
geo-política, se uma ciência da linguagem como reducionismo
universal-argumentativo
é de que depende toda a classificação e limite "ético"
da ação? Reducionismo que
não está garantido, porém, pela própria linguística
em que a pluralidade dos tipos de linguagem tem predominado sobre o
reducionismo. E uma
pressuposta como tal ciência
da linguagem que pretende ter elidido a oposição do jogo e da ação,
porque há uma linguística
dos atos de fala em
que ações são cumpridas, porém
sem observar que de fato nela não são todas as ações assim
cumpridas, e que em todo caso, a redução do
ser à linguagem seria, sim,
científica e não "ética".
Mas,
quanto ao que víamos, em
nota a esse trecho
que assinala a impossibilidade da ética aristotélica, na medida em
que ela seria
atribuição da virtude quanto aos fins,
não podendo haver outra, Aubenque
insiste em que a dificuldade pode ser resolvida.
Ele argumenta agora não
sobre a deliberação, boa ou má do ponto de vista da
finalidade da ação,
independente do
ponto de vista da
exequibilidade da ação
qualquer, mas sobre a
prudência. Ora, se a
prudência é a percepção
verdadeira não do fim, mas do que é útil ao fim, isso não estaria
em desacordo com a doutrina ética aristotélica do livro VI.
Conforme Aubenque, segundo a qual "a virtude moral assegura a
retidão do fim, a prudência a dos meios, mesmo se a prudência
enquanto vinculada à virtude moral não possa ser estranha à
qualidade do fim".
Não
creio que a dificuldade tenha sido realmente sanada, o que vemos pela
contradição aubenquiana entre o elogio da
teoria aristotélica da
deliberação à
página 188 - "nada
se assemelha mais ao inumano do que o sobre-humano" que dela não
precisaria - e a tese central
do livro. Nesta, entre as páginas 273 e 277, vemos um movimento que:
a) assinala o limite do humano frente ao divino
na tradição grega;
b) ultrapassa o limite pelo recurso da imitação do ato de
Deus, tanto quanto possível;
mas também porque os trata como mais "técnicos" do que
religiosos ou mesmo éticos; (273, 2745) c) torna impossível definir
o limite: "por certo os limites são imprecisos e é possível
para o homem, por seu conhecimento, sua ação e seu trabalho,
empurrá-los sempre para mais longe" (p. 276);
d) torna a limitar o possível do ultrapassamento pela "contemplação
distante do divino", agindo moralmente
assim porque "sempre guiado pelo horizonte do transcendente".
Porém sem resolver a questão dos limites de modo a que a imitação
se tornasse aí
compreensível.
Com
efeito, os limites
foram apresentados como intransponíveis na humanística, de modo
diverso da ciência. Na ciência, Deus tem
todo o saber, e se nós temos
apenas parte do saber, a
sapiência é sempre a mesma. Mas a ética é só humana porque os
deuses não necessitam da virtude de que se trata,
como de
prudência, temperança ou
coragem.
Como devemos lembrar, a
phrônesis é justamente o limite do pensar humano,
diferente da noesis
como pensamento objetivo.
E Deus
não precisa ser temperante ou corajoso porque não há obstáculo ao
seu poder. Como podemos
imitar a perfeição divina
das virtudes que Deus não possui?
O
atingir a perfeição do ato
de Deus "tanto quanto
possível", se nós não
o poderíamos integralmente,
resolve ao ver de Aubenque o que ele mesmo reconhece como "paradoxo"
(p. 277). Porém resta obviamente questionável que um paradoxo real
possa ser resolvido. Podemos
apenas reputá-lo falso quanto ao que se aplica. O paradoxo resulta
da restrição da ética,
justamente como não simplesmente uma teoria geral da ação.
Mas sim
uma teoria da moralidade
universal enquanto divinamente modelizada, e, ao mesmo tempo só
humana, irredutível à vida
de Deus.
Vemos
assim como Mondolfo também errava, ao supor que determinismo e
teleologia eram oponíveis em Aristóteles.
Se fosse, a própria argumentação que Mondolfo reporta, tanto do
Estagirista quanto de Teofrasto contra as objeções à eternidade
não cíclica do mundo a partir das evidências da corrupção dos
elementos, não teria
sentido. Como
vimos, a defesa implicava acatar algo da teoria cíclica, mas apenas
como compensação sempiterna das perdas pela renovação em forma de
ganhos, e não como hipótese de periódica conflagração universal.
Ora,
se Mondolfo nota que assim eles apenas visam um determinismo
intra-fenomênico e não a ação da causa final, a questão é que
não haveria necessidade do mundo ser eterno além do finalismo da
causa que o faz simplesmente ser enquanto ser. Isto
é, não apenas estar aí como existência factual, mas "ser"
em sentido ontológico (substancial).
E é este o ponto que defende a argumentação aristotélica da
eternidade idêntica a si, especificamente
contra a eternidade como ciclo da conflagração.
De
fato podemos considerar que em nossa moderna teoria física, o
determinismo tem sido defendido mesmo na presença do indeterminismo
quântico porque a cientificidade dos processos intra-fenomênicos
permanece garantida, independente do mundo ser eterno ou
não - e atualmente a hipótese
preferida é que não.
Por
outro lado, podemos questionar se o mundo eterno de Aristóteles
realmente existe além do ato puro do motor imóvel, isto é, além
dessa causa final, ela sim
eterna, que garante que o ser
seja, e que
está além do "ser" essencial. A matéria puramente
potencial é algo que '"existe"?
A meu ver, a transcendência antiga não comporta resposta afirmativa
a essa questão. Mesmo Platão não coloca um duplo do mundo ideal
como o mundo material,
mas sim um só mundo Real.
Este mundo que só pode
coincidir consigo mesmo enquanto conceito realizado, porém, a partir
de uma ciência que mede precisamente a irredutibilidade de ideal e
material. Enquanto ciência
possível originando-se
portanto da condição do
mundo material. A fantasia da
idealidade, que podemos
ver que é o caso devido ao modo lacunar como o pensamento se coloca,
resulta pois, um sintoma.
Na
ética aristotélica, vimos a mesma contradição
da idealidade, agora
explícita
entre uma doutrina que só tem utilidade pelo máximo afastamento,
mas que só se resolve pela máxima unidade possível,
de humano e divino, conforme
o recurso da imitação de
Deus pelo homem, quanto ao
critério ativo do moralmente
perfeito.
Quanto
ao problema da ética aristotélica, vemos que o cerne é a
necessidade,
ao mesmo tempo, de separar e
unir o pensamento e a ação. Ora, o cume dessa problemática se
reflete na controvérsia sobre como
devemos entender a oposição de sophia e phrônesis.
A
mesma relação
de sophia e phrônesis veio a ser um pivô da exegese recente das
obras de Heidegger e Hanah Arendt,
cuja divergência tem sido estabelecida principalmente em torno deste
ponto, como já vimos. O que
demarca a sua importância, podendo ser considerado o
divisor de águas em nada menos do que o sentido da démarche de cada
uma destas duas grandes influências do pensamento atual. A
tese de Aubenque quanto ao que aparece como a contradição de
Aristóteles entre a sophia e a phrônesis, conforme os textos de
Metafísica e da Ética, é apresentada como uma crítica à
explicação de Werner Jaeger. Mas assim reúne de modo bastante
competente o crucial na evolução dessa polêmica histórica,
revelando-se decisivamente esclarecedor quanto ao essencial na
divergência referenciada.
Ele
permite apreender que as posições de Arendt e Heidegger, tal como
definidas de um modo surpreendentemente homogêneo em Cassin e
Kristeva, não são totalmente originais, mas se inserem nas opções
já cobertas por Aubenque. Ou ao menos, que a oposição de Arendt
ao modo como Heidegger assimilou Aristóteles conforme a exposição
do Curso heideggeiano sobre o diálogo Sofista, de Platão, não é.
Ao contrário, repete uma das vias na polêmica generalizada da
época.
Quanto
à controvérsia de Arendt, desde já creio ser oportuno registrar o
caráter algo espantoso do comentário por meio do qual vem
apresentado por Cassin e Kristeva. Procede-se por uma cumplicidade
total ao ponto de vista de Arendt, mas se isso pareceria limitar-se a
uma questão de escolha, o problema é que a perspectiva dela está
posicionada de modo a distorcer a mera probidade da exegese
heideggeriana.
Assim
o expressa Kristeva ("O gênio feminino; a vida, a loucura, as
palavras. Tomo I, Hannah Arendt, Rio de Janeiro, Rocco, 2002, p. 81):
"Mostrou-se com frequência que a leitura de Aristóteles
permitiu a Heidegger opor, ao primado da consciência de Husserl, o
da existência prática e fundar assim a analítica existencial (a
primeira parte da ontologia fundamental)." Porém, se a crítica
à leitura de Heidegger não foi tão frequente, ao ver de Kristeva,
o ponto essencial é que Heidegger "parece levar em conta a
distinção aristotélica poiêsis/praxis (fabricação/ação)",
internalizada na obra heideggeriana em termos de cisão do meio
ambiente público impessoal como o mundo da produção, e do Dasein,
o self cuja resolução ou praxis é restrita como destino
exclusivamente de si.
Porém,
prossegue Kristeva, "... a clarividência, ajustada à praxis,
é para Aristóteles uma phronêsis (discernimento, produência ou
perspicácia de julgamento). É nesse lugar preciso que jaz a
modificação heideggeriana: a phrônesis ausente é substituída
pela sophia, no sentido de uma visão lançada sobre o ser, e não
sobre a 'rede de relações humanas'".
Ora,
estando esse trecho dependente da referência ao Curso de Heidegger
sobre o Sofista platônico, minha consulta ao texto não confirma o
comentário kristeviano - que porém parece reproduzir a
interpretação de Arendt, aluna do curso e que a partir deste se
dedica à Ética nicomaqueia e à Poética aristotélicas. Conforme
apurei, contudo, não é Heidegger quem afinal concede a primazia à
sophia ou theoria, relativamente não só à phrônesis, mas
inclusive à episteme, e sim Aristóteles, conforme as abundantes
citações do Curso.
Como
vimos acima, isto se justifica para Aristóteles, conforme o livro VI
da Ética: "... a sabedoria (sofia) decerto é o mais perfeito
dos modos ou formas de conhecimento", sendo "tanto
conhecimento científico quanto entendimento no tocante às coisas da
mais excelsa natureza", e uma vez que "... seria insólito
pensar que a ciência política ou prudência (sabedoria prática) é
a mais elevada forma de conhecimento posto que o ser humano não é a
melhor coisa do mundo." (VI, 7,1141a1, 15, 1141b1). Claro está
que não consideramos que o que se tem a fazer diante disso é deixar
tudo como está, reduzindo a interpretação à forma da epígrafe.
Mas daí a negligenciá-la por inteiro como se nunca houvesse
existido como importante à interpretação, não seria algo qu e
deixasse intacta a pertinência desta.
Ao
atribuir a Heidegger uma distorção do pensamento aristotélico, o
que se estabeleceu assim foi que Heidegger, num movimento de
desprendimento ou abandono de Aristóteles, o reduziu ao platonismo
da República. Não só Arendt, mas também J. Taminiaux, conforme
Kristeva, concebem que o objetivo teria sido manter que "Pensar
o ser é, doravante, pensar o tempo finito da práxis. Do que resulta
que o pensador do ser é , em última instância, o verdadeiro juiz
das questões humanas." (p. 224)
O
insólito aqui é que o Curso heideggeriano ostenta como
originalidade justamente o que poderia ser acusado do contrário,
como aristotelização de Platão, porém explícita e voluntária.
Heidegger se explica. Se ele concede apreciável parte do seu
alentado estudo a Aristóteles, não obstante ser dedicado ao Sofista
de Platão, é pela questão metodológica do acesso. Na verdade o
que está sendo visado neste estudo não é apenas Platão, mas o
universo historial da antiguidade grega em que um pensamento
platônico pode ter sido compreensível para si mesmo, e se
aquele já não é o nosso, como podemos esperar estar realizando
algo com sentido ao tentar compreender Platão?
O
acesso, pois, é o que decide da possibilidade da nossa própria
razão aqui, e que ela não se reduz ao arbítrio de uma tentativa
movida por veleidades inteiramente idiossincráticas como o seria
justamente o fascínio do exótico fetiche, por isso mesmo que não
seria compreensível de modo algum, o garante o fato de que a
definição qualquer de razão que podemos encontrar seja onde for
está presa dos constituintes da cientificidade ou logos ocidental,
relacionado como é à origem metafísica na Grécia.
A
demarcação rígida que Cassin e Kristeva fazem, seguindo Arendt,
desta mesma como politóloga aguerrida na oposição aos pensadores e
filósofos de gabinete como Heidegger, de fato não parece muito
coerente com a abertura do Curso, em que Heidegger especifica que
está se dirigindo a cientistas especializados em seus domínios - e
não necessariamente a fenomenólogos puros - que estejam na
contingência de ter que pensar o sentido dos seus afazeres como de
sua "vida científica".
De
fato a agressividade de Arendt sobre isso, exemplificada na rejeição
do epíteto de filósofa perante os telespectadores do programa de
entrevistas a que comparecera, e que lhe havia sido atribuído pelo
apresentador, é ambígua. Não se limita a reproduzir a oposição
entre a vida política com seus próprios conhecimentos do que é
efetivo por um lado, e saber abstrato suposto do ser em geral, por
outro, na medida em que fosse esta apenas uma limitação
disciplinar, quanto ao que se deve conhecer ou admitir como relevante
ao conhecimento. Conforme à transformação que Heidegger operou no
Curso, não há opção pelo conhecimento que não seja já um modo
de vida, e Arendt, agindo porém como se originalmente, generalizou a
oposição, julgando que pudesse ser simplesmente atribuída como
entre platonismo e aristotelismo, para uma escolha radical entre
isolamento e socialização. O que a seu ver, acreditando seguir
Aristóteles nisso, significaria a identificação de si com um
déspota ("aó o soberano está isolado") ou, invesamente,
com aquilo que o heroi dramático exemplariza na Polis, inserção
do bio politikós, como na vida. (op. cit. p. 80)
Ao
contrário de privilegiar Platão como o faria um rei filósofo -
bem platônico - Heidegger na introdução do Curso considera que o
único meio de acesso pertinente ao platonismo é o próprio
Aristóteles. Assim ele intitula inicialmente o que empreende neste
Curso: "Orientação ao Sofista de Plaão com Aristóteles como
ponto de partida". Pois esse meio é a reconstituição
semântica da língua grega, na especificidade de gênero filosofia,
o que podemos de algum modo obter relacionando o texto antigo com a
interpretação antiga, isto é, o texto platônico e o meio de sua
recepção. Este meio é porém progressivo, na acepção de que não
há apenas um, mas vários intérpretes cuja sucessão é cumulativa,
cada um devendo estar imbuído dos resultados obtidos antes para só
assim poder produzir algo de original. E aconteceu de Aristóteles
ser o último grande intérprete da linha socrática em que se
constitui o universo semântico do platonismo.
Sendo
o último, o maior, sem ninguém que o tenha historicamente
ultrapassado naquele contexto antigo, ele se torna para nós a
referência do que o platonismo pode ter sido enquanto um pensamento
endereçado ao seu meio. O que ao ver de Heidegger significa um
pensamento capaz de estabelecer com outros uma relação de
sucessividade que não está restrito a mera repetição, mas abrange
a mudança e novidade da realização. A metodologia do acesso é
cartesiana, pois sugere-se o percurso do claro ao obscuro, isto é,
tentar desvendar o que é obscuro ou desconhecido começando pelo que
já é claro e conhecido. Ora, o que a longa parte inicial do
Curso, dedicada a Aristóteles, em que Heidegger discute precisamente
o lugar secundário da prhônesis na partição aristotélica,
estabelece de saída conforme este, é que a questão posta por
Aristóteles é a do logos como verdade, Aletheúein, em
vários domínios do On e Aeí, assim como do Endekethai. Isto
é, do Ser e do que sempre é, assim como do possível.
Ora,
assim vemos que o principal é justamente que o ser não
se diz num único sentido - o prático ou o teórico.
Justamente,
segundo Heidegger, esse
é o ponto crucial na problemática epistemológica atual, uma vez
que sua relação histórica com a filosofia era
então algo tão decisivo
para tantos domínios de questionameneto, da antropologia e história,
à gnoseologia e política. Conforme
Heidegger, o situamento tripartite do questionamento
na época, entre experiência,
regiões do ser (disciplinas) e criticismo dos limites (filosofia),
estava por sua vez clivado pela apreensão da ciência como
conhecimento teórico, mesmo
enquanto "existência filosoficamente científica", o
que precisamente
em Platão e Aristóteles não é
o caso.
Em
Platão a cisão do Dasein
(existência) entre o mundo e
o homem
se traduz pela crítica da
opinião como o horizonte que precipitadamente os unifica, restando
a opinião presa no círculo
da ocultação que subordina
o sentido das coisas à necessidade do homem.
Em Aristóteles é a Ética
que opera a cisão, a partir
do modo de ser próprio da phronêsis.
Mas assim, mesmo que a ciência restrita a conhecimento teórico
fosse neles o ideal genuíno do conhecimento, restaria
a oposição da ciência especializada/aplicada e a filosofia como
teoria pura, ao inverso de
uma prévia e total unificação do ser como
do cognoscível, além da
heterogeneidade dos entes.
Aqui
podemos notar como a polêmica arendtiana força o
contexto, ao visar a primeira forma, a ciência
especializada/aplicada também como imediatamente engajada.
Ora, na tradução heideggeriana da verdade/a-letheia, a
des-ocultação ou
conhecimento possível não
está nas coisas,
mas primeiro em
seu encontro pela previdência ou interesse, isto é, o pensar na
prática, sem oposição
teoria/prática, inclusive porque o primeiro modo da desocultação
é a fala (legein , legomenon).
A
questão da verdade dos entes a partir do ser do homem, é tratada
pela denegação das teorias da correspondência entre
as palavras e as coisas, e do
valor subjetivo, que ao ver de Heidegger foram teorias subsequentes
na história - talvez como senso-comum e sofística, porque o que ele
está propondo é que a pluralização do ser em Aristóteles e
Platão é uma volta ao logos pré-socrático, em todo caso "grego",
logos como "modo de ser"
e "modo de vida".
Aí
a pluralidade caberia numa
bipartição geral entre dois modos do Logon Ekon:
o epistêmico e o lógico (epistemonikon e logistikon). O primeiro
está cindido entre episteme (ciência
especializada) e sophia
(theoria ou metafísica),
sendo ele próprio a região
que visa o que é sempre, o eterno (aidíon). O segundo está
cindido entre teckné e phronêsis,
e visa o que pode ser de outro modo, a região do contingente.
Aqui,
pois, encontra-se relativizada, ainda que compreendida, a grande
oposição de ser e devir que orientava a filosofia e parecia poder
definir a própria oposição da
metafísica do ser às doutrinas do devir como a sofística ou
heraclítea. Mas conforme Heidegger não ocorre que a metafísica
pensasse o ser fora do devir, como vemos. Mas sim diferentes
modos de ser. Aqui a
metafísica enquanto a modulação inclusiva da oposição de ser e
devir, a esta permite interpretar já não tanto como uma mutação
na história da filosofia grega que teria elidido o devir, mas cisão
originária do Dasein natural próprio do ser do homem, posto pelo
ser do homem que conhece visando
o eterno mas age num mundo contingente.
O
que Heidegger almeja com
efeito, expressamente,
é apreender o único e
mesmo genuíno impulso da metafísica, que reuniria ao invés de
separar, a Sócrates, Platão e Aristóteles, e
que teria sido o impulso rumo a uma análise do senso-comum, logo,
uma ruptura para com o senso-comum. O que Arendt parece não ter
apreendido do Curso, é que nesse ponto Heidegger insere o sentido do
conhecimento na espessura do objeto, ou seja, mesmo que fosse um
conhecimento da prática ele já não é a própria prática e
requer algo ulterior, a explicação de como procede ou de que modo
se possibilita.
Ela
parece ter apenas reproduzido o que a princípio, ao ver de
Heidegger, havia sido o limite do conhecimento. A
desocultação - esse sentido da verdade como aletheia - foi primeiro
ao que acedemos por uma consciência natural presa no círculo das
necessidades naturais. O
mundo dos afazeres que ilumina as coisas se transforma logo depois
num mundo da linguagem de coisas restritas em seu ser pela direção
dos nossos afazeres, e é essa a linguagem da opinião solidificada
como conceitos e proposições cujo limite torna-se o verdadeiro e o
falso segundo a ordem dos afazeres. Mas a natureza das coisas assim
ao mesmo tempo está já questionada como
objeto de um saber possível, e ocultada pelo círculo dos afazeres,
ignorância do que não se limita a eles, falsa concepção da
natureza restrita por eles.
Esse
círculo que começou como da des-ocultação
se fecha, pois, como o da própria -ocultação,
com a coincidência circular de fim e princípio circunscrevendo a
dupla ocultação, que requer pois um duplo acesso
de sua própria des-ocultação,
agora na forma da interpretação da metafísica. Esse acesso
filosófico deve ser ,
tanto fenomenológico enquanto visando
a intencionalidade da semântica, quanto histórico-fenomenológico,
discernindo as transformações e limites de um campo historial
restrito, que não coincide inteiramente com o senso-comum ou com o
presente mas ao mesmo tempo é o que neste presente desloca a origem
do que se faz como ciência e conhecimento, do que é possível fazer
estando nós sempre circunscritos num mesmo percurso do impulso como
da desocultação.
A
phrnêsis resta, pois, na um dos constitutivos do modo de ser lógico
- nesse sentido de contrário ao epistêmico, isto é, nesse sentido
do ser prático e contingente. Conforme Heidegger, a phronêsis é o
que torna a situação acessível, como ação em c ircunstâncias
sempre variáveis. Já a tekné é o que produz aquilo que vem a ser
como fabricado, e que portanto não havia antes.
Entre
os dois grandes modos do desvelamento do Ser, epistêmico e lógico,
não apenas oposição do ser e devir como das regiões do ser entre
o mundo e o homem, é que vem a pergunta sobre qual mais revela o
ser, e conforme Aristóteles, quanto ao epistêmico é a sophia ao
invés da episteme, e quanto ao lógico é a phronêsis ao invés da
tekné. A episteme e a tekné não são pois, os mais altos, mas são
os mais visíveis. O que teria se estabilizado dos gregos à
atualidade, é o modo epistêmico, que se subdivide em episteme e
sophia, enquanto a região do ser visado como o que sempre é.
Estabilizou-se assim um ideal
puro do conhecimento e do ser puro, que porém a questão da
experiência e dependência antropológica do devir ocidental,
enquanto desvelados pela ciência moderna, voltaram a dever
questionar. Eis por onde, em todo caso,
a superioridade da sophia, que neste modo foi colocado
por Aristóteles como o mais
alto constitutivo na subdivisão do modo epistêmico.
Porém
aqui o que Heidegger enquanto intérprete original opera, não é a
reificação do aristotelismo como império
da sophia
na tradição. É
sim a questão do tempo, que ele descobre intimamente relacionada à
do Ser como à sua pluralidade constitutiva. Em se tratando do modo
epistêmico, Heidegger assinala a ligação do ser
que sempre é (cognoscível) com o aión, o tempo aiônico. O que
vimos com Mondolfo ser procedente, por
ser o aion o tempo do que permanece, assim
Heidegger o traduz como presença, na acepção de duração, vida.
Ele
referencia aqui o capítulo 3 do livro VI na Ética nicomaqueia. O
objeto da episteme enquanto ciência é definido como os seres que
sempre são, se a episteme tem por referencial o verdadeiro,
aletheion. Ao ver de Heidegger, isso implica que mesmo a
interpretação do ser - nesse sentido tradicional do que sempre é
como do cientificamente cognoscível - ocorre na base do tempo.
Primeiro, porque o céu
estabelece o aion das coisas vi vas, assim o que sempre é precede
qualquer das coisas que vem a ser como sua origem.
Se
o mundo é agheneton, incriado,
e o
ser nessa acepção transcende o devir, significa conforme Heidegger,
sim, o oposto do que vem a ser num momento do tempo. Mas se na Física
(delta, 12, 221 b 3ff.) consta expressamente que "aquilo que
sempre é, enquanto sempre é, não está no tempo" por ser
imutável, por isso mesmo o fora do tempo são "infinitos
agoras" do que é sempre não mensurável - sendo o tempo o
mensurável. A
compreensão de Heidegger do infinito em potência, na medida que o
ato é sempre de um agora mensurado, amplia-se pois no rumo da
complementaridade entre o eterno acima do tempo e o sempre
temporalizado, justamente se o primeiro só pode ser pensado na
oposição ao segundo. O problema da interpretação deveria
transcender a oposição interpretada, finitismo
ou infinitismo, quanto ao ato possível, e
dirigir-se à
condição
do seu enunciado. Heidegger
interpreta o eterno como a ilimitação ou ápeiron dos agoras, o
mundo/céus numerante implica que o fora do tempo é um pensamento
temporalizado.
A
meu ver, Heidegger nesse ponto é mais arendtiano do que deveria,
ainda que a própria Arendt não o quis reconhecer. Pois
esquece-se do que é essencial ao pensamento aristotélico, a saber,
a identidade absoluta de Deus enquanto pensamento ou ato puro. É
este,
o absoluto transcendente ou conceito, o
que não foi pensado na dependência
do tempo numerado
ou
na do mundo efetivo numerante,
mas, pelo contrário, naquele gesto de anulação de
toda imanência, enquanto a lei de sua estrutura.
Pode-se
argumentar que a lei pensada implica o que ela regula, porém o
caráter posicional da implicação, o grau de proximidade ao motor
imóvel como grau de proximidade de si a si mesmo, como antes
observei, é aquele outro pensamento que após a anulação opera a
reentry do que
foi proscrito. O interessante a meu ver é porém a absolutez desse
gesto, na transgressão de todo dado e imposto como ser
nessa contingência que é a vida concreta como a conhecemos todos
nós,
e o que ele permite fazer a partir de ter sido essa
transgressão possível.
Se
esse gesto corresponde a
um
desejo de eternidade,
a um mecanismo de defesa pelo qual simplesmente se nega aquilo que
não se quer como a finitude, que
está inevitavelmente implicado na percepção da duração, da
permanência temporalizada, a
questão não é negar que seja assim, porque não pode não ser. Mas
visar o que foi realmente feito e desejado na Metafísica, e porque,
a despeito do seu sintoma, de sua cegueira ao que estava ela própria
fazendo.
A
despeito, pois, de sua loucura. Podemos considerar que Heidegger e/ou
Arendt foram realmente críticos da Metafísica
nesse rumo do seu desejo? Ora, se a intenção de Heidegger, bem
inversamente àquilo de que lhe acusam os arendtianos, foi a
pluralização do ser na e pela metafísica, quanto
a Arendt podemos questionar muito mais a sua limitação a um dos
lados da pretendida oposição
platônica
do ser/ devir
como de teoria e prática.
Na
verdade, ao interpretar Aristóteles como contrário ao pensamento
teórico e um pensador da prática política,
pelo que seria a reinserção por ele operada de mito, história e
teatro, na filosofia, vemos que Arendt
torna a subordinar a
des-ocultação ao círculo da necessidade
que não
poderia pensar-se a si mesma. Como
um avatar da new left, Arendt a limita a episteme ao que poderia ser
sempre só
"engajada" conforme um fazer coletivo que recorre a um
determinismo inteiramente extrínseco como a narrativa, esse locus da
construção de identidades puras. Fazer coletivo que Arendt
acreditou Aristoteles ter discernido na imbricação da Poética, o
teatro clássico, como
liame político e ético da vida da Polis, o bios politikos.
A
loucura não está apenas na cegueira do ser ao seu fazer, mas na
produção de um impedimento positivo desse perceber.
Ao
contrário, a démarche de Heidegger a partir daquele
ponto em que se trata de pensar as relações de tempo e eternidade,
a partir da emergência histórica de uma metafísica do ser
enquanto ser acima do tempo do devir, é
descobrir a origem comum de que Aristóteles pode fazer as partições
subordinadas resultando na oposição. Ou seja,
descobrir
como, a despeito de ter
sido pressuposto haverem
coisas que sempre são enquanto cognoscíveis, e
coisas que mudam enquanto contingentes, Aristóteles não descura a
evidência de que o
contingente como o mundo humano é também pensável como o fazer
humano. A
oposição modulou-se, pois o devir natural foi para o lado do ser
enquanto subordinado ao que sempre é - não obstante esta e aquela
planta ou animal, o gênero planta e animal nunca mudam, são
eternos, identidade pura.
A contingência não é já natureza, mas inversamente, tekné, seu
oposto, e phronêsis, convenção ética. Nada
que subsiste sem pensamento, justamente.
A
razão pela qual,
conforme Heidegger,
a sophia ou
theoria em Aristóteles é
o elemento mais alto do modo de ser epistêmico, é que o outro
elemento, a episteme ou ciência especializada, trata igualmente
dos seres que sempre são, mas não alcançam a arké, a origem, e
sim o faz a (filo)-sophia como grau superior. Quanto ao modo prático
("lógico"), a tekné não sendo o elemento mais alto, em
todo caso relaciona-se
ao endekethai ou possível enquanto nesse gênero do que pode ser de
outro modo, seja como poiesis ou praxis. Ora,
aqui a episteme retorna como praxis (ação) do conhecimento, isto
é, da verdade. Mas
se geralmente
a ciência
serve a um fazer, ação ou produção, praxis ou poiesis, agora
"todo comportamento do Dasein" é determinado por
Aristóteles "prática da verdade", a
práxis sendo produção do pensamento, dianois poietike.
O
produzir é o objetivo da tekné, mas ela só procede tendo a sua
arké em seu produtor,
o homem. Contudo aí a arké e o telos não é o trabalho (produção),
e sim o resultado (produzido). A origem não está na finalidade, e é
nisso que a tekné, mesmo sendo aplicação da ciência, não é
genuína a-letheia. Para que fosse, devia descortinar algo
não restrito a essa dissimetria. Heidegger salienta assim que é um
erro confundir a hylé como "matéria", pois o material da
tekné é só o eidos, a presença do produzido na mente do produtor,
assim como da casa na do arquiteto. Ele também assinala a
interdependência etmológica entre tekné e tiké, a produção e o
ser contingente,
casual.
O produtor não tem em si a finalidade
que
ele inicia
por si.
O arquiteto não tem em sua natureza a casa que produz, de um modo
bem oposto à geração da espécie, por exemplo, em que os filhos
são gerados pela identidade específica dos pais.
Quanto
a phronesis,
Heidegger mostra que em Aristóteles, quando
relacionada à episteme seria restrita ao campo da doxa, mas
relacionada à tekné, é aretê (virtude). Assim o homem
é o dasein natural, a existência
em que se recolhe a atribuição do ser assim
como do fazer.
Ao
contrário de Taminiaux, é do homem enquanto o que faz, que a
atribuição
do ser (imutável) também
é feita. É
aqui que, não obstante a desocultação ter avançado bastante
com
Heidegger
para além da lou cura,
podemos questionar se ele permanece arendtiano, naquele
sentido de um retorno da oposição tal que a hierarquia nominal de
theoria filosófica e phronesis prática se inverteu.
Sendo
o homem o dasein natural, compreende-se
vulgarmente o phronimos
como aquele que bem delibera tendo por objeto da deliberação a
existência, as consequências
da decisão, enquanto na tekné como vimos o produzido permanece como
tal extrínseco à existência. O
meio da deliberação é a discussão. O logizhexthai,
argumentar e discutir, como ponderar e deliberar, é diferente da
apódeixis,
a demonstração
ou prova
de que algo é como é.
Isso
decorre de que o dasein é a arké da deliberação segundo a
prudência
ou phronesis, enquanto a sophia é relacionada a esta na medida que a
questão teórica (metafísica) é o Agathon, o bem. Aquilo de que se
delibera segundo a prudência é evidentemente o bem da existência,
de cada um ou da Cidade. Assim
há aí a subliminar noção de koinonia entre psyké e ousia. A
koinonia é a unidade,
união, do
que é eteron, heterogêneo. Psyké é a alma e ousia as essências
ou substância, o verdadeiro, o que é. Heidegger
interpreta a potência em Aristóteles exatamente como essa koinonia.
Assim ao menos quanto a isso ele expressamente
aproxima
Aristóteles e Husserl,
a partir da descoberta por este da "intencionalidade" como
o visar das coisas pela consciência em que elas se discernem em seu
ser.
Porém como vemos, se em todo caso as divisões do ser em si só podem ser conceituadas na imanência do existir do próprio conceituador, o homem, e uma dessas divisões corresponde à situação dele como quem delibera, então ao ver muito arendtiano de Heidegger, o mais importante à interpretação deveria ser a proposição do livro VI, 7, 1141b1, 10. O trecho em que Aristóteles define quem bem delibera como "o homem que, através do cálculo, é capaz de chegar ao mais excelente dos bens humanamente obteníveis", estando aí expressa a phronêsis enquanto o que "concerne aos assuntos humanos e as coisas que podem ser objeto de deliberação".
Porém como vemos, se em todo caso as divisões do ser em si só podem ser conceituadas na imanência do existir do próprio conceituador, o homem, e uma dessas divisões corresponde à situação dele como quem delibera, então ao ver muito arendtiano de Heidegger, o mais importante à interpretação deveria ser a proposição do livro VI, 7, 1141b1, 10. O trecho em que Aristóteles define quem bem delibera como "o homem que, através do cálculo, é capaz de chegar ao mais excelente dos bens humanamente obteníveis", estando aí expressa a phronêsis enquanto o que "concerne aos assuntos humanos e as coisas que podem ser objeto de deliberação".
Na
interpretação de
Heidegger, isso implica que a phronesis é de fato o maior e o mais
alto concernente ao homem. Bem inversamente ao que Kristeva atribui a
Heidegger, como o avesso de Arendt. Segundo
ela, por causa do que
teria sido a "modificação heideggeriana" de Aristóteles,
enaltecendo a theoria acima da phronêsis, em Heidegger "a
resolução do Dasein é privada, situada acima da opinião pública,
bem longe da compreensão de outrem e da indulgência próprias da
phronêsis". (p.
83)
Aqui
é importante notar porém que não é o político que está servindo
de medida à concepção arendtiana da phrônesis aristotélica como
uma prédica da vida pública. Inversamente, Heidegger privilegia o
trecho que citamos enquanto algo coerente com a posição
aristotélica do homem como animal político.
Mas
por que consideramos
que assim deveria ser?
Como também
Aubenque salientou, o
importante na delimitação de Aristóteles quando se trata de
definir a phronêsis, não em termos gerais, mas em
sua aplicação e seus produtos na vida da humanidade, o
referencial deixa de ser uma definição de
prudência e se torna
exemplos de homens prudentes, os quais se concentram afinal em torno
de Péricles.
Ao
invés, Arendt opera aqui uma junção a meu ver inexplicável da
Ética com a Poética - junção que não
está expressa na primeira nem na segunda. Conforme Kristeva, ao ver
de Arendt o phronein ou "pensar sadiamente" como um saber
limitado e consciente de seus limites, próprio ao homem por oposição
à
noesis dos deuses, a phronêsis se manifesta especialmente na
tragédia". Em
outros termos: "a representação trágica é , nesse sentido,
indispensável a uma vida em comum, a um bios politikos no qual a
plavra encena conflitos com vistas a resolvê-los na publicidade e na
igualdade." (p.
82) Há
aqui uma série de mal-entendidos notáveis em minha concepção,
os quais derivam dessa arbitrária junção.
Primeiro, é bem sabido, e não
creio que haja muita dúvida sobre isso, que se
Aristóteles considera
a Poesia - a epopéia mitológica
que se desdobra de modo
a abranger o "drama sério" -
mais importante do que a história, ele o faz como um meio de definir
o objeto do que designa "mito", ou seja, aquilo que é
representado no drama constituindo o conteúdo da epopéia. O
critério da importância aí é justamente ser mais ou menos
aproximável da sophia, isto é, da filosofia como conhecimento do
universal.
A
Poesia sobrepuja todo gênero "História" ao ver de
Aristóteles, porque esta trata o contingente, o fortuito, como o
que Alcibíades fez e o que lhe aconteceu, portanto o que poderia ser
de outro modo. Ao contrário, a Poesia encena valores universais, a
ação dos deuses, e é por isso que o valor da encenação teatral é
despertar a piedade, como sentimento religioso. E
o desperta quando a
cena é capaz de provocar a catarse, a purgação das paixões por
meio da comoção.
Arendt supôs,
erroneamente a meu ver, que por meio da Poética de Aristóteles se
poderia reconstituir
uma genealogia da história herodotiana,
originando-se na cena
homérica de Ulisses ouvindo suas próprias aventuras sendo-lhe
narrada na corte do rei dos feácios. Na
época cosmopolita da Polis teria havido apenas a translação dessa
percepção da
singularidade dos
feitos do homem enquanto ruptura da ordem natural,
percepção ínsita ao mito e aos trágicos assim como a Poética
teria que ter equacionado,
para o linguajar comum que afinal se tornou registro escrito de um
gênero destinado a conserva-lo na memória.
Na Polis, pois, os feitos do homem se tornaram o assunto comum.
Porém
justamente não haveria nada mais impossível, creio eu, do que
Aristóteles considerar como a mesma coisa a sucessão de fatos
atinentes à biografia de um homem qualquer e daqueles que perfazem o
enredo mítico sendo relativos ao percurso do heroi. De
fato a tradição grega não o confunde, pois por exemplo em
Pitágoras a sucessão dos estados de perfeição anímica abrange
quatro graus de ser: homem, heroi, espírito e deus.
A
definição de verossimilhança como critério de excelência poética
em Aristóteles não é portanto, a simples coincidência da cena com
qualquer coisa que poderia ter acontecido
na efetividade,
contrariamente a invenções fantásticas do autor. A verossimilhança
como critério poético é a concatenação sucessiva dos eventos que
vive o herói enquanto expressando
eles a "necessidade"
rigorosa do seu destino - justamente isso que não existe nem pode
existir na História como
gênero herodotiano. Quanto
ao critério poético, a História é rigorosamente inverossímel,
não expressam os eventos nenhuma concatenação segundo alguma
necessidade de ordem superior.
Mondolfo é aqui interessante
ao registrar que na polêmica estoica contra a eternidade não-cíclica
do mundo, que afirma o peripatetismo, um
dos pontos era que segundo os estoicos, se o mundo fosse eterno desse
modo, a humanidade teria que ter atingido uma perfeição que está
longe de ser o caso, pois teria tido muito tempo para aperfeiçoar-se.
Aqui Aristóteles riposta com o argumento de que infinitas vezes
houve catástrofes que obrigaram à reconstrução
do trajeto progressivo.
Então, como Mondolfo estabelece, é curioso que Aristóteles poderia
tê-las colocado "em relação também com causas históricas"
como guerras, invasões ou epidemias
(op. cit. p. 155).
Porém observa que
ele não o faz, conservando o valor do exemplo apenas de vicissitudes
naturais. O que é
compreensível pelo que vimos, se ele nunca associa História e
concatenação necessária dos fatos.
Além
disso, a queixa
arendt-kristeviana de
que Heidegger abandona Aristóteles,
abrange a acusação de que "ele não abandona menos, fazendo-o,
a conflitualidade e a pluralidade
da praxis segundo Aristóteles, bem como seus modos discursivos
particulares que são o mito, a história a tragédia."
(p. 84). Porém
não se compreende como
a história está assim unida de um modo verdadeiramente existencial
a mito e teatro em Aristóteles, uma vez que nele o que expressa
também na humanística a cisão da transcendência é
justamente a defasagem da história com respeito ao universal
expresso na Poesia.
Muito
menos que misteriosa pluralidade é essa, uma
vez que na abrangência de Arendt, o que ela deve expressar é uma
oposição bastante duvidosa entre poder e autoridade. Por um lado, o
poder das ideias platônicas que se exercendo-se por aplicação
equivaleriam a uma "latência tirânica" do pensamento na
política, por outro a
"autoridade, que Aristóteles", o filósofo do modo de
vida, teria sido "o
primeiro a pensar,"
fundada não sobre uma "dominação",
mas sobre "uma
'natureza'
feita de 'diferenças'".
Mas há alguma diferença entre as ideias platônicas e a
"natureza", desde que concebendo-se que possa ser tomada em
si, como o que sempre
é, acima da
efetividade?
É
certo que todos conhecem a oposição de Sócrates e Aristóteles
relativamente à virtude enquanto possivelmente definida só pelo
conceito ou comportando o valor de exemplo. Também
aqui caberia a oposição entre a superordenação do mesmo em
Platão, e a relatividade aristotélica da contingência quanto à
avaliação da ação enquanto virtuosa. Porém devemos lembrar que
os diálogos platônicos em torno dessa questão geralmente conduzem
ao mesmo ponto da necessidade de se definir o critério comum da
avaliação, a justiça, e geralmente não avançam até alguma
satisfatória. Quanto a
Aristóteles, podemos afirmar que ele pôde supor ter explicado o por
que, a partir do vínculo da contingência na ação, que só pode
ser julgada se conhecemos a disposição do agente e as
circunstâncias localizadas.
Ora,
Aristóteles se pronuncia a propósito de Sócrates, afirmando que
ele estava certo ao afirmar que todas as virtudes dependiam de uma
só, a prudência, porém errado ao pretender que todas as virtudes
são formas de prudência. Contudo, para evitar a dedução de que
elas seriam isoláveis
entre si, ele afirma que isso só é possível quanto as virtudes
naturais, não quanto as que o tornam apto a ser considerado bom
moralmente. Se um homem possuir a única virtude da prudência, terá
todas as virtudes morais juntamente com elas.
Esse
trecho parece-me algo incompreensível, e Heidegger também questiona
a possibilidade de se entender o texto aristotélico a
propósito da preponderância da sophia, uma vez que a phrônesis é
que é própria do homem.
Em
todo caso, vemos que essa questão é inerente ao fato de que na
phrônesis não há o universal, mesmo se princípios gerais entram
no cômputo da ação.
Realmente a linha do pensamento é contrária à subsunção da phrônesis à theoria, porque esses princípios gerais podem ser de conhecimento útil, mas não sempre necessários e é por isso que frequentemente o homem comum experiente tem mais êxito na ação que o sábio especializado.
Realmente a linha do pensamento é contrária à subsunção da phrônesis à theoria, porque esses princípios gerais podem ser de conhecimento útil, mas não sempre necessários e é por isso que frequentemente o homem comum experiente tem mais êxito na ação que o sábio especializado.
O
exemplo de Aristóteles aqui é o homem
que conhece o princípio geral de que carnes leves tornam a digestão
fácil, mas não sabe quais tipos de carne são leves, assim um
homem que sabe apenas que carne de frango é saudável (leve) tem
mais chances de restaurar a saúde
(livro VI, 1142 a, 15).
Nesse ponto, Kristeva julgou com Arendt tratar-se de uma
especificação da phrônesis como conhecimento do universal e do
particular, de modo que porque o fator da percepção está
envolvido, Aristóteles
teria antecipardo
o julgamento estético
kantiano. Como vimos,
realmene aí há uma dependência à experiência, porém o sábio na
desvantagem não era o físico e o filósofo, mas sim o matemático e
títulos similares
que um jovem podia ter,
e, por outro lado, o universal de que se trata não é propriamente o
filosófico, importante na argumentação socrática.
Reexaminando
a questão da preminência expressa da theoria (filo/sophia)
em Aristóteles, como
vimos, Heidegger considerou que a obscuridade que cerca as relações
sophia-phronesis -
expressa na correlação aristotélica pela qual a sophia é a saúde
e a phronesis é do que precisamos para recuperá-la ou mantê-la -
em Aristóteles deve ser relacionada
à
estrutura do ser na concepção grega.
Ser é essência, e sophia ou theoria é essência, sendo o homem
pensante (inteligência).
Mas se o homem tem que relaxar, se ele tem que suspender
temporariamente sua concentração teórica,
e se envolver com o que proporciona esse relaxamento, então ele está
de certo modo em devir.
O ser-todo é negado ao Dasein.
Assim Heidegger relativiza a preminência da sophia, a partir da
relação desta na Etica com a felicidade, o
que o conhecimento teórico mais alto permite à prudência
realizar. Só
há moralidade se há prudência, mas só há prudência se há um
saber mais alto
relativo ao que é o
bem ou felicidade enquanto realmente o desejável - tal que
pudéssemos por exemplo
descartar o prazer, ao
menos o prazer que não vem do exercício da virtude, como desejável,
a despeito das aparências.
Em
todo caso, a oposição de Arendt entre o pensador de gabinete e o
cientista engajado me parece um modo bastante artificial de
interpretar a questão real na história das ideias, da oposição
entre os ideais de vida contemplativa e ativa. Uma
vez que tantas vias de ação são determinadas pela obra de um
pensador solitário, ou do passado
longínquo relativamente
àqueles que agem hoje confiando apenas em seus textos,
quando a oposição não tinha o sentido de hoje,
constituído à sombra da cunhagem marxista da modernidade.
A
propósito, a oposição artifical
do engajado e do pensador de gabinete, como
vem sendo radicalizada desde o final do século XX pelo desdobramento
da new left
nas políticas que se
imbricaram com a ilegalidade
criminosa e
o preconceito religioso
na distorção oportunista
do que a princípio
emergiu como contestação "de minorias"
sobrepondo-se à de classe,
tem visado Nietzsche e
não Heidegger, na posição de antagonista que Arendt estabeleceu
para este. A forma da
acusação ao pensador privado alienado, ambicioso do poder, sem
teoria social, etc., é a mesma, não cabendo repetir aqui. Heidegger
vem sendo acusado do oposto, engajado sim porém no nazismo. Contudo,
como informa Kristeva, a montagem do
discurso arendtiano a propósito de Heidegger foi feita congeminando
ao que hauria de
Heidegger, suas
leituras de Nietzsche
(op. cit. p. 80).
Mas
a oposição mesma é o
que Aubenque permite apreender,
como deveremos
examinar, ter sido de
fato construída na
exegese dos textos de Aristóteles,
em torno dessa questão das relações sophia-phronesis. Logo, por
uma certa posição a ser tomada concernente às relações
Aristóteles-Platão. Pois, o modo da construção, se relança pela
via dos partidos envolvidos na polêmica, as posições que grosso
modo, com ou sem razão, foram atribuídas a Arendt e Heidegger como
preferência
respectiva pela vida
ativa ou contemplativa, se
alicerça numa questão que até aí não foi devidamente colocada. A
saber, que a complexidade
da relação
entre Sophia e
Phrônesis não se
estabeleceu primeiro no
texto da Ética e na problemática que aí se articulou. Mas sim na
contradição aparente entre o tratamento aristotélico destes
termos, conforme a Metafísica e a Ética.
Como
salientei, Aubenque reconstitui
as posições dos intérpretes dessa contradição a partir de sua
própria crítica àquela que foi primeiro a
posição de Werner
Jaeger. Na defesa de sua crítica à tese de Jaeger, Aubenque lança
mão dos argumentos que vem se somando ao longo do tempo em torno do
lugar da phrônesis
na obra aristotélica,
o que envolve naturalmente a interpretação do aristotelismo.
A
contradição de Aristóteles vem reportada por Aubenque em torno da
igualdade ou diferença de phronesis e sophia,
que até aqui temos traduzido por prudência e sabedoria ou, como
vimos em Sciaca, sabedoria e sapiência.
Os textos de Aristóteles contrastam nesse ponto. À exceção da
Ética, vários deles tratam ambos os termos por sinônimos. Mais um
parênteses nos será necessário antes do desenvolvimento.
Aqui
nós devemos lembrar que a polissemia
do termo
"sabedoria" em nossa própria língua está informada pela
história da filosofia.
O
primeiro sentido que visamos associa, como desde Sócrates e Platão,
a sabedoria com o que eles julgaram que a filosofia deve fornecer,
conhecimento
do que é perene e
imutável
mas não no sentido do
que sempre dura como o devir, e sim do que nunca se transforma como o
ser. O segundo sentido
é o que associa "sabedoria" com o contrário da "ciência",
seja especializada ou
naquele sentido teórico-filosófico do platonismo. Não é o
conhecimento universo,
do todo ou de uma parte,
mas humanístico, como
saber da salvação na
religião, fórmulas do bem viver, experiência
de vida ou preceitos de
moral. É nesse sentido
que Sciacca utilizou o termo como traduzindo a phronesis, reservando
"sapiência" à sophia. Como Aubenque informa, esse
problema da tradução foi também construído na evolução da
polêmica em torno da contradição aristotélica.
É
verdade que a emergência do período helenístico, em que o objetivo
da filosofia grega se
transladou a um humanismo generalizado,
por desespero da especulação ou por se amalgamar aos interesses de
religiões nacionais em prol da unidade intelectual do Império
cosmopolita, sobretudo Roma,
é o que geralmente se
reporta como a origem da
ênfase na diferença
de sentidos do termo.
Assim
é trivial
considerar
que,
com o "helenismo",
a filosofia
passou a se limitar ao ideal da "sabedoria" na acepção de
Sciacca, demarcando por
esse meio a tendência típica ao abandono do ideal do conhecimento
puro. Mas
como vemos em Aubenque, a evolução da problemática da phronêsis
aristotélica está justamente relacionada à transição da
mentalidade do período
clássico ao helenista.
Aqui
estou considerando helenismo não apenas o período alexandrino, mas
todo o decurso de uso da língua e cultura grega para efeitos de
unidade intelectual de um domínio imperial tão único quanto vasto,
assim tipicamente o de Roma.
A
unidade cultural
helenizada existiu como
referencial comum da classe internacional que foi
tipicamente elite comercial-industrial escravista-expansionista,
oriunda de todos os
horizontes nacionais
ajustados ao império, como cobriu bastante bem Rostovtzeff sobre a
história da Grécia. Essa
classe de proveniência
étnica e nacional variada, por vezes de nacionalidades que surgiram
apenas ontem devido a acontecimentos de guerra, e por si
empreendedora de misturas étnicas singulares, utilizava
o grego, desfrutava
dos mesmos
espetáculos e refenciais culturais oriundos da Grécia ou
desenvolvidos a partir de modelos gregos,
conhecendo os mesmos atores, músicos,
e demais celebridades,
sendo porém dotada de
mobilidade exemplar. A
autoctonia territorial
ou da língua era
tida por inferioridade de classe, e um meio de se sobressair além do
poder econômico era
engajar-se nesse novo tipo de exército, na figura nova do
mercenário, o soldado contratado a dinheiro.
Conforme
Rostovitzeff, a classe internacional do poder econômico imperial,
originava-se em
horizontes nacionais mas de modo algum tipificado
por ele ou localizado nele, como se espera de homens de negócios que
precisam viajar constantemente e tem residência em várias capitais
de um mesmo mundo integrado
das transações. Esse
mundo era
aliás de fronteiras ambíguas. A elite foi
um núcleo da
integração
territorial definida
pelos limites em expansão militar
do Império,
mas o que a integração
enquanto econômica
alcança ultrapassa o núcleo, abrangendo as rotas comerciais até a
seda da China. Assim
é compreensível que o
helenismo exclusivamente
como influência cultural alcançou
também o extremo oriente,
como testemunha a majestosa escultura de
"Hércules e o leão de
Nemeia" (
50 a 330 dc) produzido em
Madura, importante centro de escultura religiosa provavelmente com
origem na
era pré-budista.
Exemplo entretanto de que
os motivos greco-romanos dos herois olímpicos eram
expressos em termos hindus e utilizando o grés vermelho local.
É
evidente que a comunidade de cultura grecizada foi
apenas um pretexto para adaptações nacionais
sob os auspícios do poder imperial ou expressando-o
- no caso dos judeus, entretanto um dos elementos étnicos
integrantes da classe internacional, localmente o resultado foi o
choque cultural que resultou na
revolta dos Macabeus,
tendo lugar na
transição macedônico-romana.
Os acontecimentos culminam na designação de Antioquia a Jerusalém
sob status de cidade grega e subsequentemente na dominação por
Roma, com o território
sendo recuperado somente na atualidade.
Assim
é compreensível que tanto mais estabilizado estivesse o poder
central do Império,
o que ocorre somente em
Roma, maior a margem de
originalidade que a
elite poderia almejar
para si, não obstante ela jamais poder se dispensar totalmente da
influência grega que a caracterizava por oposição à
classe inferior folclórica
nacional. É
interessante observar assim que Carpeaux, julgando tão artificial a
essa classe mesmo em
Roma, tenha salientado
que o direito romano, como contribuição de originalidade real, não
veio dela, mas da cultura genuinamente nacional.
Por outro lado, a meu
ver o ecletismo de
Cícero expressa a
vontade de se singularizar
mais própria da elite imperial,
pois não pelo viés da
mistura de conceito grego e motivos religiosos nacionais, mas
sim utilizando os
modelos gregos da
filosofia para
sobrepujá-los na própria amplitude das matérias que eles criaram.
Além
disso, a estabilização do império em
Roma trouxe consigo
tanto o contrário da
tradição clássica, com o cristianismo, não obstante a utilização
posterior para efeitos de letramento e não sem conflitos
continuados, como outros
elementos
culturais
heterogêneos
bárbaros , que
não se estabilizaram nessas novas nacionalidades europeias que ainda
são as de hoje por fusão
ao influxo
do helenismo, e sim
cristão.
Mas
a própria relação de helenismo e cristianismo é um locus
histórico de consideração importante, não sendo Aristóteles aí
capítulo perfunctório. Pelo contrário, Aristóteles se tornou
desde a Idade Média tardia, o principal referencial da autoridade
eclesiástica do catolicismo, e contraditá-lo na
versão assimilada pela igreja na adoção de São Tomás como
doutrina oficial foi
ao longo de
séculos imputação
de crime de heresia, com as consequências brutais que a Inquisição
introduziu.
Vemos
que a história do cristianismo intercepta o helenismo, mas
transformando-o profundamente, dado que Aristóteles não foi
tão importante naquele mundo antigo a partir justamente da tendência
anti-intelectualista do
helenismo, em prol da
"sabedoria" de vida.
E que a importância do
peripatetismo para o catolicismo reside na conciliação de fé e
razão intelectiva que o sistema aristotélico permitiu a São Tomás
realizar num momento em que estava renascendo a prática dos estudos
leigos que vai
desembocar, sob o influxo do renascimento comercial, na modernidade
da ciência.
A
ironia histórica está aí,
uma vez que é nesta
escolha da "sabedoria"
de vida como elemento
preponderante dos ativismos engajados justamente pelo viés dos
culturalismos contrários à unidade do intelecto científico,
que Aristóteles é
hoje possivelmente o adversário do assim considerado intelectualismo
solipsista de Platão.
Como vimos acima, Aubenque
trata por indissociável
a temática da originalidade aristotélica relativamente ao
platonismo, da inserção política e histórica
dos pensadores. Assim ele situou Aristóteles, como também me parece
o caso, na transição dos períodos clássico e helenista, algo não
caracterísito do platonismo, este cabendo sem dúvida no
classicismo. Aqui,
tratando do motivo do contraste
dos usos do termo phronesis e sophia, conforme diversos textos
aristotélicos, Aubenque inicia a defesa de sua tese contrária a
Jaeger tangenciando
justamente a essa questão. Aqui ele já tratou a evolução da
exegese que desde a Antiguidade veio aportar à posição de Jaeger.
Uma vez que é nessa evolução que a cisão de vida contemplativa e
vida ativa ou política
se consumou, Aubenque inicia a exposição do seu próprio ponto de
vista pela
consideração do caráter paradoxal que assumiria qualquer opção
pela via política
"no momento em que a dissolução da cidade grega se consuma e o
cidadão de Atenas, mesmo que se convervem algumas aparências,
tornou-se súdito de um Império cujo governo e leis não são mais
submetidos à sua deliberação". (op.
cit. p. 32)
A
evolução da problemática origina-se, pois, pelo contraste entre os
usos aristotélicos do
termo "phronesis",
conforme a proveniência dos textos. O início
e o livro M da
Metafísica,
o De Coelo, a Física e
os Tópicos, constam
como exemplos da utilização deste termo em sinonímia com o saber
próprio da (filo)-sophia. Mas na Ética nicomaquéia, a palavra
phronesis designa uma realidade completamente oposta, "não se
tratando mais de uma ciência mas de uma virtude". (op. cit. p.
22)
Aqui
a oposição que Heidegger tratou
como vimos, do
logistikon e do epistemonikon, aparece
traduzida em termos respectivos de partes calculativa e científica
da alma, conforme conhecemos coisas contingentes ou necessárias.
Considera Aubenque essa
oposição algo
bastante estranho.
Porque assim, na Ética,
não só a phronesis, que naqueles outros
textos é a mais alta
das ciências, já não é ciência, como
"nem mesmo é a virtude do que há de científico na alma
racional", já que "designa, de fato, a virtude da parte
calculativa ou opinativa da alma". A diferença, inclusive, é
ressaltada como a contrariedade máxima nas duas fontes. Lá, a
phronesis como saber é desinteressado e livre, aqui, como virtude da
parte não-científica, é devido a uma carência, pois os homens a
procuram em vista dos anthrópina agathá,
em grego os "bens
humanos".
Mesmo sendo intelectual, a prudência não está associada à
contemplação, mas ao saber "oportuno e eficaz". (p.
23,24)
(...)
(em elaboração_)
Como
ressaltei, Aubenque não considera a hipótese de Aristóteles ter
apenas mudado de contexto. Se a palavra podia ser usada na língua
corrente sem diferença quanto aos
saberes
teórico ou eficaz, ela só iria ter uma
acepção conceitual,
demarcada
além dessa comunidade de sentidos
na polissemia corrente,
se fosse o caso de um texto especialmente voltado a constitui-lo.
Já
examinamos como Aubenque cobriu a evolução da palavra na língua,
na parte III e conclusão. É
certo que na sua
concepção, repetindo, a palavra phronesis
teve sempre um sentido
de limite, como do pensar limitado à humanidade por oposição aos
deuses, de Homero a
Aristóteles.
Exceção
entre as demais que se especilizaram em domínios intelectual ou
afetivo, o termo
phronesis
teria conservado
a unidade de significação,
ao mesmo tempo intelectual e prática,
original. Já
com o verbo noein,
a filosofia arriscou a transgressão desse limite, visando
a ciência como saber possível do homem, assim um saber coincidente
com a verdade em si que não poderia ser diversa da que os deuses
conhecem. Platão teria
sido a exceção ao usar de modo indiferente phronesis e noein como
objetivo do saber essencial. Aristóteles,
cujo uso remete às fontes tradicionais ao invés do platonismo,
de certo modo contudo
amplia
o limite da phronesis
popular pelo critério
da imitação da perfeição de Deus.
Assim
a hipótese da mudança de contexto realmente
não se coadunaria com a concepção filológica de Aubenque, uma
vez que o uso conceitual aristotélico na Ética é o que ao seu ver
coincide com o popular, apenas ampliando-se de certo modo. Porém
resta a questão de por que Platão teria sido exceção, se
geralmente a mudança de sentido,
do corrente para o
conceitual,
não opera por
assimilação de termos opostos.
Mas pelo contrário,
pela segregação de significados antes associados a um mesmo termo.
Ora,
aqui, nesse início, ao
contrário, Aubenque julga que Aristóteles não utiliza um critério
popular, e sim exclusivamente aristocrático.
Não há uma definição do que
é phronesis, além da generalidade de ser virtude e de que tipo,
além do que o phronimos, o homem considerado modelo de prudência,
demonstra em sua ação como regra do seu agir. Mas
essa "participação imediata na moralidade" é só própria
da alma "bem nascida"
que não apenas segue os bons hábitos que um Estado bem policiado
incute em seus cidadãos, mas positivamente elabora por si mesmo "a
reta regra". As almas assim bem nascidas formam "um pequeno
número de eleitos", e os outros viverão sob o exemplo de sua
reta regra. Assim, conforme Aubenque, "O phronimos permanece em
Aristóteles, o herdeiro de uma traadição aristocrática, que
concede à alma bem nascida um privilégio incomunicável ao vulgo".
(p. 104) À frente, quando espero retornar ao tema da potência em
Nietzsche, pretendo retornar às referências de Aubenque sobre a
aristocracia em Aristóteles, que aqui não se dobra pelas
considerações democráticas que vimos Aubenque enunciar alhures. É
algo inteiramente oportuno,
já que ele mesmo
associa Nietzsche com trechos de Aristóteles - objetivo que é o
deste nosso estudo
na recuperação de uma "filosofia da potência".
Por
outro lado, quanto ao
termo phronesis, a
unidade de sentido da
tradição, que Aristóteles
teria sido o último a
tentar conservar, não é
nesse trecho inicial o
de um termo oposto ao que a sophia quer dizer enquanto, neste mesmo
Aristóteles da Ética, oponível à sophia. Não
é a de um saber limitado ao homem por oposição ao ideal dos
deuses. A unidade é
justamente de teoria e prática, como do "saber"
científico comunizável e a "incomunicabilidade" da
experiência de cada um, assim como
unidade entre "a
lucidez previdente e o heroísmo", "a inspiração e o
trabalho", "o bom senso e a singularidade", "o
bem natural e a experiência adquirida".
(p. 105)
A
partir de Platão, e porque Aristóteles pôde ser interpretado à
luz do platonismo por usar a sophia
como theoria ou saber
em si, é que a
oposição veio a se estabilizar - não obstante o próprio Platão
proceder apenas o objetivo filosófico de um saber não limitado,
e assim usar o termo
phronesis nesse sentido exclusivo.
Essa
colocação, que me parece contraditória ao que vimos ser depois
acrescentado, vem
conforme a interpretação de Aubenque, pela qual não deveríamos
opor tão fortemente os dois modos pelos quais Aristóteles se
expressou, uma vez que na Ética ele teria apenas estabelecido uma complementaridade de sophia e phronesis, inversamente a uma oposição total entre ambos os conceitos. Eles seriam termos complementares como dois modos inerentes ao ser de um mesmo homem.
Se
a contradição de
Aubenque é
demonstrável, é oportuno observar que nesse trecho inicial
ele ainda
não recorre ao
seu conceito próprio
da evolução do termo phronesis, conforme
apresentará bem depois na ordem expositiva do livro. Mas utiliza-se
da referência a Onians (The origins of European Thought), para uma
menção abrupta à "história da palavra" que
assim já estaria
esboçada. (p.
48) Não deixa porém,
com brevidade, de
assumir já aqui as premissas de que Aristóteles considerou abstruso
o desvio platônico do uso corrente, e que suas próprias fontes
nesse uso foram as populares. Porém salienta que em sua crítica a
Platão, Aristóteles não foi sempre totalmente original.
Mas seguiu
pistas deixadas pelo próprio texto platônico,
em que o uso popular relativo ao saber limitado moralmente, assim
especificado tal qual mais à frente e não como nessa parte inicial
vai ser designada a unidade dos dois sentidos, é conotado ao menos
para ser motejado.
O
pendant da modulação platônica é que a prudência
popular enquanto saber limitado moralmente
tem um componente de cálculo, que Sócrates então reformulou,
numa atitude voluntariamente crítica e anti-popular, na
acepção do único cálculo que julgava digno desse nome, o
matemático ou teórico.
Mas
desse modo não há uma posição definida sobre qual era ao ver de
Aubenque o sentido popular da phronesis: saber limitado moralmente a
partir da própria limitação do ser do homem ao domínio prático,
por exclusão das
possibilidades do saber
em si dos deuses, que os filósofos ambicionaram como científico na
acepção de teórico ou filosófico; ou unidade dos
dois saberes,
teórico e prático.
Tornando
assim precárias nossas possibilidades de decidir
sobre a sua
concepção na problemática do
contexto, Aubenque contudo certamente
não pensa como Werner
Jaeger, que os textos
de Aristóteles com exceção da Ética foram produzidos numa fase
inicial da carreira, testemunhando a influência de Platão. Nesses
textos, ao ver de
Aubenque, Aristóteles
não está se
utilizando de um modo de ver que mais tarde irá corrigir. Desde
sempre ele pensa a unidade da phronesis e sophia enquanto ambas
desempenhos intelectuais, lembrando que aquela não é diretamente a
ação, mas o que torna
moral a deliberação que a esta induz. Mas também em todos os textos
aristotélicos essa unidade não seria
como em Platão, simples extensão do saber teórico das essências
ao saber prático, mas uma ruptura imanente à teoria.
(p. 38) Não há, pois,
na concepção de Aubenque, um domínio prático autônomo em
Aristóteles, no sentido do que pudesse ser ao mesmo tempo que o ato, a disciplina de ensino correspondente.
Há
um modo pelo qual podemos considerar que Aubenque tangenciou a
questão do contexto, se ele também critica a interpretação de
Gadamer.
Este
pronuncia-se sobre um texto não citado até aqui, o Protrético. Na
reconstituição de Jaeger, este texto de Aristóteles tipifica o uso
platônico que ele mesmo fazia
inicialmente do termo
phronesis, servindo assim de modelo de
uso contrário ao que será o ensinamento autêntico de Aristóteles,
expresso somente nas
Éticas, à Eudemo e à Nicômaco. Aubenque
mostra porém que o Protrético é atribuído a Aristóteles a partir
da reconstituição que Rose, Walzer e Ross fizeram de um texto de
Jâmblico, o qual se atribui como plágio de Aristóteles. Se
Rabinowitz contestou inteiramente
a atribuição, Dühring considerou que partes de Jâmblico devem
ter sido plágio, mas que ele mudou trechos relativamente a
Aristóteles.
Aubenque
pende para a posição de Dühring, mas assim como
o menor fator que já bastaria para interditar o Protrético no
estatuto de documento autêntico da evolução do pensamento
aristotélico. Ora, Gadamer argumentou que "protrético" é
um gênero e não apenas o título de um texto, e gênero cuja
intenção é tornar
atraente a filosofia, de modo que não aprofunda divergências
teóricas mas ao
contrário disso utiliza recursos que
apresentem conceitos que possam aparecer como da filosofia em geral.
Porém
ao ver de Gadamer, se
é preciso negar qualquer
atribuição do uso do "protrético" à
singularidade do pensamento aristotélico, quanto a este seria
atribuível uma lei geral pelo que ele sempre usa palavras em sentido
corrente naqueles contextos em que não se trata da defesa de teoria
própria. É só quando o
contexto se relaciona à exposição de alguma teoria específica
sua, que Aristóteles lança mão de termos conceitualmente
definidos. Assim não
haveria um critério cronológico que pudesse distinguir a
anterioridade ou posterioridade de um emprego terminológico por
parte dele.
Aubenque
considera que realmente não há tal critério, o que corta a
credibilidade da tese de Jaeger, uma vez que nunca a palavra
phronesis é usada na acepção da Ética além deste mesmo texto.
Mas o problema aqui, devemos lembrar, é qual o sentido que os outros
textos utilizam, uma
vez que se é o platônico, o
contrário dele como o conceitual aristotélico se limita,
como demonstrou Aubenque,
ao uso corrente na língua.
Contraditoriamente
porém, como vimos
aqui, apresentando esse
uso corrente ora como o que exclui, ora como o que inclui, a acepção
teórica, além daquela que limita a phronesis a uma qualidade
de pensamento limitado ao prático.
Em
todo caso, certamente nunca se dá que o uso corrente da
phronesis seja unicamente o de pensamento teórico, e Platão somente
o teria usado assim. Ora, nesse caso, Aubenque faz ver que
respeitando a partição
contextual de Gadamer, seria preciso inverter a dedução dele.
Pois todos
os textos com exceção da Ética utilizariam um sentido não
corrente, e sim exclusivamente platônico,
conceitual e não linguístico. Já na
Ética o uso seria
linguístico, e só nesse sentido, conceitual,
conforme à
singularidade aristotélica.
Mas
se Aubenque aceita a partição contextual
de Gadamer, embora
deduzindo o contrário sobre seu conteúdo, como
podemos relacionar esta conclusão com aquela que ele está
defendendo como a sua, pela qual não há qualquer diferença de uso
em todos os textos aristotélicos, mas sim de aplicação?
Nessa conclusão sobre Aristóteles, a
teoria é sempre o mesmo âmbito que reúne phronesis e noein,
enquanto se está referenciando a teoria tanto faz usar um ou outro
destes termos, e só é preciso especificar usos próprios deles
quando se trata de
requisitar um domínio específico, humanístico, da teoria.
Aliás,
aqui, o uso platônico mesmo do termo phronesis em sinonímia ao
noein
deixa de ser único e se torna típico do filosófico; todos os
filósofos teriam renegado o uso corrente,
e Aristóteles teria sido original por reatar com o uso
pré-filosófico, vulgar, arcaico, do termo.
Ao contrário, o trecho
à frente em que Aubenque trata a evolução da palavra, como vimos
já, parece considerar que ao contrário de outras não houve uma
transformação do termo phronesis desde Homero, e que os filósofos
utilizaram para seu objetivo científico novo o termo noein.
Por
esse meio, em todo
caso, Aubenque encontra
um motivo fortemente contrário a Platão na atitude aristotélica
que consiste em resgatar o que o purismo conceitual
deste abandonava, a saber, as fontes populares e dramatúrgicas.
(p. 44,
5)
Porém
o heroi dramatúrgico não é phronimos necessariamente, deveríamos
lembrar, a exemplo do Édipo - pelo contrário, o
tipo soberbo sucumbe castigado por negligência dos costumes
regulados pelo deus, sobretudo por não ter ouvido a exortação
reiterada dos que foram
atentos à regulação.
E os pensamentos de deus é o contrário da limitação semântica do
phronein
que,
se exercida pelo heroi
consciente de sua mera humanidade,
teria evitado o fim trágico.
O heroi dramatúrgico
pois, é o contrário do phronimos.
O
destino aqui é o importante, já que a
queda do soberbo ocorre necessariamente como consequência de uma
opção imprudente, que
manifesta porém somente a individualidade dele. As exortações que
lhe foram apresentadas
poderiam ter sido levadas em conta e é espantoso que não o fossem,
já que foram tão repetidas
e provenientes de quem seria maximamente necessário ouvir,
tornando a opção transgressiva espantosa,
tão grandemente inusitada, ainda
que do ponto de vista do soberbo inteiramente coerente com os
motivos de sua ambição.
Nesse caso do Édipo, sua ambição de saber, de tal modo que pudesse
ser o legislador único.
Como
já ressaltei, o que Aristóteles valoriza na Poética dramatúrgica
é a exemplaridade do Universal que aí se torna possibilitado, ao
invés do acesso conceitual. Porém assim o teatro aristotélico é
um outro meio da contemplação
como acesso à verdade religiosa do universal, a qual é inteligível
e não sensível ou circunstancial. Não
é a performance de um homem prudente na circunstância do seu
pensar efetivo, mas sim
a manifestação aterrorizante da
verdade de origem
sobrenatural sempre
a mesma e cujo ser é Deus, contra
que tal homem
pecou.
A
ruptura do conceito de "cena" como
representação de um conceito inteligível só acontece na época de
Artaud, tendo neste um
dos maiores artífices. A
revolta contra a redução do teatro ao texto, ao invés da perfeita
independência destas duas instâncias, enfeixa os temas dessa
problemática lançada na vanguarda estética.
Como
Virmaux ("Artaud e
o teatro")
esclarece bem, Artaud
não descende de Nietzsche. Na verdade a concepção deste a propósito
do teatro grego se afirma anti-aristotélica, mas não rompe com a
representação inteligível. O fundo passional dionisíaco, isto é,
não individualizado, que estaria sendo lacerado pelo destino
individualizante mas restaurado pela transformação da dor em
espetáculo cênico, de fato expressa uma oposição de
totalidade-individualidade
apenas paralela ao
dualismo apolínio-dionisíaco,
inversamente a reproduzi-lo.
Apolo
é mais do que a forma, a legalidade que o destino
interrompe enquanto individualidade
transgressiva, mas
restaura na consequência que faz o destino abranger
castigo. Mesmo na
concepção nietzschiana seria impossível dissociar a valorização
do fundo passional indiferenciado,
da legalidade em que o
contrário, o individualizado, deve ser castigado. A
caracterização nietzchiana acaba no oposto
de si, na fórmula do
teatro-virtude por
redução do mito à legalidade punitiva da
individuação.
Nietzsche evidentemente jamais
considerou o teatro grego não-religioso.
Logo, não poderia ter rompido com os limites cênicos da
representação. Se
efusão comunitária pode não ser o mesmo que catarse, de fato ambas
tem algo em comum, serem uma espécie de alívio, sentido
absolutamente em comum por todos, contra a irrupção da diferença
de um só. Ambas subsumem o sentimento coletivo à intelecção do
princípio geral. O essencial canônico é a impossibilitação do
desvio da recepção relativamente a esse resultado "absolutamente
em comum".
Não
visa o teatro nietzschiano a alterar a sensibilidade puramente
subjetiva,
inversamente ao
feiceiro que induz alguém especificamente,
ou a uma plateia mas nessa qualidade de mera reunião de pessoas
subjetivamente afetáveis, a estados hipnagógicos que produzem
efeitos unicamente subjetivos
e assim variáveis, o
que inversamente é caso em Artaud e na vanguarda que dele procede.
Quanto
à Poética aristotélica, devemos lembrar que sua atitude não é
assim tão anti-platônica se está endereçada como cânon e não
simples cobertura do
que ocorre na efetividade. Assim como em Platão, não se diz que
todo poeta é mentiroso, mas que há um tipo de poeta que é, e
aquilo de que se trata na teoria é especificar qual é o cânon da
boa poesia, do bom poeta,
como cânon do bom espetáculo.
Aquele que reproduz a
lição do universal que não se limita a uma prescrição do que é
ou não adequado a um caso idiossincrático, fortuito, mas
encena o que é a piedade, como a justiça, a partir do dever
primeiro religioso. Aristóteles
com efeito define o mau teatro, aquele que se desvia da encenação
exclusivamente da norma exemplar, seja por índole do autor ou por
sua complacência com
um público de
gosto corrompido.
Tanto a estética de
Platão quanto de Aristóteles são censórias e tem sentido
político.
Aqui
a contradição de Aubenque parece nítida, pois, se por um lado ele
testemunha tão fortemente o aristocratismo da phronesis
aristotélica, nesse ponto ele considera o anti-platonismo de
Aristóteles como intenção de encontrar fora da filosofia, na
sabedoria popular, mais filosofia que entre os filósofos.
Realmente
a definição de quem é prudente em Aristóteles referencia o que
todos consideram
assim. Mas se vemos que
nele o ser prudente está numa ligação com o ser feliz que não
reproduz a polêmica socrática sobre a infelicidade do déspota
não-virtuoso, por outro lado ele restringe mais, e não menos, o
círculo dos verdadeiramente felizes nessa
acepção inteiramente socrática do virtuoso.
Já
não
é qualquer um que pode, bastando submeter-se como o escravo ao sábio
socrático
que
conhece as matemáticas,
recuperar
pela lembrança o seu conhecimento inato do bem.
A ética aristotélica não garante, por sua simples leitura, a ação
virtuosa na efetividade.
Longe
do prazer
tanto quanto possível,
ou
melhor, limitando seu prazer ao desempenho mesmo da virtude, o
feliz é aquele que reúne qualidades que o vulgo admiraria, aqui
Aristeles se alinhando de um dos lados que o platonismo encena
contrários
na polêmica sobre as relações do poder com a felicidade.
Mas
não só elas, atravessando assim para o outro lado.
Aquele
em que está Sócrates, este que começa por
firmar sozinho sua posição, se preciso for contra todos, mas
termina por provar que a sua é a posição de todos.
Pois
se
todo o mundo
conhecesse
o
destino que castiga os ímpios
ainda que pareçam
poderosos,
o fato desse castigo ser na eternidade apenas agravaria o terror pelo
destino do poderoso, ao invés
de se atribuir felicidade
ao
desfrute
de que goza por meio do crime. Pois
todos querem o mesmo, evitar a dor e ser feliz.
Com
efeito, a
ligação da sophia com a phronesis na Ética
aristotélica, de
modo que nesta a sophia precisou comparecer como um tema não
perfunctório, é necessária devido à ligação da ética com a
felicidade. Não
basta, pois, ser habilidoso
- ser feliz na acepção terrena ou imediata.
É
preciso submeter a característica da ação desejável ao critério
do bem. A prudência orienta na escolha da ação desejável, mas é
o
conhecimento
universal
do que é o bem que orienta ao critério na escolha do moralmente
desejável
quanto ao bem e ao mal. E,
como já observamos, Aristóteles considera que só algumas almas
são,
enquanto nobres,
convenientes a esse conhecimento,
aqui o recurso da imitação sendo reservado a estas, e relativo a
Deus.
Assim
a interpretação de Aubenque a
propósito da phronesis aristotélica permanece
a nosso ver obscura. Conforme
a entendo, se
Aristóteles
utilizou as fontes populares, em que não há o teórico mas só o
prático, não obstante ele reuniu o prático e o teórico na
circunscrição geral do teórico e não do prático.
Ou seja, na
circunscrição em que o platonismo se originava, reatando sim, mas
com a filosofia enquanto crítica da limitação da consciência
vulgar, aquela que pode ser desvirtuada pelo nefasto criminoso
que só quer matar, roubar e destruir.
Deixa-se,
fascinada, persuadir
por ele, não porque
não almeja o mesmo que o universal da consciência determina como o
que toda
alma deseja, mas porque carece do conhecimento
do meio assim como
do verdadeiro sentido do fim. O
mesmo erro do déspota.
Pode-se considerar de
algum modo que entre Platão e Aristóteles, a leitura desse erro
como individualmente saneável desrelativizou-se, e não
inversamente. Ora, a
problemática do universal nascendo com Sócrates em termos da
polêmica contra a sofística, vemos que nesta também
não havia um relativismo tal que o propósito da controvérsia não
pudesse se manter, como demonstra os textos platônicos, numa base
comum da generalidade do desejo quanto aos fins.
Todos sempre
concordam que é
universal a evitação
da dor e o desejo do
prazer, ainda que não o desfrute de coisas e sim a felicidade da
alma - seja esta mero
pathos subjetivo, ou ser eterno.
Porém o limite
humanístico na sofística é relativo à perpectiva de cada um,
quanto à definição de dor e prazer. Em Platão, aparentemente é,
mas de fato não, se a dor é correlato do castigo,
consequência de certos atos anti-naturais e não natureza
inevitável. Em
Aristóteles já não é, nem aparentemente.
O problema assim
encontra um limite em Aristóteles, porque a questão é de início
encaminhada a partir da base de consenso geral. Se
a meio de caminho argumentar é necessário frente a quem
parece não pensar
do mesmo modo, trata-se de mostrar que
erra
na ligação do antecedente ao consequente,
e não que
pensa de fato de outro modo por
princípio. Na verdade
podemos notar como isso implica forçar muito o argumento. Péricles
é phronimos segundo a opinião geral, em Aristóteles, porém na
verdade ele foi alvo de processo por ter limitado sua ligação com
Aspásia a concubinato.
Após Aristóteles,
o "saber
de si" a que se
cinge o filósofo helenístico
parece destinar-se a
eliminar tal obstáculo. Ao
contrário de recorrer-se à opinião geral para provar que o
particular efetivo é apenas caso do universal necessário,
rejeita-se por inteiro
que a opinião do povo possa ser guia do sábio
quando pela própria posição de alguém como sábio deveria
implicar o contrário, ou, em todo caso, que a sabedoria é
adaptar-se, pessoalmente, às circunstâncias inerentes à sua vida
pessoal, as quais não
são generalizáveis. Resta que a lição da adaptação pessoal, só,
é generalizável.
Lição do saber de si: conhecimento das próprias possibilidades e
impossibilidades
pessoais, assim como adaptáveis às circunstâncias mutáveis
naquilo em que nos afetam pessoalmente.
Mas assim não
se trata de opinião, como da aparência na perspectiva
própria, e sim dos
fatos concretos, sociais e políticos, históricos naquela acepção
que repugnava a Aristóteles
como algo que devesse contar como referencial de qualquer saber
possível. Em pleno
helenismo, Tické, a
deusa da fortuna,
substitui todo o antigo
panteão.
O "tiquismo",
conforme Bréhier, tornou-se
o referencial limite do conhecimento filosófico.
Conforme Cícero, ao
invés da sabedoria, é a
fortuna,
a sorte, quem
rege a vida. Aquela
adapta-se a esta, e não
inversamente.
Já a
concepção de Aubenque a propósito
da posição de Aristóteles enquanto antecessor imediato do
helenismo é algo
singular, como veremos
em seguida.
A tese de Jaeger
foi contraditada por Aubenque na medida em que afirmava
um progresso do pensamento aristotélico, do platonismo inicial à
originalidade do pensador maduro. Que a Ética possa ser assim
cronologicamente situada, é o que Aubenque nega a Jaeger.
Mas a atribuição da
fidelidade do jovem discípulo ao seu mestre, da qual resulta a
influência do platonismo na produção
de estreia, consta na
maioria do autores em
história da filosofia,
assim como a originalidade do sistema amadurecido que o platonismo já
não basta para compreender.
A interpretação dessa
evolução é o lastro de toda apreensão situada do aristotelismo.
Assim o lugar da Ética torna-se crucial, repetindo, à avaliação
dele, originando a controvérsia entre teses da ação e da
contemplação como o
que o caracteriza relativamente ao ideal contemplativo do
platonismo.
Como Aubenque
observa, Jaeger (...) /// os trechos do estudo que puderam caber em blogs continuam nos assim intitulados "filosofia da potência" II e III ///
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ATENÇÃO: Neste blog estou utilizando o Abbagnano original, não a versão dita revista ampliada que está circulando nas livrarias. Este blog protesta contra essa versão, pois de fato ela não é apenas acrescida de verbetes
assinados como contribuição de autores recentes, mas sim muda arbitrariamente o texto de alguns verbetes de modo que resulta falsidade ideológica a atribuição à autoria de Abbagnano.
Especialmente quanto ao que utilizei aqui, o verbete "potência", está alterado nessa nova versão, que não registra o sentido atribuído a Nietzsche, tendo sido esse verbete do original que me inspirou a escrita deste blog que está em elaboração - como as postagens foram sustadas pelo provedor, continua em Filosofia da potência II, III, respectivamente os endereços:
https:elianepensamento brasileiro.blogspot.com
https:cativeiroinfomi.blogspot.com
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(...) continua; blog em elaboração...
blog em elaboração/////
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(...) continua; blog em elaboração...
blog em elaboração/////